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W.E. - O Romance do Século | Crítica

Figurino poderoso cobre os buracos da direção de Madonna em filme sobre romance polêmico da realeza britânica

Eduardo Viveiros
08 de Março de 2012

W.E. - O Romance do Século

W.E. - O Romance do Século

W.E.
Reino Unido , 2011 - 119 minutos
Drama

Direção:
Madonna

Roteiro:
Madonna, Alek Keshishian

Elenco:
Andrea Riseborough, James d'Arcy, Abbie Cornish, Oscar Isaac, David Harbour, Richard Coyle, James Fox, Natalie Dormer

Regular
madonna
madonna

Se há uma coisa que não falta a Madonna é coragem. Não só como cantora, mas também na sua vontade sem fim de cultivar uma carreira cinematográfica. Ela, que é cheia de papéis canastrões (ainda que divertidos) no cinema, se esforça agora para emplacar como diretora.

W.E. - O Romance do Século é sua segunda tentativa, depois de Sujos e Sábios (2008). Projeto ambicioso que ficou no forno por dois anos, o filme conta a história do controverso romance de Wallis Simpson, "plebeia" dos EUA, com o rei Edward VIII na década de 1930 - que o levou a abdicar do trono inglês para manter o caso, acabando os dois exilados em Paris, como duque e duquesa de Windsor, sob suspeitas de simpatia ao regime nazista.

O assunto é poderoso, importante para a história inglesa e conversa com filmes como O Discurso do Rei (2010). Mais do que Edward (aqui vivido por James d'Arcy), o foco é em Wallis (Andrea Riseborough): divorciada, amante de um nobre, responsável por mudar radicalmente a história da monarquia britânica. Uma das mulheres chave na história feminina contemporânea que, como Madonna quer provar, nunca ganhou a voz que merecia para "contar o seu lado".

Madonna reúne vários elementos pelos quais é aficcionada: mulheres poderosas, romances polêmicos, amor incondicional, o poder da mídia (que perseguia o casal, nos primórdios dos tabloides britânicos, movimento que culminaria na morte de Lady Di nos anos 1990). Mas mostra que, como diretora, ainda é uma ótima Rainha do Pop. Não que W.E. seja uma bomba, mas é um filme-exercício, esforçado, vindo de alguém que está tentando se provar (e que já fez coisas como Destino Insólito e Corpo em Evidência).

A pior parte de W.E. é não ser uma biografia per se. Porque não é um filme só sobre o casal Wallis-Edward: o roteiro atravessa o tempo até os anos 1990 para contar a história de Wally Wihtrop (Abbie Cornish), novaiorquina metida em um casamento falido, obcecada com a história do casal da realeza, que acaba envolvendo-se com um segurança russo (outra fixação de Madonna: trabalhadores do terceiro mundo). O vai-e-vem entre épocas, além de pouco original - e, aqui, confuso -, é um recurso que só enfraquece o filme. Enquanto Wallis é personagem poderosa por si só, Wally não se desenvolve ao ponto de ganhar a identificação do público - e toda a teoria do romance contemporâneo montado em paralelo à história principal vai por água abaixo.

Mas Madonna, além de corajosa, tem suas espertezas. E sabe se cercar das pessoas certas no que faz. Assim como nos seus álbuns, a tática funciona na tela para cobrir os buracos da sua condução amadora. Da trilha sonora (criada pelo novo talento Abel Korzeniowksi), passando pelos atores (notadamente Andrea Riseborough, que sofre no papel de Walis), até desembocar no figurino de Arianne Phillips, merecidamente indicado ao Oscar. Respeitada na área, Arianne cuida do figurino da cantora, já foi indicada por Johnny e June, e fez um belíssimo trabalho em Direito de Amar. Ela tem uma obsessão por detalhes que faz seu trabalho ser o ponto alto do filme.

Arianne deu sorte de trabalhar com uma personagem tão interessante como Wallis, que tinha um bom gosto notório por roupas e joias, além de um senso estético marcante. Era cliente dos famosos estilistas da época e um dos seus grandes bordões era algo como "eu não sou bonita, não tenho o que prenda a atenção, o mínimo que posso fazer é me vestir melhor do que todo mundo".

Assim, a figurinista trabalha um aspecto pouco explorado no setor em Hollywood. Trata-se de um filme de época, mas não dedicado aos trajes típicos da realeza (afinal, estamos em 1930 e não no século XIX, sinônimo de bom figurino para Hollywood), naquele ponto exato em que as roupas deixam de ser históricas e começam a entrar para a era contemporânea. Existe aí um trabalho imenso de reconstrução de roupas dos famosos costureiros de então, missão sempre delicada por se tratar de trabalho não tão distante do nosso tempo.

De tão competente, Arianne monta um figurino poderoso, que não tenta roubar a cena e ainda dá assunto ao enredo: um dos vestidos usados por Wallis é o bode expiatório na denúncia do seu affair secreto com o futuro ex-rei para a alta sociedade de então. Com tudo isso, dá até para ignorar a incongruência repentina do momento em que Wallis dança Sex Pistols com uma coadjuvante africana surgida do nada. Cena que deve ter feito Sofia Coppola mandar um DVD de Maria Antonieta para Madonna, com um recado bem irônico.

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Comentários (8)

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sem avatar Yuri (27/03/2012 19:25:16)   2 0

"Diante de tantas tentativas de forçar um enredo que nem é de consistência satisfatória, fui dominado pelo tédio e fiquei ansioso para que tudo acabasse logo. É possível assistir (com muito esforço), mas a cada minuto tornou-se mais clara a baixa qualidade do trabalho em todos os aspectos"

Crítica completa no blog:

http://www.beepbopboom.com.br/2012/03/we.html



João Vitor João Vitor (10/03/2012 16:43:06)   435 1
Hessel, aprenda com o Eduardo a fazer críticas.



Yuri Yuri (10/03/2012 11:00:14)   50 0
O filme é cheio de estilismos para tentar dar alguma profundidade no que acaba sendo um filme com uma historia simples, mas trabalhada de uma maneira confusa



sem avatar Iago (09/03/2012 12:45:52)   102 0
Crítica realmente boa, abordou todos os aspectos relevantes! Como gostei de O Discurso do Rei, talvez até vá ver esse filme (já que os dois fazem referência à mesma época).



Don Zero Don Zero (09/03/2012 11:53:40)   151 0
Parabéns pela crítica Eduardo! Está ótima.



sem avatar Santos D. (08/03/2012 22:39:20)   1261 1
A Madonna ganhou muito dinheiro com a carreira musical e acho que resolveu gastar uma parte dessa fortuna produzindo e dirigindo filmes.
Só nos resta torcer pra que ela pense em outra maneira de torrar sua grana que não seja dirigindo filmes.



Rhumas-Jetzer Rhumas-Jetzer (08/03/2012 21:47:29)   1332 2
Uma crítica no Omelete, que há tempos não vejo: enxuta. Parabéns ao Eduardo Viveiros.



Romualdo Romualdo (08/03/2012 21:37:26)   1617 1
Eu ainda estou me recuperando de Evita... depois daquilo, prometi a mim mesmo que desistiria da Madonna no cinema.




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