Caótica Ana

A volta de Julio Medem à ficção

10/07/2008 - 17:00 - Érico Borgo

Seis anos após seu último longa-metragem de ficção, Lucia e o Sexo (2001), o cultuado Julio Medem retorna com Caótica Ana (2007).

O filme, segundo ele, tirou-o da depressão na qual se encontrava depois de dirigir o documentário The Basque Ball (2003), uma tentativa de diálogo com autoridades e separatistas sobre o desejo de independência da região Basca. Na época ele foi acusado pelo governo de "dar voz às guerrilhas" e sentiu que seus esforços foram em vão.

Outro elemento importante contribuiu fortemente para o novo trabalho: a morte de sua jovem irmã, aos 20 anos. Ana, a personagem principal do filme, foi batizada em sua homenagem e carrega também seu legado. São dela (ou inspiradas em seu estilo artístico) todas as pinturas presentes no filme.

A personagem é tipicamente "Medeniana" (presentes já em seis filmes do diretor, suas mulheres já merecem o adjetivo): bela, em busca de descobertas e entendimento de sua própria existência (ainda que relutante a princípio). Além disso, dado o tema um tanto "esotérico" de Caótica Ana, dá pra dizer até que ela carrega consigo todas as outras.

Esotérico porque o filme trata de reencarnação e outro elemento na moda em tempos de Maria Madalena e "wiccas", o poder feminino. Inicialmente meio hippie, Ana (Manuela Vellés) é uma artista de rua de feirinhas em Ibiza. Vive com o pai numa gruta à beira-mar até que encontra uma mecenas (Charlotte Rampling), que a leva ao fervilhante centro cultural madrilenho, onde Ana passa a viver com outros artistas num casarão. Lá ela estuda, pinta, cresce e encontra uma paixão. Mas a garota começa também a ter visões e desperta o interesse de autoridades no hipnotismo. Não tarda para que descubram que ela já viveu mil vidas - e em todas elas teve um trágico destino.

O visual, como nos trabalhos anteriores de Medem, é sofisticado. Mas o roteiro, talvez pessoal demais, é um tanto descuidado. Personagens surgem sem aviso - ou por coincidências incríveis - e desaparecem com a mesma velocidade. Além disso, apoia-se demais em metáforas, buscando uma profundidade que soa gratuita. Um pouco mais interessante é o tratamento que ele dá ao sexo neste filme. Diferente de uma Lucia, Ana não é um vulcão erótico prestes a explodir. É sensualíssima, mas sua sensualidade vêm muito mais do conforto que parece sentir em seu corpo (e sua nudez frequente) do que de desejo. É a forma que ele encontrou para mostrar a confiança inabalável dessa alma antiga.

De qualquer maneira, Caótica Ana é talvez o pior trabalho do diretor até aqui. Torçamos, ao menos, para que ele tenha conseguido expurgar seus problemas e reencontre seu cinema.

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