Ninfomaníaca - Parte 1

Elenco / Direção

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Ninfomaníaca - Parte 1 (Nymphomaniac: Volume I)

(Regular)
País: Dinamarca, Alemanha
Lançamento Brasil: 10/01/2014
Duração: 118 minutos

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Ninfomaníaca - Parte 1 | Crítica

Lars von Trier propõe investigação de sensações mas não se dispõe ao risco

Marcelo Hessel
20/10/2014 - 18:08

Como aqueles comerciais de refrigerante que vendem atitude, ser controverso é moeda de troca em festivais de cinema, e com base nisso Lars von Trier se estabeleceu como grife "autoral" a partir do Dogma 95. Condicionar seu trabalho a bater a expectativa do público pode ser um problema, porém, como mostra Ninfomaníaca - Parte 1 (Nymphomaniac).

Primeiro porque há de cara um ruído de mercado. Von Trier fez um pornô de cinco horas sobre uma mulher viciada em sexo, mas para ser exibido nos multiplexes "de arte" do mundo todo - a demanda gerada pela grife - abriu duas concessões: dividir o filme em dois e permitir uma versão mais curta sem sexo explícito. Esta Parte 1, com seu elenco internacional substituído por dublês nas discretas cenas de sexo, então está longe do Von Trier de 1998 que filmava sem pudor pirocas ao vento em Os Idiotas. E não bastasse terminar de repente, o filme ainda vem com cenas-do-próximo-capítulo nos créditos finais; a Parte 2 estreia em março.

É legítimo perguntar se o poder da grife Von Trier não daria ao cineasta autoridade para bancar, comercialmente, sua versão integral e original. A questão é que parece mais confortável para o dinamarquês preservar sua imagem pública de autor incompreendido: o filme abre com uma cartela revoltosa que diz que Ninfomaníaca foi reeditado com a permissão mas sem a participação do diretor.

Catálogo de sensações

Quando a geração de expectativa se torna um modo de operação, o perigo maior nem é, necessariamente, deixar de cumprir essa expectativa, e sim procurar formas de atingir por igual todo esse heterogêneo público-alvo que cresceu disforme, atraído pela controvérsia. Von Trier - que já foi mais safo e menos megalomaníaco - cai nessa armadilha, e Ninfomaníaca é um filme que adota uma cafona postura professoral para tentar dar conta de uma experiência sensorial para multidões.

Isso fica claro já nos primeiros planos, em que a câmera passeia lenta por um beco e vai isolando os barulhos do ambiente, como a chuva sobre superfícies diversas, para que fique latente que estamos em um filme "de sensações". Então podemos ver Joe (Charlotte Gainsbourg), a tal ninfomaníaca, largada machucada no chão, antes de ser acudida por Seligman (Stellan Skarsgård), o velho para quem ela contará a sua história de vida em oito capítulos, quatro em cada filme.

Quando Joe aparece pela primeira vez e o filme substitui aquele barulhinho de chuva por uma música da banda alemã de metal Rammstein, volta à cena o velho Von Trier do choque, mas o fato é que Ninfomaníaca resulta muito menos polêmico do que prometia. Há o humor negro característico do diretor (particularmente no capítulo com Uma Thurman), mas o que dá o tom nesta Parte 1 é mesmo o didatismo, na proliferação de hipertextos - o sexo enquanto pesca, o sexo enquanto música, o sexo enquanto botânica - e na relação entre Joe e Seligman.

Porque a dinâmica que se estabelece entre os dois personagens é menos uma interlocução de desafios - em que Joe seria uma Sheherazade das Mil e uma Noites testando seu rei a cada história contada - e mais uma situação de filtragem. Personagem oportunamente erudito, e infelizmente desprovido de duvidosas intenções, Seligman faz o intérprete que facilita o trabalho de traduzir o filme. Ninfomaníaca almeja ser uma investigação de sensações, mas termina sendo uma aborrecida catalogação de sensações.

Na cena em que Joe reconta a sua primeira relação sexual e Seligman identifica ali, na quantidade de estocadas tomadas pela virgem, um padrão de números de Fibonacci, é inevitável pensar que Von Trier está no fundo trollando o espectador. (Ele ironiza a própria obsessão com o hipertexto, na hora em que Joe questiona a veracidade da história de Seligman sobre garfos de bolo na Revolução Russa.) Trote ou não, a certeza que fica é que Ninfomaníaca vai render muito naquelas rodinhas de discussão, onde todos poderão dizer que viram pela primeira vez no cinema um softcore matemático.

Ninfomaníaca | Cinemas e horários

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