Leia a parte 1 da visita ao set no Especial Watchmen
A decisão de rodar Watchmen - O Filme completamente no Canadá (de setembro de 2007 a fevereiro de 2008) deu-se pelos incentivos fiscais, a proximidade de Los Angeles - ficava fácil levar carros e elementos de cena tipicamente estadunidenses ao país - e pela impossibilidade de filmar em Manhattan, Nova York, onde a história se passa. O problema é que a cidade como era em 1985 é totalmente distinta da que é hoje. O visual teria que ser ainda mais sombrio e desolado. Num mundo que vive a iminência de uma guerra nuclear, simplesmente não há espaço para preocupações como pintar a casa ou arrumar um vidro quebrado... assim, várias ruas de Nova York foram recriadas no Canadá, seguindo à risca o visual pessimista de Watchmen.
"O filme se passa quase todo em 1985, mas não é o mesmo ano que conhecemos. É uma realidade alternativa, na qual o surgimento de um ser superpoderoso impactou o planeta. O Doutor Manhattan é quase um deus... e quando um deus caminha entre nós o que acontece com a política, a religião e a sociedade?", explicou Debbie Snyder, co-produtora do filme e esposa de Zack enquanto me mostrava a "Sala de Guerra", uma enorme sala de reuniões coberta totalmente por quadros da HQ ampliados, artes conceituais, fotos de referência, storyboards e esboços.
Havia uma certa linearidade naquelas paredes recobertas de papel. Os primeiros metros mostravam o período pós-Segunda Guerra Mundial, quando os primeiros heróis (pessoas comuns, trajando fantasias espalhafatosas) surgiram na história. Todos aqueles elementos foram empregados na elaborada seqüência de créditos iniciais que abre o filme, ao som da canção "The Times They Are A-Changin´" de Bob Dylan.
"Sentimos que todo aquele passado elaborado que Moore criou e nos contou através de trechos do livro dentro da HQ Sob a Máscara, precisava ser utilizado de alguma maneira. Contaremos nela eventos históricos e o passado dos Homens-Minuto [Minutemen, o primeiro supergrupo]", seguiu Debbie. Ali estavam, entre outros quadros, a porta giratória na qual Dollar Bill prende sua capa, Sally Jupiter posando para fotos depois de capturar um bandido e algumas novidades inteligentes, como ilustrações da super-heroína por Norman Rockwell. "Estamos pegando coisas que conhecemos e dando a elas um novo ângulo. Vamos até recriar o assassinato de J.F. Kennedy. Mas haverá algo um pouquinho diferente nele... é muito divertido", explicou a produtora. A idéia também atravessa as gerações e chega à próxima superequipe de heróis, como pude ver no quadro seguinte - o Coruja pintado por Andy Warhol. "Tudo isso dará ao filme a âncora na realidade que ele necessita. É algo muito importante pra gente".
E se eu havia ficado impressionado na minha visita ao set de 300, com a quantidade de detalhes que Zack e sua equipe criaram para o filme, aqui a escala era simplesmente cinco vezes maior. A começar pela opção do diretor de recriar a Nova York estilizada e sombria dos anos 1980, suja e com a paleta de cores do gibi, e quase todos os cenários da graphic novel em estúdio (há exceções como os mais genéricos - a prisão, o centro de comando...). Para todos eles havia comparações entre quadros da HQ, recortes de revistas de moda e decoração da época e o projeto do cenário. Tudo buscando ao máximo a fidelidade histórica e à obra.
"Eu tentei ser o mais formal possível no estilo, já que a estrutura gráfica dos quadros na obra é mais clássica - o que não ficaria bem com uma câmera na mão ou tremida. Então tentei uma abordagem cinematográfica mais clássica também. É um filme bastante tradicional, no qual coisas muito pouco tradicionais acontecem. Não quis realizá-lo cheio de modismos ou coisas assim e por causa disso também optei por sets reais ou construídos. Até teremos algum chroma-key, como em 300, mas será bem pouco", explicou Zack Snyder. O "pouco", no caso, é apenas a superfície de Marte, o belo palácio feito de engrenagens (bem diferente da HQ, mais elaborado e em movimento) e os complementos de Nova York, já que apenas três andares de cada edifício foram construídos. Toda a profundidade de campo e a altura serão geradas por computador.
Como fez em 300, Zack desenhou seus próprios storyboards. Seu traço é primário e apressado, mas cheio de detalhes. Sua intenção, afinal, não é publicá-lo num belo livro de making-of, mas ter um guia preciso para suas filmagens. Mas ali no meio, entre um garrancho e outro, pode haver há alguns quadrinhos recortados do gibi, por Dave Gibbons. "Ok, esse era exatamente o ângulo que ele queria", explica Debbie apontando uma dessas imagens.
Mas se o traço técnico de Snyder não ganha prêmio nenhum, o mesmo não pode ser afirmado sobre seus colaboradores. A equipe do designer de produção Alex McDowell e do figurinista Michael Wilkinson, além do próprio ilustrador da HQ Dave Gibbons (que auxiliou a produção em alguns elementos), caprichou nos detalhados painéis, que foram construídos de maneira obcecada no set. Tive a oportunidade de visitar quatro sets internos e um externo.
A toca do Coruja
O primeiro set foi o sobrado de Dan Dreiberg, o segundo Coruja. Se fosse levado vendado até ali, acreditaria estar numa casa de verdade, tamanho o esmero da decoração. É como se alguém realmente vivesse no local há vários anos. Tudo foi construído de maneira lógica e realista - rua, escada que leva ao lobby, escada interna à frente, sala de estar à esquerda, escritório, cozinha ao fundo... e uma certa portinha secreta que abre a passagem para o porão. Sim, o porão onde Dan guarda seus brinquedos - e uma certa nave.
A nave do Coruja, Arqui, é uma mistura de efeitos práticos e computação gráfica. Foi construída em escala real, com interior completo - incluindo a máquina de café! O modelo de fibra de vidro pesa 4,5 toneladas e foi pendurado em diversas cenas por guindastes móveis para dar mais realismo a elas. "Por segurança, só não podíamos colocar ninguém sob ou sobre a nave - quando ela está no set deve estar isolada das pessoas", explicou Debbie. Alex McDowell, em um desses arroubos de realismo que os fãs tanto gostam, conversou até com alguns cientistas para ver como, teoricamente, a nave poderia voar para "entendê-la" melhor.
A Fortaleza da Solidão de Ozymandias
Na seqüência pude caminhar em Karnak, o refúgio ártico de Adrian Veidt, o homem mais inteligente do mundo. O set ainda estava em construção - enormes montanhas de isopor por todos os lados - mas sua escala era grandiosa e inspirada no Museu Metropolitan de Nova York. Imensas estátuas egípcias ladeavam uma escada. "Só não teremos a biosfera. Resolvemos concentrar a ação toda nesta área", comenta Debbie apontando ao seu redor. "Mas a arquitetura toda é bem fiel à HQ. Tudo referente a Veidt é muito particular. Seu amor pelo Egito exigiu enorme esforço. Afinal, não queríamos que seu refúgio parecesse brega, tipo o cassino Luxor em Las Vegas. Tudo tinha que parecer muito real, original, e ao mesmo tempo tecnológico e nostálgico, já que isso é importantíssimo para a história". A produtora se refere, claro, aos simbolismos que pontuam toda a arte de Gibbons, cada qual referente a um aspecto psicológico de cada personagem... "tem sido um enorme desafio para todos os departamentos encontrá-los e recriá-los".
A Casa Sinistra
Outro dos sets visitados, esse já no exterior do estúdio, foi a "casa sinistra", o local onde o misterioso vigilante mascado Rorschach vive um de seus momentos mais importantes. "Nós encontramos umas casa sinistra para rodar as cenas, mas quando entramos lá achei que fosse vomitar. Ela tinha até os cachorros! Na hora já avisei que não voltaria ali", comentou enojada Debbie Snyder. "Mas na verdade ninguém pôde voltar. O ambiente era insalubre e fomos proibidos pela seguradora de filmar ali. Custaria uma fortuna pra limpar a imundície. Mas como o lugar era perfeito, fotografamos e o recriamos exatamente aqui no set. Só não tem o cheiro", brincou. A produtora também lembrou que outro set exigiu segurança adicional: o do prédio em chamas. "Afinal, Espectral é quem salva as pessoas e ela veste apenas látex, que é altamente inflamável. Então usamos fogo em CGI e alguns truques de profundidade para afastá-la ao máximo do perigo", explicou.
Voltando à casa sinistra, o aspecto realmente era repulsivo e remetia imediatamente à história em quadrinhos - ainda mais quando achei ali perdida pelo chão a perninha da menina que é devorada pelos cães. Como soube que aquilo não era apenas um osso qualquer? Zack Snyder teve o requinte de crueldade de colocar um sapatinho de criança na ponta do osso...
Uma imagem assim tão forte obviamente requer uma censura alta. "Originalmente o filme tinha censura 13 anos. Era o que a Warner Bros queria, pelo menos. Aos pouquinhos, porém, fomos convencendo eles da necessidade de um filme adulto", explicou a produtora. "Felizmente, o sucesso de 300 provou que um filme com censura 18 anos pode fazer grande bilheteria - e isso nos ajudou muito na argumentação". Mas no fundo não foi tão difícil. "Eles mesmos já sabiam ao contratar Zack que ele tentaria reverter isso", completou.
Nova York, Canadá
Do casebre onde Rorschach investiga atrocidades fui direto à Nova York cenográfica onde uma multidão de figurantes aguardava o início das filmagens. Eram cerca de 200 pessoas vestidas como na década de 1970 no meio da rua, várias portando cartazes contra o vigilantismo mascarado. Sobre eles pairava a nave Arqui. Nas calçadas, as lojas conhecidas dos quadrinhos, com o visual criado por Gibbons... Rumrunnner, Promethean Cab Company, Smiling Fortune, Treasure Island... só faltou a banca de jornais que já tinha sido retirada há alguns dias. Curiosamente, bastava andar alguns quarteirões para chegar ao bar em Saigon, Vietnã, onde outra cena-chave da história acontece. Tudo perfeitamente detalhado - e até desorientador. "Como Zack tem todo o storyboard muito bem detalhado, sabemos exatamente o que precisamos construir, então o desperdício é mínimo", comentou Debbie.
Com a equipe finalmente pronta para começar a filmar, entram no set os atores Jeffrey Dean Morgan e Patrick Wilson, devidamente paramentados como os super-heróis Comediante e Coruja. A cena filmada naquela noite foi o momento em que o Comediante salta da nave Arqui até a rua, tentando controlar os protestos. Depois de alguns ensaios, ao chegar ao solo, câmera nas costas, manifestantes bradam impropérios ao fortemente armado combatente do crime, que, charuto nos lábios, observa a todos com um sorriso de escárnio. Uma jovem oriental se arrisca. Chega perto e grita "fuck you!", apenas para levar uma coronhada com a espingarda 12mm cano serrado nos dentes. Outras pessoas levam chutes e murros com o soco-inglês do "herói". Os demais correm, abrindo um corredor à frente do Comediante, que dispara uma, duas, três vezes, jogando a arma às costas e pegando uma segunda por sob o braço direito: um disparador de granadas de gás. Novos disparos. Tudo ensurdecedor e com o fogo e fumaça jorrando dos canos das armas do Comediante na madrugada gelada da Nova York cenográfica. Era uma guerra e Zack Snyder, seu general, a observava pelo monitor. "Corta!". Tudo perfeito. Mais uma cena da adaptação estava pronta.
Em breve - Visita ao Set - Parte 3 - Figurinos
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