Corpo Fechado (2000)

Elenco / Direção

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Corpo Fechado (2000) (Unbreakable)

(Excelente)
País: EUA
Duração: 106 minutos

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Crítica: Corpo fechado

Abrindo um corpo fechado

José Aguiar
30/08/2001 - 0:00

Com a colaboração de Clarice Saliby

Quem avisa, amigo é! Se você ainda não assistiu a Corpo Fechado, pare de ler este artigo agora e aproveite para ver o filme, que já saiu em vídeo e DVD. Só depois volte para cá. Quando se fala de um roteiro de M. Night Shyamalan, toda e qualquer palavra ameaça o prazer de mergulhar no delicado mosaico da trama.

Se você já viu e entendeu o que parte do público não percebeu – que apesar da fórmula semelhante, não tem nada a ver com o Sexto Sentido –, seja bem-vindo.

É com pompa e circunstância que anunciamos: finalmente, fizeram um filme que trata os quadrinhos com o respeito que nós amantes dos bons e velhos gibis podemos assistir sem medo! Pela primeira vez, eu saí de um cinema com a sensação de que a obra foi feita para mim.

Paródias de gosto duvidoso

Via de regra, quando se produz uma película baseada em HQs, o último a quem ela se dirige é o leitor que passa semanalmente nas bancas atrás das novidades. Parte-se sempre do princípio "vamos agradar a maioria". Desta feita, não se adapta uma obra original em si. Cria-se algo vagamente inspirado em seus conceitos, sempre de olho no público leigo.

Corpo Fechado segue a exata contramão de tudo o que se fez nas produções baseadas em HQs desde Batman de Tim Burton em 1989. A regra até agora tem sido “visual exuberante, efeitos especiais de primeira, mas roteiro que é bom, necas”!

Paradigmas dessa norma míope, as quatro investidas do cinema no mito do Homem-Morcego estão aí para não me deixar mentir. Centenas de milhões de dólares arrecadados comprovam o apelo de um filme de fácil compreensão. Mas qual fã do Morcegão, em sã consciência, gostou do que viu? A cada episódio, murchavam os roteiros e crescia a pirotecnia, culminando em Batman & Robin (1997) de Joel Schumacher, infeliz paródia da tele-série dos anos 60.

Rendendo-se às HQs

Corpo Fechado não precisa de efeitos especiais; pelo menos, não como muleta. E essa é não é sua única virtude. O filme aposta no poder de sugestão: uma pessoa real, com poderes reais. Isso o aproxima de obras como Marvels de Kurt Busiek e Alex Ross, gibis que mostram os heróis sob o ponto de vista de pessoas normais. No entanto, é em Batman, Ano Um e Watchmen que encontramos sua maior referência – ou seria reverência?

O que dizer da “primeira missão” de Bruce Willis? Para começo de conversa, a trama não se rende ao delírio fashion de uniformes cafonas transpostos às telas. Entretanto quem disse que Dave Dunn (um nome aliterado como nas melhores HQs) não está trajado a caráter? Uma simples capa de chuva encerra a síntese da roupa do super-herói: capa e capuz. Ainda assim, ele não chamava atenção em meio a multidão. Em alguns momentos, era como se o Espectro da DC Comics caminhasse na tela. Uma referência discreta e elegante. Nada de exageros.

Mesmo dotado de dons especiais, o protagonista não salta de telhado em telhado, dando piruetas em acrobacias à la Matrix (por sinal, outra obra que se rende respeitosamente às HQs). Os fãs de Keanu Reeves que me perdoem, mas a cena de luta protagonizada por Bruce Willis é a melhor já feita numa película de herói. Filmada de maneira crua, ela não busca o melhor angulo estético. O que temos é o ponto de vista do alto, como o de uma passiva câmera de supermercado. Em momento algum, a verossimilhança vê-se afrontada. Afinal, o que é mais lógico: aprender, num passe de mágica, artes marciais ao despencar de um prédio como a Mulher-Gato de Batman - O Retorno ou simplesmente sufocar seu adversário numa chave de braço? Por outro lado, mesmo dotado de superforça e quase invulnerabilidade, Dunn apanha, comete erros e quase morre, tal qual o Homem-Morcego em Ano Um, ou mesmo os Minutemen de Watchmen.

Credibilidade aos clichês

O filme é repleto de sutilezas que, sem excluir os demais espectadores, são um banquete para quem aprecia o gênero super-herói. É o caso da cena em que Dunn descobre sua força sobre-humana. Ele levanta pouco mais de uma centena de quilos. Nada de sair tombando automóveis ou demolindo paredes ao som de uma musiquinha cafona como talvez aguardasse nosso cérebro, entorpecido por dilúvios de efeitos digitais. A mesma simplicidade e economia vê-se na tomada do acidente de automóvel. Mesmo em se tratando de um clichê, nosso herói não rasga as ferragens como se fosse manteiga. Apenas, faz o que a maioria de nós tentaria naquela situação, com a diferença de que consegue.

Por falar em clichês, Mister Glass – o Senhor Vidro – merece, com todas as honras, o prêmio de melhor vilão do ano. Principalmente pela maneira como conquista a afeição do público e ganha sua confiança. Não há leitor de quadrinhos que não se identifique com a paixão de Elijah Price (Samuel L. Jackson) pela arte seqüencial. O espectador leigo, no entanto, também se condói com o drama de sua terrível doença. A título de comparação, na bem sucedida adaptação de X-Men para as telas, o roteiro bem que recorreu ao artifício da tragédia pessoal, a fim de tornar mais simpático o vilão da história. Falhou miseravelmente, ainda mais se compararmos a densidade do drama de Magneto com o resultado obtido por Mister Glass; uma maquiavélica artimanha digna dos melhores malvadões. Tudo nesta personagem, desde o visual extravagante, até a eloqüência calcada em frases de efeito, remete a um supervilão típico de HQs de segunda. Ainda assim, o público cai no seu conto do vigário.

A mesma mestria na concepção da personagem observa-se quando o roteiro avança para seu desenlace. Não há como ficar impassível diante da cena final. Nela, com doentia intensidade, Glass revela a Dunn que, nos quadrinhos, todo herói tem seu nêmesis, sua outra face da moeda. Tudo se encaixa de maneira simples e original. É de arrepiar. Enfim, Shyamalan homenageia, com respeito e criatividade, o que há de mais comum e banal nas HQs de super-herói.

Em que pese a riqueza de Mister Glass, talvez, a personagem mais interessante seja o filho de Dunn (Spencer Treat Clark). Em meio a todos esses elementos bizarros, ele é o principal elo de ligação da trama com o espectador, o cavalo de Tróia do diretor em nosso coração. Afinal, quem, quando criança, não quis que seu pai fosse um herói? E que seus atributos majestosos fossem hereditários? É, por meio desta fantasia, que, de bom grado, abolimos qualquer descrença, ansiosos para que o sonho impossível se realize. Comovente, a discreta cena em que Dave Dunn revela ao menino seu segredo sintetiza tudo o que foi dito acima.

Por falar em segredo, só o fato de Dunn abrir mão de sua natureza especial para não perder a mulher amada, vivida por Robin Wrigthy Pen, não é um ato heróico em si? Até mesmo o Homem de Aço já fez isso antes (Superman II, lembra?), mas sem a mesma sinceridade de Corpo Fechado.

Corpos e mentes fechados

A menção ao Super-Homem é muito oportuna. Talvez esteja aí o maior incômodo da platéia: o super-herói sem estereótipo. Imaginar o Homem de Aço invertendo a rotação da Terra é bem mais fácil do que conceber um herói em meio às nossas vidas, a nossos cotidianos ordinários...

Voltemos, então, à “equação” mencionada acima, dos visuais exuberantes e enredos ridículo. É notório que o mercado de HQs sofre uma intensa retração. De certa forma, a crise nada mais é do que um sintoma; um sinal de doença em uma sociedade onde a fantasia, quando não vem mastigada, é posta de lado.

Colecionadores, que possuem em média 4 mil gibis, são vistos como excêntricos, quando, na verdade, seriam uma espécie de guardiões da magia. Dave Dunn não satisfez a bilheteria, porque o mundo fantástico ali retratado não é passivo. Não se aplaudem freneticamente cenas surreais e conflitos maniqueístas. A trama mostra como coisas não tão extraordinárias podem ser incríveis. E, por mais que a invulnerabilidade de Dunn seja absurda e inexplicável, somos o tempo todo lembrados que aquele é um mundo real.

O nosso mundo, quem sabe.

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