Terça-feira, 22 de maio de 2012, a DC ComicsTM anunciou que vai “tirar do armário” um de seus personagens icônicos e o mundo dos quadrinhos (fãs, mais do que todos) está às voltas com as discussões que já tomam corpo, sobretudo nos fóruns da rede mundial de computadores. Antagonizando-se sem muita educação, os fãs de cada um dos principais nomes da “moderna mitologia” digladiam-se, ante a perspectiva de “descobrirem” que seus ídolos “não são bem o que eles pensavam”.
Aqui, a primeira questão importante, para mim: só se descobre algo que existe; se a homossexualidade de um personagem não estava lá, desde o seu início, na mente de seu criador, não há, verdadeiramente, homossexualidade a descobrir, mas uma a “inventar”, no caso em comento, uma recém-inventada, recém-criada e – defendo – criada ar revelia da opinião mais importante: a do autor, a do criador do personagem em questão.
Por exemplo: há alguns anos, tentou-se dizer que os personagens Messala (um tribuno romano) e Judá Ben-Hur (um judeu de abastada família de comerciantes) eram homossexuais, tinham tido um envolvimento afetivo na sua infância. Ora, quem se deu ao trabalho de assistir às magníficas três horas e tanto da película sabe que não há a menor indicação de homossexualidade no judeu Ben-Hur ou no romano Messala; bem ao contrário. Bem-Hur apaixona-se por uma de suas servas e termina por casar-se com ela, mas nem vou tentar argumentar muito, porque não é necessário. O espectador imparcial vê isto, sem esforço. E o vê, porque foi esta a intenção do autor, do criador do filme e dos personagens. Não há, ali, homossexualidade a “descobrir”, ainda que haja a “inventar”, na nossa modernidade.
Outro exemplo: quando li o Drácula de Bram Stocker não me veio nenhuma indicação de homossexualidade, nesse vampiro (posso estar enganado, porque li a obra há mais de vinte anos e não voltei a ela, nunca mais). Mas o filme (aliás, espetacular) de Francis Ford Copolla, em certa passagem, parece insinuar (de forma muito disfarçada) que Vlad Dracul teve certo interesse dúbio (do ponto de vista erógeno) com relação ao personagem Jonathan Harker. Se eu estiver certo, quanto à lembrança da leitura, houve uma desvirtuação da personagem Drácula, em relação aos seus traços fundamentais
Voltando aos quadrinhos.
Não há homossexualidade “a descobrir” em Bruce Wayne, nem em Clark Kent, nem em Oliver Quinn (“Arqueiro Verde”), nem em James Logan (Wolverine) etc., ainda que, ao sabor dos interesses comerciais (e as estatísticas mostram que o público homossexual é um dos que mais efetua gastos não essenciais – viagens, leitura, etc. – o que, aliás, é uma das razões comerciais dissimuladas, quando se trata de defender a realização das chamadas “paradas gays”: ou seja, elas trazem turistas/consumidores para as cidades onde são realizadas) se possa criar uma homossexualidade em um ou em vários desses personagens. Mais ainda: uma bissexualidade.
Neste artigo, não faço juízo de moral sobre o homossexualismo; minha ótica, aqui, é a dos direitos de autor. Pense comigo: você leva anos imaginando uma personagem. Você a cria, luta junto às editoras e ao setor comercial para que a sua criação tenha vida. Um dia, bingo: seu personagem é publicado e, com ele, grande parte dos seus valores.
Agora, para sua infelicidade, você morre (como diria William Wallace: “Todo homem morre, mas nem todo homem vive, realmente). Seu personagem cai num limbo de esquecimento editorial. Décadas se passam e alguém com muito pouco respeito por você e por sua obra, mas com muito por dinheiro e balanços comerciais editoriais resolve que seu personagem, aquele mesmo a quem você emprestou alma – aliás, a quem você deu uma alma – perceisa de uma repaginada, para ser mais atrativo aos público jovem... Então, ele “descobre” uma “sexualidade nova”, alternativa àquela que você, autor morto, determinou para o seu personagem. É como se, de repente, Legolas fossem homossexual, ou como se Éowyn fosse lésbica. Como você acha que J. R. R. Tolkien se sentiria? E não venha me dizer que os mortos não sentem nada (se você pensa assim – como Epicuro –, leia um pouquinho de Aristóteles e sua Ética a Nicômaco, quando aquele fala dos prejuízos que se podem causar aos mortos, mesmo que estes não os sintam).
É diferente, por exemplo, do caso do Professor Dumbledore, cuja criadora J. K. Rowling declarou em entrevista que sempre o considerou homossexual.
Portanto, sem fazer juízo de valor moral – como declarei, antes – apenas me preocupa essa desvirtuação da criação intelectual, esse desrespeito ao direito que o autor – e somente ele – deveria ter (juridicamente, porque moralmente é inegável que só ele o tem) de estabelecer os aspectos fundamentais de sua obra e, dentro dela, de cada um dos seus personagens.
Essa linha de ponderação que sigo, encontro-o também em “Batman e a Filosofia” , nono capítulo , intitulado “O que Batman faria? Bruce Wayne como modelo moral”:
“(. . .) Mas com Batman e outros personagens fictícios, além de sempre existir a possibilidade de mudança, há várias pessoas definindo o caráter e talvez planejando essa mudança. Afirmamos que os autores podem garantir que Batman sempre permanecerá verdadeiro à sua missa, porém não há nenhuma garantia de que eles farãi isso. Quanto mais histórias forem escritas, por mais e mais autores, maiores são as chances de que elas não representarão um personagem consistente, coeso, e muito menos um que sempre manterá os mesmos padrões de excelência moral.
Isso não apenas é potencialmente verdadeiro para histórias futuras, como também representa um problema para as passadas.
. . .
“(. . .) Se existe um modo de retratar Batman corretamente como um personagem, também deve haver maneira de retratá-lo erroneamente como personagem – mas como determinar tal diferença? Pode ser apenas pela maioria dos fãs? Não, porque se ela for baseada na maioria, então pode ser mudada, e estamos procurando por um ‘Batman verdadeiro’, estável. (. . .) E a questão parece se resumir a isso: pode um personagem fictício como Batman ter propriedades essenciais? E se a resposta for afirmativa, como?”
Sim, um personagem de ficção pote ter características essenciais, mais ainda com respeito a um fator tão predominante na personalidade humana como a sexualidade/orientação sexual. Facilmente verificável e inquestionável a orientação sexual do detetive Sherlock Holmes de Sir Arthur Conan Doyle, do Conan de Robert E. Howard, de James Bond, de Bruce Wayne. E essa e outras características essenciais devem ficar ao abrigo de alterações, por “sub-criadores” (para usar a expressão de J. R. R. Tolkien, criador de “O Senhor dos Anéis”), de modo a não se desvirtuar um personagem.
Vejamos como o tema não é simples...
Outra pergunta: será que não se trata muito mais de interesse comercial do que de genuína defesa da tolerância quanto à sexualidade de cada um? Vejamos Joseph Campbell (“O Poder do Mito”):
“(. . .) o que é penoso, para nós, é que muitas das pessoas incumbidas de escrever as histórias não têm noção da sua responsabilidade. Essas histórias fazem e desfazem vidas. Mas os filmes são produzidos simplesmente para fazer dinheiro. Não se encontra aí aquela espécie de responsabilidade que impregna o sacerdócio, num ritual. Este é um dos nossos problemas, hoje em dia.”
Mais uma questão: e se a inovação supra comentada for bem, comercialmente, irão começar a dar experiências homossexuais aos personagens sabidamente heterossexuais, de modo a gerar mais polêmica e a vender mais revistas?...
E se você acha que toda essa discussão é excessiva ou irreal, dê uma passada nas páginas de Joseph Campbell e seu “O Poder do Mito”.