Elenco / Direção

Noé

Noah
(Bom)

Drama, Épico

  • Estréia: 3 de Abril de 2014
  • País / Ano de Produção: EUA / 2014
  • Duração: 138 minutos
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Noé | Crítica

Criacionismo, evolução e ambientalismo juntos na mesma Arca

02/04/2014 - 15:32 - Marcelo Hessel

A religião, e especificamente a necessidade de reinterpretar as escrituras sob a urgência dos nossos tempos, está presente nos filmes de Darren Aronofsky desde curtas como Protozoa (1993) até em longas como Pi (1998) e Fonte da Vida (2006). Embora Noé (Noah) tenha toda a cara de uma aventura bíblica nos moldes de clássicos como Os Dez Mandamentos (1956) - e o filme de Aronofsky seja competente nesse sentido, como épico de ação - sua versão do Dilúvio inevitavelmente passa pela mesma reinterpretação.

É na tentativa de fazer um blockbuster com um viés modernizante, ambientalista, que o cineasta conta a história de Noé, escolhido por Deus para salvar todos os animais quando o Criador se "arrepende" de ter dado ao homem o domínio do planeta. A versão adulta de Noé, interpretada por Russell Crowe, surge no filme coletando musgo com uma lâmina pequena como se fosse um cuidadoso biólogo, enquanto seu nêmesis, também descendente de Adão, Tubal-Cain (Ray Winstone), reina entre os homens com o talento para a mineração e com a ânsia dos extrativistas.

Aronofsky e o corroteirista Ari Handel foram buscar na Bíblia a figura de Tubal-Cain - nome associado nas escrituras à sua vocação como ferreiro e armeiro - para criar esse antagonismo. Não se faz um filme-catástrofe só com um dilúvio; todo blockbuster precisa de heróis e vilões, e Tubal-Cain é o Coronel Quaritch desta Pandora específica. Da mesma forma, ao recorrer ao apócrifo Livro de Enoque para aproveitar os anjos caídos do Velho Testamento e criar no filme o elemento dos Vigilantes, o cineasta coloca em ação gigantes de pedra que dão um tom de fantasia à O Senhor dos Anéis para seu épico.

No "Gênesis" a história da Arca tem apenas três páginas, e parece muita ingenuidade, de qualquer forma, esperar que Hollywood coloque promessas de fidelidade literária acima de seu senso de espetáculo. Em Noé, o espetacular está sempre presente, seja nas afetações new age das digressões de Aronofsky (ainda não me conformei que não toca "Age of Aquarius" no final), que visualmente aproximam Noé de Fonte da Vida, seja na escala das coisas. A decisão de construir a imensa arca de fato num set se faz sentir; na tela a missão de Noé parece colossal de verdade.

O problema do filme é localizar e definir o elemento humano no meio disso. O roteiro se esforça para afinar a história com o chamado Design Inteligente - a cena em que Noé reconta à sua família a origem do mundo parece saída da série de TV Cosmos e visivelmente tenta conciliar Criacionismo e Evolução - mas não há, no fundo, apesar dos esforços dos realizadores, um drama com que o espectador possa se relacionar. O arco dramático de Noé não é nenhum No Coração das Trevas; sua loucura não é gradual, o que muda basicamente é apenas seu penteado, e ele abraça o fundamentalismo a partir do terceiro ato sem se questionar de verdade.

E é aí que aquela operação inicial de contrapor uma figura heroica e um vilão arquetípico (Noé e Tubal-Cain) entra em curto-circuito. Noé não é um herói exatamente; ele vive com as consequências angustiantes de seus atos não porque fez escolhas erradas e aprendeu com elas - a jornada clássica do herói - e sim porque seguiu as ordens que recebeu. Quando ele entende, ao fim da chuva, que Deus lhe "pede" que seja implacável na sua missão, essa é uma leitura fundamentalista que Noé faz diante do silêncio divino - e nesse momento o épico Noé talvez já pedisse (e sua família sem dúvida pede) que ele fosse, se não um humanista, pelo menos um herói em transformação.

Darren Aronofsky nasceu judeu - religião que difere do Cristianismo, entre outras coisas, pela disposição em questionar o "salto de fé" dos católicos - e hoje se diz ateu. Ele se interessa pela religião com esse olhar externo de quem cresceu nutrindo a dúvida, embora o moralismo em alguns de seus filmes não deixe de ser um substituto aos dogmas religiosos. São essa inconstância e esse paradoxo - acreditar no livre-arbítrio e ao mesmo tempo impor uma moral aos seus personagens - que tornam seus filmes interessantes, e com Noé não é diferente.

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