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Juan dos Mortos | Crítica

O primeiro filme de zumbis de Cuba age como iconoclasta mas se encanta com a estética do império

Marcelo Hessel
08 de Outubro de 2011

Juan dos Mortos

Juan dos Mortos

Juan de los Muertos
Cuba , 2011 - 100 minutos
Comédia

Direção:
Alejandro Brugués

Roteiro:
Alejandro Brugués

Elenco:
Alexis Díaz de Villegas, Andrea Duro, Jorge Molina, Andros Perugorría, Jazz Vilá

Bom
juan dos mortos
juan dos mortos
juan dos mortos
juan dos mortos

Na melhor cena de Juan dos Mortos, que fez gargalhar a sessão lotada do filme nesta madrugada no Festival do Rio, o tal primeiro filme de zumbis produzido em Cuba, Juan (Alexis Díaz de Villegas) e seus amigos precisam matar o primeiro morto-vivo que encontram pela frente. Tentam estacas, afinal pode ser um vampiro. Tentam exorcismo, vai que é possessão. Atirar no sujeito com balas de prata está fora de cogitação, no hay plata em Cuba.

A grande sacada do filme de Alejandro Brugués, e que faz todo o sentido, é tratar os zumbis como uma novidade - afinal, na ilha não entra cultura pop, o mundo é dividido ainda entre imperialistas e revolucionários, e ninguém sabe quem é George Romero.

A falta de acesso a informação, elemento imprescindível de uma boa história de zumbis (nunca se sabe como acontece a infecção, quantos mortos são, onde é seguro etc.), origina algumas das melhores piadas de Juan dos Mortos. Na televisão, o âncora do jornal estatal diz que a praga foi trazida pelos EUA e que os zumbis são "dissidentes". Os sobreviventes não descartam a possibilidade de a infecção ser provocada pelos remédios que o governo distribui depois do vencimento.

Assim que se habitua às regras básicas do combate (não ser mordido, mirar na cabeça), Juan faz o que todo habanero faria no seu lugar: começa a cobrar para matar os zumbis dos outros. Magro e estropiado como um Seu Madruga cubano, com os olhos esbugalhados de um personagem de desenho animado, Villegas empresta a Juan um carisma insuspeito. Juan dos Mortos funciona muito bem enquanto aposta nessa combinação de texto sarcástico com comédia de ator.

Já o miolo do filme é uma grande enrolação. E aí o que destoa, paradoxalmente, é a necessidade de parecer pop. Foi-se o tempo em que a população não tinha acesso a nada. A geração de Alejandro Brugués conhece o bullet time de Matrix e o wire-fu dos filmes de artes marciais - e é essa estética que domina Juan dos Mortos depois da primeira meia hora.

Trata-se de um paradoxo porque, enquanto Juan e seu grupo matam zumbis na Velha Havana com remos e tacos de beisebol, o diretor do filme tem acesso aos clichês do cinema de ação moderno. Do orçamento de Juan dos Mortos, equivalente a US$ 2,3 milhões, pagos pelo departamento oficial de cinema de Cuba e pela produtora espanhola La Zanfona, a maioria vai para os efeitos visuais. E os cubanos, que na malandragem arrumavam jeitos de se virar, de repente podem pagar por um banho de loja - e decidem se vestir como os enlatados que tanto demonizavam.

Isso não compromete o filme, mas fica a impressão de uma oportunidade mal aproveitada. Ser chamado de iconoclasta em Cuba é um xingamento - o país de Fidel e Guevara respeita os seus ícones - e por alguns instantes Juan dos Mortos age com um primor de iconoclastia, queimando e derrubando prédios para dar lugar ao horizonte ensolarado. Por que não encarar com iconoclastia também o cinema de ação americanizado, ao invés de emulá-lo?

Juan dos Mortos | Trailer

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Comentários (7)

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sem avatar Juan (09/10/2011 21:34:58)   4 0
Eu só li esta crítica porque o personagem desta crítica é meu xará.



sem avatar Felipe (09/10/2011 15:45:48)   0 0
Eu estava na seção, o filme pode até não honrar a humildade cubana. Mas é hilário, e um excelente filme de zumbi!



DR. Zaius, ministro da ciência e defensor da fé! DR. Zaius, ministro da ... (09/10/2011 13:20:35)   390 0
Agora, cá entre nós, se até os franceses abusam da estética do império, o que sobraria para cuba? Vejo recursos de câmera assim até em comédias alemãs...



DR. Zaius, ministro da ciência e defensor da fé! DR. Zaius, ministro da ... (09/10/2011 01:35:18)   390 1
O maior zumbi em cuba é Fidel. Esse@##$@$@ não morre nunca! Pior que o Mun Ra...para quem não sabe, já existia um filme cubano sobre o tema. Procurem no you tube por Samurai Vs. ZOMBIE...



CalRaiden CalRaiden (08/10/2011 21:17:18)   16 0
Iconoclastia ou Iconoclasmo (do grego εικών, transl. eikon, "ícone", imagem, e κλαστειν, transl. klastein, "quebrar", portando "quebrador de imagem") foi um movimento político-religioso contra a veneração de ícones e imagens religiosas no Império Bizantino que começou no início século VIII e perdurou até o século IX.[1] Os iconoclastas acreditavam que as imagens sacras seriam ídolos, e a veneração e o culto de ícones por conseqüência, - idolatria.



Galo Galo (08/10/2011 21:06:58)   202 1
Esse eu vou assistir, pois tá com cara de comédia do ano.



Vinicius Vinicius (08/10/2011 15:41:20)   3 0
não vi o filme, mas achei a crítica muito bacana, porque hoje em dia, até mesmo pra cuba, ta difícil não se apegar à modelos, enlatados, porque não basta tentar fazer algo novo e diferente do "melhor", mas sim se equiparar ao que é considerado o melhor, então acaba-se voltando à estaca zero.




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