Heleno

Elenco / Direção

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Heleno (Heleno)

(Regular)
País: Brasil
Lançamento Brasil: 30/03/2012
Duração: 106 minutos

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Heleno | Crítica

Biografia do ícone do Botafogo é uma tragédia sem possibilidade de redenção

Marcelo Hessel
29/03/2012 - 18:59

"Todo jogador deveria ver ópera antes de entrar em campo", brada Heleno de Freitas (Rodrigo Santoro) contra os demais jogadores do Botafogo. Cobrar raça e emoção já era, nos anos 1940, comum entre craques de futebol que carregavam seus times nas costas, mas o fato de Heleno falar em ópera, entre a grandiloquência e o esnobismo, diz muito sobre sua figura, como retratada no filme Heleno.

Formado em Direito, com cara de galã de cinema, Heleno não é um dos cabeças de bagre, nas suas palavras, que povoam o esporte. Circula de conversível pelas praias do Rio, canta no rádio em um inglês impecável. Na sua escolha de cenários, o filme faz uma distinção que é gritante: de um lado, os bailes black-tie que Heleno frequenta no Copacabana Palace; do outro, o treino do Botafogo, com o cachorro amuleto do clube presente na arquibancada e o bode, aparador de grama, amarrado na grade.

Rapidamente fica claro que o Heleno do filme, embora grite sua paixão pela camisa, está alheio às coisas prosaicas do futebol - um esporte popularizado no país, em boa medida, justamente por seus prosaísmos. Se fica a impressão de que falta futebol em Heleno (um comentário que já ouvi mais de uma vez de quem também assistiu ao filme), talvez essa sensação venha do fato de o personagem tratar o esporte como um meio, não um fim, de conservar seu sucesso.

É um pouco por essa falta de um propósito elevado - quando Heleno cria pra si uma imagem grandiloquente, o que se espera dele é um propósito à altura - que a vida de Heleno soa tão vazia no filme. O constante vaivém temporal reforça isso; a cada excesso do jogador na juventude, o roteiro corta para o futuro, com Heleno demente de sífilis no sanatório onde passou seus últimos dias. É uma relação imediata de causa e efeito que, em si, não precisaria existir (ser bad boy não mata ninguém), mas que o filme intensifica para demarcar a tragédia.

O que provoca um curto-circuito em Heleno, já que o roteiro cheio de elipses de Felipe Bragança, Fernando Castets e José Henrique Fonseca evita forçar causalidades durante a juventude do jogador. Paira ao fundo o vulto materno (Heleno telefona frequentemente à mãe, que nunca aparece em cena), mas o filme usa isso apenas sutilmente para justificar-lhe o comportamento mulherengo. Assim, sobra ao espectador trabalhar com a relação causa-efeito mais ostensivamente oferecida, que são os saltos temporais vinculando a boa-vida à doença.

Que Heleno de Freitas é uma figura trágica - como outros ícones efêmeros do Botafogo, só conseguiu ser campeão defendendo outro time - não há dúvida. O problema de Heleno, ao tornar patologia os excessos do jogador, é que isso tira do personagem sua única glória: jogar não pelo prazer de jogar, mas pelo prazer narcisista de reafirmar seu gênio ante os demais.

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