Godzilla - 50 anos

Godzilla - 50 anos

13/12/2004 - 1:00 - Alexandre Nagado

Eiji Tsuburaya e o gorila baleia

Mistura de tiranossauro com estegossauro

Pôster do primeiro filme

O monstro clássico

O Godzilla da Hanna-Barbera

King Kong vs. Godzilla

O rival Mecha Godzilla

O monstro furioso

O Godzilla made in USA

Godzilla 2000

Godzilla Final Wars

Símbolo dos filmes de monstros japoneses e da hoje batida imagem de maquetes de Tóquio sendo pisoteadas, o lagarto atômico Godzilla está comemorando cinqüenta anos de existência.

Idealizado por Tomoyuki Tanaka, produtor da Toho Eiga (ou Toho Pictures), sua inspiração está no filme norte-americano O monstro do mar (Beast from 20.000 fathoms, de 1953).

Tanaka queria uma trama com um monstro gigante que associasse o medo da guerra nuclear a uma narrativa grandiosa, com ênfase na luta do ser humano para sobreviver a seus próprios erros; no caso, o uso militar da energia atômica, que desperta a terrível criatura tal qual uma vingança da natureza.

Para o projeto visual e efeitos especiais, foi convocado o brilhante técnico Eiji Tsuburaya, que, anos mais tarde, organizaria o estúdio Tsuburaya Productions e coordenaria a criação da franquia milionária encabeçada pelo super-herói Ultraman. O diretor foi Inoshiro Honda, célebre diretor de filmes-catástrofe, além de assistente e amigo pessoal de Akira Kurosawa.

Com um visual que misturava um tiranossauro rex e um estegossauro, o bicho ainda ganhou rajadas nucleares emitidas pela boca. O nome original da película e da criatura, Gojira, é a junção de gorilla e kujira (baleia, em japonês), um tipo de combinação fonética que batizou muitos outros mostrengos nipônicos.

Sem os recursos e a técnica do mago dos efeitos Ray Harryhausen, que dera vida ao gigante do mar que o inspirou, os japoneses tiveram que apelar para um traje emborrachado vestido por um dublê. E o que era uma solução econômica, nas mãos de Eiji Tsuburaya e Inoshiro Honda virou cult e se tornou uma das marcas dos filmes de tokusatsu, os efeitos especiais japoneses.

O uso de maquetes detalhadas, boa direção e uma trilha sonora imponente criaram um enorme sucesso de bilheteria perto do Natal de 1954. Nascia o gênero kaiju eiga, ou cinema de monstros, tendo Gojira como o maior dos kaiju. Com sua continuação um ano depois, Gojira virou uma lucrativa franquia e logo daria seus passos fora do Japão.

Invadindo o ocidente

Em 1956, a fita original foi distribuída nos Estados Unidos com o título alterado para Godzilla - king of monsters.

Novas cenas e um novo roteiro foram acrescentados, tendo à frente o ator Raymond Burr, popular astro de um antigo seriado chamado Perry Mason.

Com roteiro adaptado e a inclusão de um ator principal local que não interage com o elenco original, criou-se um antecedente para o que seria feito décadas depois com os primeiros Power Rangers: uma adaptação barata de uma produção japonesa. Com essa antropofagia cultural e étnica, Godzilla foi sucesso nos Estados Unidos e, de influenciado, passou a influenciar muitas produções. Da América do Norte para o resto do mundo, o Rei dos Monstros virou ícone da cultura pop mundial.

O sucesso nas terras do Tio Sam também rendeu versões em quadrinhos e até um desenho animado dos estúdios Hanna-Barbera em 1978, época em que a personagem estava decadente em sua terra Natal. Na série americana de 26 episódios, o outrora destruidor de cidades era um fiel protetor do navio de pesquisas Calico e vivia salvando também o atrapalhado filhote Godzooky.

Godzooky, entretanto, não foi o único bebê-monstro a dar as caras, pois, no cinema japonês, outros filhotes apareceram, como Minira e Little Godzilla, crias não de Godzilla (que, ao que consta, é macho), mas da mesma raça pré-histórica fictícia que o originou.

Monstros em ação

Dentro da cronologia japonesa, houve muitos Godzillas, com variações de tamanho e poder. O primeiro morre no filme original, sendo seguido por outros que sucumbem apenas para que se descubra que aquele não era o último da espécie.

Na esteira do sucesso de Godzilla, vieram outros monstros gigantes, como a mariposa Mothra, o dragão de três cabeças King Ghidra, o monstro alado Rodan e a tartaruga voadora Gamera. À exceção desta última, todos os demais foram produzidos pela Toho e incorporados à cronologia de Godzilla, enfrentando o Big G diversas vezes. O clássico dos clássicos da fase áurea, todavia, viria com King Kong versus Godzilla (1962).

Quase todos as fitas originais foram exibidas no Brasil, no pequeno e extinto circuito de salas de exibição da colônia japonesa da capital de São Paulo. Já Godzilla x Megalon (de 1973) foi lançado em vídeo na década de 1980. Aliada às diversas reprises na TV Record da luta contra King Kong e ao relativo sucesso da série da Hanna-Barbera, essa presença no país criou, também no Brasil, uma legião de fãs.

Com grande sucesso em seu país, Godzilla, de tanto agradar à criançada em filmes cada vez mais pasteurizados, acabou virando herói.

De uma força da natureza, a criatura tornou-se benfeitora em sua fase mais colorida, na década de 1970. Na época, participou de alguns episódios de uma série da Toho chamada Zone Fighter, uma das muitas cópias de Ultraman que pipocaram no Japão naqueles anos. Seu inimigo mais recorrente era sua cópia robótica chamada Mecha Godzilla, destruída e recriada várias vezes. No entanto, na segunda metade dos anos 70, o monstro saiu de circulação, pois as crianças estavam mais interessadas em heróis como Kamen Rider e equipes do gênero Super Sentai, franquias que existem até hoje no Japão. Para fazer sucesso novamente, Godzilla teria de voltar a fazer o que sabe melhor: destruir Tóquio.

De volta às origens e novos horizontes

Em 1984, voltou o conceito original, com Godzilla capaz de enfrentar ameaças com seu instinto violento.

Da fase moderna, vários títulos foram exibidos na TV ou lançados em vídeo e DVD. Entre eles, vale destacar Godzilla versus Biollante (de 1989), que deu continuidade à película de 1984 e impulsionou o novo momento da criatura. Sério, dramático, bem dirigido e com bons efeitos, o confronto com o monstro planta Biollante é um dos melhores exemplares do gênero, tendo sido lançado em vídeo e também exibido no SBT. Vieram então novas batalhas contra King Ghidra (1991) e Mothra (1992), também já vistas na emissora de Sílvio Santos. Em 1995, a criatura foi pelos ares no filme Godzilla x Destroyer, abrindo caminho para um projeto de repercussão mundial.

Em 1998, a dupla Dean Devlin e Roland Emmerich (autores de Independence day) levaram às telas a versão hollywoodiana da criatura. Quase todo gerado em computação gráfica, o monstro não se tornou grande sucesso, mesmo com a presença no elenco de astros como Matthew Broderick e Jean Reno. Com design radicalmente diferente do original, ares de superprodução e preocupado em parecer verossímil, Godzilla não emplacou e o gancho para continuação no final acabou se perdendo. Ainda assim, rendeu uma nova série animada com boas histórias que chegou a quarenta episódios, exibidos entre 1998 e 2000 e já vistos no Brasil no Cartoon Network e Record.

De volta ao seu lar nos estúdios Toho, a filmografia do Big G foi retomada. O atual Godzilla apareceu no filme Godzilla Millennium, distribuído em DVD no Brasil como Godzilla 2000 e já exibido na TV Globo. Um pouco de dignidade foi injetada em 2001 com o épico Godzilla x Mothra x King Ghidra, comandado pelo diretor cult Shusuke Kaneko, que já havia resgatado em 1995 a franquia do concorrente Gamera. Todavia, a queda progressiva das bilheterias do gênero levou os executivos da Toho a concluir que era melhor dar um tempo. Ou parar de vez, mas não sem antes presentear os fãs com uma aventura apocalíptica, onde o último Godzilla enfrenta uma ameaça em escala global. Nasceu daí a idéia de Godzilla final wars, que estreou no Japão no último dia 4.

Para Godzilla final wars, quase todo o cast de criaturas da Toho foi convocado, incluindo Rodan, Mothra e King Ghidra. E até o Godzilla americano, agora chamado apenas de Zilla, dá as caras, somente para ser triturado pelo Rei dos Monstros original. Mesmo pecando pelos excessos, a despedida de Godzilla atraiu o diretor Ryuhei Kitamura, que adiou sua estréia à frente de uma produção nos Estados Unidos para comandar o mais caro filme da franquia, com orçamento recorde de cerca de 34 milhões de dólares.

Com seus 29 filmes (se contarmos o americano), o poderoso Godzilla já conquistou até o direito a uma estrela na famosa Calçada da Fama em Hollywood. Para tal façanha, precisou literalmente pisar em muita gente.

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