Leia a partes 1 e 2 da visita ao set no Especial Watchmen
A primeira entrevista do Omelete com o figurinista Michael Wilkinson já havia causado uma boa impressão por aqui. O profissional cuidou de todos os ornamentos e vestimentas de 300, o filme anterior de Zack Snyder, com tanta obsessão aos detalhes quanto o cineasta. Em Watchmen, porém, Wilkinson teve um desafio ainda maior... recriar nas telonas alguns dos uniformes mais imeditamente reconhecíveis nos quadrinhos de super-heróis e representar várias décadas da moda nos Estados Unidos, da década de 1940 até 1985.
"Desenhar um super-herói é uma emoção incrível para um figurinista", começou enquanto abriu seu portfolio de couro com os desenhos. "Mas desenhar os super-heróis de Watchmen é uma emoção ainda maior, já que muita gente sequer considera este um filme de super-heróis. É um drama psicológico, com personagens complexos e reais. É uma mina de ouro para mim, pois há tantos elementos para se inspirar... Há os desenhos de Dave Gibbons, mas também todo o detalhamento de personagem criados por Alan Moore. Tentei ser respeitoso com o material original, mas obviamente transformar o 2D das páginas em roupas de verdade é bastante complicado. E há a atmosfera de realismo cru que Zack pretende alcançar com o filme que precisa ser espelhada aqui".
A idéia ao redor dos figurinos de super-heróis de Wachmen foi manter exatamente os uniformes dos Homens-Minuto (Minutemen), "como se fossem caseiros", uma homenagem direta à Era de Ouro dos Quadrinhos. "Parte da diversão de recriar os uniformes dos oito heróis pioneiros foi executá-los usando técnicas e materiais existentes em 1938, quando o grupo foi formado. Pesquisamos roupas fetichistas de época, uniformes esportivos e militares, acessórios de segurança... quisemos transmitir para o público que essas máscaras e uniformes foram construídos de verdade por pessoas de verdade".
Mas se os uniformes dos Homens-Minutos ficaram idênticos aos da HQ, os uniformes da segunda geração de heróis passaram por uma modernização, para refletir o universo dos super-heróis como ele é hoje no cinema. "Não dava pra fazer igual ao dos quadrinhos, ficaria tão brega quanto o dos Minutemen - e Watchmen seria lembrado pelos uniformes ruins", garantiu a produtora Debbie Snyder. "Roupas de super-heróis hoje são quase que fetichistas e usamos isso no filme", seguiu. "Mas os pequenos detalhes que Dave Gibbons desenhou estão todos lá. Levamos os uniformes a um novo patamar, como se fossem feitos hoje", completou.
"Levamos em conta o fato de que o público de hoje já viu Matrix, os novos Batman e Superman, entre tantos outros, nos últimos 10 ou 15 anos. Conversamos com Dave Gibbons sobre isso e ele disse que se fosse desenhar a história em quadrinhos hoje certamente também faria modificações pensando nisso, então isso nos deu certa liberdade para mexer neles", disse Wilkinson, que continuou detalhando personagem a personagem como foi o processo de criação desses uniformes.
Coruja: "Durante o dia Dan Dreiberg parece um professor, mas à noite ele torna-se algo maior e mais poderoso ao vestir o uniforme do Coruja. Tentei pensar como alguém como ele, apaixonado por aeronáutica, aves e tecnologia, pensaria. Então usamos motivos que lembram penas e curvas aerodinâmicas. Também tivemos que mesclar o visual dos quadrinhos com algo que parecesse moderno aos olhos do público atual, para que houvesse uma conexão entre o herói e os personagens do cinema de hoje".
Espectral: "Uma personagem fascinante, pois ela foi levada ao vigilantismo mascarado pela mãe. Durante o dia ela se veste na moda tradicional de alfaiataria dos anos 1980 e vive em uma instalação militar do governo. Seu uniforme é totalmente fetichista, inspirado no da mãe, e tem uma dualidade interessante entre quem ela é e sua identidade secreta. Ela usa látex, que havia acabado de ser criado nos anos 1960 - e adoramos a ideia de ela usar algo tão moderno para a época".
Comediante: "Para o personagem de Jeffrey Dean Morgan nos focamos no couro preto e evidenciamos a musculatura poderosa dele. Nada exagerado além da máscara e as ombreiras. É a camada de armas dos pés à cabeça que dá o tom do uniforme - fazendo-o parecer um arsenal humano".
Ozymandias: "Ele é fascinado pelas sociedades utópicas de Roma, Egito e Grécia então seu uniforme idealiza isso em cada detalhe. Mantivemos o esquema de cores da história em quadrinhos, mas demos uma envelhecida nele para parecer mais antigo. Para todos os heróis quisemos dar a idéia de que seus uniformes estão gastos, que já estão em uso há algum tempo, e que carregam algumas cicatrizes de batalhas passadas".
Dr. Manhattan: "Não tive grande trabalho aqui, apenas o desenho. Não precisei executar o uniforme, já que ele não tem nenhum e o pouco que aparece usando foi criado através de computação gráfica. Só tive que fazer o terno que ele usa na emissora de televisão".
Rorschach: "Esse foi complicado, pois queríamos a exata mesma silhueta da graphic novel. Mas conseguimos criar o sobretudo com um algodão saturado em óleo que foi sujado inúmeras vezes, tentando emular as duas décadas de sujeira de seu uniforme. São camadas de sangue, lama e outras porcarias nojentas adquiridas no combate ao crime nos becos sujos de Manhattan. Já a máscara foi criada através da superexposição de duas tramas impressas de lycra que recebeu mais tarde as manchas por computação gráfica".
A máscara de Rorschach parece realmente ter dado mais trabalho. Jackie Earle Haley durante suas cenas usou uma máscara com os olhos cortados, para que os outros atores pudessem ver suas emoções durante a atuação. Mais tarde, animadores criaram os padrões (que não condizem com o Teste de Rorschach psiquiátrico, cujas imagens são registradas) baseados nas ilustrações de Gibbons na graphic novel. A idéia é que as manchas movam-se como se fossem sangue se espalhando por um tecido com textura de gaze.
Outro enorme desafio é tudo o que envolve outro dos personagens mais importantes da história, Dr. Manhattan. Como representar esse Deus/Homem que pode partir do tamanho de um humano normal e ficar com 30 metros de altura? A solução encontrada foi a captura de performance, algo semelhante ao que Peter Jackson fez em O Senhor dos Anéis com o Gollum. Billy Crudrup, o ator que o interpreta, está em todas as cenas vestido com um macacão repleto de sensores. Toda a sua atuação é então captada por um computador (corpo e rosto separados) e transferida a um boneco 3-D. "Além disso ele é uma fonte de luz", explica a produtora. "Então cada sensor tem um led azul que emite luz, marcando sua presença no ambiente. Podemos aumentar e diminuir a intensidade dela. Quando ele entra numa sala, por exemplo, projeta uma série de luzes sutis que seriam impossíveis de recriar não fosse dessa forma. E quando ele toca o rosto de Laurie [Malin Ackerman] ele ilumina toda a face dela. É lindo". A solução só é diferente quando o personagem está gigante. Nessas cenas entra em ação um poste de luz azul que ilumina todo o lugar. Crudrup fica lá embaixo, atuando, mas todos os atores em cena com ele olham para cima, numa marcação. Sobre o visual do personagem, Debbie explica que ele é meio translúcido e que veremos seus músculos perfeitos sob a pele em alguns pontos. "Em outros ele será mais brilhante e menos definido. É interessante que Dave Gibbons esteve aqui há algumas semanas e ficou muito feliz com isso. Ele nos disse que quando o desenhou queria que fosse assim, mas que as dificuldades técnicas na colorização o impediram". Pra completar, há o problema da nudez do personagem. "É problemático. Não queremos que o público se distraia com um pênis gigante, tipo 'oláaaa, o que temos aqui?'... Não dá pra ser assim. Então estamos pensando em algumas alternativas. Mas uma delas, a nossa preferida, é que conforme o personagem fica mentalmente menos e menos humano - mais distante -, seu corpo reflita isso".
A preocupação com o figurino de cada personagem também englobou suas vidas particulares - e mesmo sua aposentadoria. "Sally Jupiter, por exemplo, começou sua carreira em tons berrantes como Espectral. Mas conforme ela envelhece fomos apagando essas cores, para contar uma história não apenas de maneira narrativa, mas também através dos figurinos. No fim da vida seus tons favoritos estão todos ali, mas desbotados e tristes. Você imediatamente reconhece a personagem e sabe em que momento de sua vida ela está", explicou o figurinista.
"Fora os principais, que têm de cinco a dez figurinos cada, temos centenas de figurantes de cada período histórico. Décadas de 1930, 1940... até 1980. São roupas alugadas e temos um galpão inteiro para catalogá-las e guardá-las. Mas há muitas coisas específicas que costuramos especialmente para o filme, como as roupas dos monges tibetanos que protestam contra a guerra do Vietnã. Essas vão para o depósito da Warner Bros. para serem aproveitadas futuramente", concluiu Michael Wilkinson, encerrando essa parte da nossa visita ao set.
Todos os uniformes podem ser vistos na nossa extensa galeria de imagens do filme. Confira abaixo.
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