Serra Pelada

Elenco / Direção

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Serra Pelada (Serra Pelada)

(Regular)
País: Brasil
Lançamento Brasil: 18/10/2013
Duração: 120 minutos

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Serra Pelada | Crítica

Filme de gângster com vocação de exploitation pega o que há de mais questionável no legado de Cidade de Deus

Marcelo Hessel
17/10/2013 - 20:26

Serra Pelada serve de considerável argumento para quem acredita que o legado deixado por Cidade de Deus, nestes últimos dez anos, é mesmo o da chamada cosmética da fome - termo criado em 2001 pela pesquisadora Ivana Bentes para falar dos filmes que transformam cenários de carência em espetáculos de massa exploratórios.

Assim como Cidade de Deus, Serra Pelada emula o cinema de gângster hollywoodiano para correr atrás desse senso de espetáculo - se o filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund era o nosso Os Bons Companheiros, o longa de Heitor Dhalia (À Deriva) tem O Poderoso Chefão como modelo. Uma cena em particular, a da reza na hora do almoço, intercalada com os ataques, inspira-se diretamente no "batismo de fogo" em Chefão.

Cabe a Juliano (Juliano Cazarré) a responsabilidade de ser nosso Michael Corleone, o cappo que ganha o poder e perde sua humanidade, enquanto Joaquim (Júlio Andrade) faz o Fredo da vez, o irmão diminuído. Na trama, ambos chegam à paraense Serra Pelada em 1980 prometendo amizade acima de tudo - e, ao longo de quatro anos, têm sua relação testada pelo dinheiro, na última grande jazida de ouro encontrada no país.

Para agilizar a identificação com os leigos, Serra Pelada recorre, assim como Cidade de Deus, a um narrador-mediador que traduza o gangsterismo para o público médio. Juliano e principalmente Joaquim, o "Professor", fazem o Buscapé aqui: intérpretes com ensino fundamental completo que sabem explicar com todas as palavras aquilo que os brutos do garimpo (ou da favela) são "incapazes" de articular.

São duas relações de cima pra baixo, portanto: tanto a que os protagonistas-narradores mantêm com os demais garimpeiros quanto aquela que o filme mantém com o espectador. É como se o discurso pronto e a matriz testada dos filmes de máfia já dessem conta de tudo, e para se sustentar enquanto narrativa Serra Pelada prescindisse de um contexto. Não por acaso, Joaquim e Juliano já chegam dizendo que "esse lugar piora a gente", embora estejam no garimpo só há alguns instantes.

Uma vez que Serra Pelada só transita na superfície das coisas - tipos exóticos de gays, prostitutas e bandidos, mediados por dois narradores comprometidos com o didatismo e com situações-clichê - então não resta opção a Heitor Dhalia que não seja embicar de vez rumo à tal cosmética da fome, e fazer um filme que, por suas escolhas de direção, aproxima-se mais do exploitation do que Cidade de Deus.

As performances são a única carta na manga de Serra Pelada - o ótimo elenco corresponde, e Sophie Charlotte particularmente surpreende - porque Dhalia cerca seus atores sem descanso: personagens descontextualizados são apenas corpos a explorar. Mulheres são enquadradas em contra-plongeé e homens, com câmera trêmula para simular urgência. E tome suadouro, nunca um elenco suou tanto, mas o caso é que transpirar não é transmitir.

Há um plano que é sintomático da vocação do filme para o exploitation: quando vai cortar para alguma cena no puteiro, o diretor usa como plano de transição um close-up nas intimidades do corpo de uma dançarina. É como se dissesse: tens aqui um baixo ventre, é ele que nos situa neste espaço, porque é tudo o que este espaço (no olhar fetichista do filme) tem a oferecer.

Não é de hoje que se discute a natureza fetichista do olhar do "estrangeiro", e a própria Serra Pelada foi objeto dessa análise quando o fotógrafo Sebastião Salgado - um dos maiores nomes do exploitation brasileiro - visitou o garimpo nos anos 1980, muito antes de toda a controvérsia da cosmética da fome ganhar corpo. Serra Pelada consegue, porém, atingir novos graus desse "espetáculo", aproveitando do legado de Cidade de Deus o que tem ali de mais questionável.

Serra Pelada | Cinemas e horários

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