Alice no País das Maravilhas: Omelete Entrevista Tim Burton

Diretor fala sobre seu envolvimento com a história, atores, 3-D e Comic-Con

22/04/2010 - 0:00 - Marcelo Forlani

Não é todo dia que se fica frente a frente com um dos seus ídolos, mas quando isso acontece é ótimo quando todas as expectativas são confirmadas. Foi o que aconteceu na Comic-Con 2009, quando Tim Burton foi até San Diego para promover Alice no País das Maravilhas .

O cineasta, criador de clássicos como Marte Ataca, Ed Wood, O Estranho Mundo de Jack e diretor dos dois primeiros Batman, além dos remakes de Planeta dos Macacos e A Fantástica Fábrica de Chocolate, entre tantos outros filmes, respondeu a todas as perguntas da entrevista coletiva com o humor e sombriedade que lhe são peculiares. E não há mais mais elogioso do que isso, afinal, se tem alguém que consegue ser engraçado dentro da sua própria estranheza, essa pessoa é Tim Burton.

Leia abaixo a entrevista e imagine o diretor falando tudo isso atrás dos seus óculos escuros e cabelos desgrenhados:

Parece ser um casamento perfeito: Tim Burton e Lewis Carroll. Como você vai utilizar a sua sensibilidade única como cineasta para transmitir a história contida no livro?

Não são só os livros. As imagens desse universo podem ser vistas em músicas, filmes e outros meios. Ele (Lewis Carroll) criou um argumento que transpassa qualquer geração e continua nas cabeças das pessoas. Tudo que traz a forte sensação de sonhos e fantasia, fica guardado em você. Estas são coisas muito importantes para seu subconsciente, seus pensamentos e sua criatividade mental. Eu sempre me senti com vontade de fazer isso de um jeito diferente, porque eu nunca vi uma versão cinematográfica deste filme que eu gostasse de verdade, então eu me senti tentado a criar a minha própria imagem da obra e transformá-la em um filme.

Qual a sua conexão emocional com a história?

Como eu disse, eu nunca vi uma versão cinematográfica desta obra que me despertasse uma conexão emocional. Era sempre aquela série de cenas de uma garota se encontrando com personagens malucos, e nada disso me fazia sentir uma conexão emocional de verdade. Assim, eu me senti tentado a dar para este quadro uma emoção real que nunca foi vista em versão alguma. Este é o grande desafio para mim: pegar cada personagem bizarro e tentar dar para ele uma bizarrice específica que o diferencie. Todos os personagens apresentados têm algum tipo de distúrbio mental. Desta forma, eu queria filmar Alice como uma história, e não simplesmente como uma sucessão de eventos.

Quando você estava crescendo, o que Alice significou para você? E gostaria de saber também se você relacionava a jornada dela com problemas que povoavam a sua mente?

Esta história traz um conceito universal, que também podemos ver em O Mágico de Oz, da jornada interna em que cada personagem representa diferentes aspectos da psique humana. Na infância sempre surgem problemas que devemos enfrentar, da mesma forma quando somos adultos. Alguns fazem terapia, outros fazem filmes (risos), há sempre formas diferentes de se trabalhar isso.

E quanto aos livros, quantos anos você tinha quando leu?

Eu devo ter lido o livro quando estava na escola, entre os 8 e 10 anos. Mas eu tenho uma estranha conexão com a história. Não sei se você sabe, mas eu comprei a casa do ilustrador Arthur Rackman, que fez versões maravilhosas em 1905 de Alice no País das Maravilhas, A Bela Adormecida entre outros trabalhos, e moro e trabalho lá . Aí sim eu senti uma conexão real entre eu, o material, a vida e tudo mais.

Algumas semanas atrás, Johnny Depp disse que vocês compararam as ideias que tinham para o Chapeleiro e elas eram bastante parecidas. Você pode falar sobre o personagem e a sua importância no filme?

É um personagem icônico que já ganhou vida na animação, com atores, etc . Acho que Johnny tenta encontrar o tom certo do personagem. Ele não se acha maluco. Em outras versões, ele era só se explorava um desses lados. Seu objetivo é trazer certa humanidade para as estranhezas do Chapeleiro. E em todos esses anos que venho trabalhando com ele, sempre tentamos fazer esse tipo de coisa, sem exceção.

Neste filme Alice recebe um pedido de casamento. Teríamos aí algum tipo de história de amor inserida na trama, um romance entre ela e o Chapeleiro Maluco, talvez?

Não, por favor... Ela é apenas uma garota! (risos) Ela está mais velha, mas nem tanto assim.

Como o trabalho de direção de arte, maquiagem, figurino, etc. vai se relacionar com a tecnologia empregada no longa?

Existem vários tipos de técnicas diferentes, como captura de movimentos, animação, live-action e a mistura delas. Por razões pessoais eu preferi não fazer o projeto inteiramente usando captação de movimentos, porque não gosto muito disso. Prefiro a animação pura e live-action, tentando usar o live-action para transmitir aquele mundo com precisão. Várias técnicas foram criadas para servir para este tipo de fusão de tecnologias. Quando trabalho com atores prefiro usá-los de verdade em vez de colocar pontinhos sobre seus corpos. Todas estas mídias são válidas, não acho que uma ou outra seja melhor. Dependendo do projeto, você tem que usar aquilo que considera melhor para ele.

Mas a parte filmada foi usando câmeras 3-D?

Nós não filmamos com câmera 3-D, nós usamos uma mistura de técnicas. Primeiro, por conta do tempo. Nós não tínhamos 5 ou 6 anos para desenvolver o projeto. Assim eu fiz um mix de animação com live-action, manipulando e adcionando diversos elementos. Conseguimos adicionar a profundidade que achávamos necessária, o que me deu certa liberdade criativa para alcançar o resultado. Fizemos tudo que gostaríamos de ter feito neste tempo. E pelo menos para mim, eu não consigo notar a diferença. Para mim, esta mistura pareceu a escolha técnica mais apropriada.

Como os elementos em 3-D estão inseridos na história?

Os espectadores que irão ao cinema 3-D, tendo que colocar aqueles óculos, não vão explodir de dor-de-cabeça com tantos efeitos. Isso não acontece mais. Agora temos uma experiência agradável. Eu usei essa tridimensionalidade como um extra, adicionando elementos para inserir o público na história. Como as cenas em que a Alice e ncolhe e cresce. Brinquei muito com os espaços e lugares que ajudassem nessa experiência. E o filme não pode funcionar só em 3-D. Quem assisti-lo em 2-D vai ver também que ficou realmente bom, que é um filme que merece ser visto. Quando vemos objetos quicando pela tela, a idéia é fazer uma experiência de imersão. Quando convertemos O Estranho Mundo de Jack para o 3-D percebi que aquela era a forma certa de mostrá-lo. Dava para ver melhor as texturas dos bonecos. Você passava a sentir o que nós sentimos quando estávamos no set de filmagens. Era uma coisa que acrescentava muito à experiência e dava mais sentido ao projeto todo. Dava para sentir tudo aquilo. Era uma experiência quase tátil.

Este projeto é mais uma sequência ou uma versão?

Eu não consideraria uma sequência porque há tantas histórias nos livros de Alice que você pode pegar apenas alguns elementos e remontar em uma nova trama. Eu me baseei muito em um dos poemas presentes na história, algo que não é muito importante, mas que contêm elementos interessantes, assim como em outros trechos, para montar a estrutura do filme.

Desde Edward - Mãos de Tesoura você não filma algo baseado em um roteiro original seu. Existe algum plano neste sentido?

Sim. Sempre tenho alguns idéias soltas que eu tento juntar, mas nada concreto por enquanto.

Você acha que há algum tipo de evolução nos seus últimos filmes?

Acho que não. É fácil olhar para as situações que passaram quando se tem um distanciamento, pois a hora que você está fazendo as coisas, está tão envolvido que não percebe. Às vezes você tem que dar um tempo para perceber como as coisas fluíram. Eu tento não pensar muito nisso, tento sempre olhar para frente e continuar.

Como os personagens já são pré-existentes, como foi a preparação dos atores para Alice?

Bem, os atores sempre trazem algum tipo de inspiração para a concepção dos personagens, seja pelo que leram num livro, uma vivência, alguma sugestão que possa ser inserida, ou retirada do roteiro. Se o ator se apaixona pelo personagem e se sente conectado, ele sempre vai querer trazer algo para melhorá-lo e isso ajuda muito. A Disney veio até mim com o projeto da Alice em 3-D, com um material que tinha diversos elementos interessantes, e eu queria fazer uma boa versão.

Fale um pouco sobre a escolha para o elenco de Mia Wasikowska (Alice) e Helena Bonham Carter (Rainha de Copas), sua esposa, que trabalhou junto de você em tantos projetos.

No caso da Mia, eu senti uma atração por ela porque ela tinha o perfil de uma garota curiosa pelas coisas. E eu queria alguém que estivesse com o coração no projeto só de olhar para a pessoa. Ela emana um tipo de poder eterno e pleno que me fez gostar dela para o papel. E foi por isso que a escolhi. E a Helena, sei lá. Ela tinha uma cabeça grande o suficiente para poder fazer a Rainha de Copas (risos).

Gostaria de saber sobre os rumores de que você fará uma versão Dark Shadows depois de Alice.

Sim, está nos planos. Se um dia eu conseguir terminar Alice. (risos)

Como você está se sentindo aqui na Comic-Con, o que tem achado e como conseguiu trazer o Johnny Depp para cá?

Ele estava na vizinhança. Ele estava andando pelo centro de convenções vestido de Jack Sparrow (risos). Foi muito legal da parte dele vir para dar um apoio ao filme.

É a primeira vez que você vêm a uma Comic-Con?

Eu vim aqui há muito tempo, quando era estudante, eram apenas algumas pessoas em umas salas com slide-shows. É agora está tudo muito diferente e maravilhoso. Eu sempre confiei em pessoas que amam, que são apaixonadas por esse tipo de coisa, sempre me gerou um bom sentimento, ver o pessoal vestido como os personagens. O Halloween sempre foi o meu feriado favorito do ano, e é ótimo ver que aqui temos um fim de semana extra para exercitar isso. Temos um ótimo astral aqui.

Você mostrou em seus trabalhos grandes personagens que têm inspirado as crianças. Você gosta de se fantasiar para o Halloween?

Sei lá, eu estou fantasiado agora! (risos) Halloween é aquele dia do ano que você pode usar uma fantasia e entrar no espírito da coisa. Eu acredito que às vezes você mostra mais de você mesmo quando está fantasiado. É algum tipo de liberdade artística que a situação proporciona. Por isso que é tão interessante ver as pessoas vestidas assim por aí. Seria legal fazer isso sempre, não só no Halloween. Mas algumas dessas fantasias são bem pessoais (risos).

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