Elenco / Direção

Lincoln

Lincoln
(Ótimo)

Drama, Biografia

  • Estréia: 25 de Janeiro de 2013
  • País / Ano de Produção: EUA / 2012
  • Duração: 153 minutos minutos
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Lincoln | Crítica

Steven Spielberg acha um equilíbrio entre o solene e o desafetado e deixa Daniel Day-Lewis fazer o que sabe


24/01/2013 - 21:00 - Marcelo Hessel

Fora dos Estados Unidos, as cópias de Lincoln estão sendo exibidas com uma cartela no início, um texto que explica a Guerra da Secessão em linhas gerais. Só então vem a cena de batalha que abre o filme de fato. Muita gente está achando que esse trecho de guerra foi editado também, porque tem só uns 40 segundos de duração. Não foi. É curto assim em qualquer lugar. A guerra, definitivamente, não é o foco de Steven Spielberg desta vez.

É uma outra disputa que interessa o cineasta neste longa-metragem indicado a 12 Oscars sobre o décimo-sexto presidente dos EUA: a luta de Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) pela votação da emenda constitucional que acabaria com a escravidão no país. A questão da abolição é um dos motivos da guerra civil, que opõe o Norte, comandado pela União, e os Confederados, os Estados separatistas do Sul cuja economia agrária depende dos milhares de negros escravos que seriam libertos pela nova lei.

Com base em Team of Rivals - livro que analisa o gabinete de governo do presidente, que Lincoln formou com seus ex-rivais de campanha - Spielberg e o roteirista Tony Kushner limitam a trama ao crucial ano de 1865, o quarto e último da guerra civil. Lincoln se vê num dilema: estender um pouco mais o conflito (a aprovação da abolição significaria o possível fim da guerra, o que botaria pressão na Câmara na hora da votação) ou encerrá-lo de vez e evitar mais morticínio (uma vez que os Confederados já procuram negociar uma rendição).

Esse dilema moral, que revela a força de estrategista político de Lincoln, sustenta o filme em seus 150 minutos de debates e negociações. Obviamente, o presidente não é o único defensor da abolição - bandeira que marcou a carreira de políticos como Thaddeus Stevens, vivido por Tommy Lee Jones - mas é Lincoln que responde pelas consequências, como a história deixou bastante claro no dia 15 de abril de 1865.

É evidente que, com essa premissa e nessas circunstâncias, a forma como Spielberg registra a atuação de Daniel Day-Lewis seria o nervo do filme. Ambos fazem um trabalho que fica a meio termo entre o solene e o desafetado. Na entonação de voz e na linguagem corporal, mais até do que na competente maquiagem que o envelhece, Day-Lewis cria um Lincoln palpável - podemos sentir o peso que os quatro anos de guerra adicionaram ao seu corpo. A forma como o ator se move, senta-se ou articula um discurso tem, ao mesmo tempo, nos gestos lentos e na voz fina falsamente frágil, uma dor, uma gravidade e um esperto senso de retórica.

Econômico nos close-ups e usando bastante os planos abertos, Spielberg basicamente fornece uma área útil para Day-Lewis ocupar. Quando o presidente está no meio de um grupo de pessoas contando suas histórias edificantes, por exemplo, a câmera quase sempre o pega em plano-médio, nem muito aberto nem muito fechado - porque fazer o close-up daria ao momento um excesso de dramaticidade que Spielberg visivelmente tenta evitar. Até a trilha cheia de refrões de John Williams, que toca desde a cartela inicial, está inesperadamente controlada aqui.

Ao mesmo tempo, a iluminação de cena é quase barroca. Em muitos momentos, a principal fonte de luz em salas escuras vem da janela, e a réstia de sol obviamente recai sobre o presidente. É como se Day-Lewis estivesse sob holofotes num teatro, o que valoriza o já notável trabalho corporal do ator. Essa combinação fica entre o solene e o desafetado porque a luz é de iconografia - ela ressalta a silhueta clássica, com o cavanhaque e a cartola - mas sob ela Day-Lewis permanece inabalado, com sua composição mínima, sua "atuação de câmara".

O peso dos gestos de Day-Lewis, os "holofotes" e os planos abertos, combinados, dão uma boa dimensão da solidão do poder. Spielberg capta isso muito bem com sua costumeira excelência técnica, e se Lincoln é um filme imperfeito é porque o diretor carrega no discurso em alguns momentos para fazer o paralelo com outro presidente isolado, Barack Obama.

Assim como Lincoln, Obama fez um gabinete com ex-rivais (Joe Biden, Hillary Clinton) e carrega uma bandeira impopular (seria o sistema público de saúde de Obama a nova abolição?). Cenas como a da discussão do orçamento da Casa Branca, porém, parecem encenadas apenas para forçar esse paralelo: Obama seria o idealista lincolniano de hoje, preocupado com o futuro, enquanto a oposição fica com as mesquinhezas dos gastos orçamentários.

À parte esses excessos pontuais, o Spielberg contido de Lincoln pouco parece o cineasta que se colocava contra a escravidão nos dramáticos A Cor Púrpura e Amistad. Ele faz um filme que sem dúvida sabe dar ao episódio da abolição a gravidade devida, mas não perde de vista o político pai de família, negociador de apoios e contador de casos. Como o próprio diretor diz, em entrevistas, não é preciso endeusar mais um presidente que já tem sua cara em todas as notas de cinco dólares.

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