Missão Babilônia

O diretor francês Mathieu Kassovitz continua o mesmo: cria tensão e depois não sabe desfazer

18/09/2008 - 17:00 - Marcelo Hessel

Apesar de todos os prognósticos contrários - nem o astro Vin Diesel (A Batalha de Riddick), muito menos o diretor Mathieu Kassovitz (Rios Vermelhos, Na Companhia do Medo), recomendam o filme - Missão Babilônia começa bem.

Começa bem, antes de mais nada, porque não é um filme futurista pós-apocalíptico que explica tudo logo de cara. Encontramos o mercenário Toorop (Diesel) com pressa. Ele atravessa uma espécie de vila chuvosa do leste da Europa com barricadas, veículos pesados e muitos militares armados. Toorop invade uma tenda e tira de lá um asiático mirrado. Bota uma arma na cabeça dele, na frente de todos - e atira. Mas a pistola falha. Toorop foi lá para reclamar de volta seu dinheiro porque lhe venderam uma arma que não funciona.

O filme escolhe iniciar assim, com uma cena de ação que não é gratuita como de hábito, para nos mostrar que tipo de futuro é esse: tempos de cada um por si, em que o comércio ilegal impera, ou seja, um futuro não muito distante. Mais dados nos são fornecidos na forma de pistas: há satélites demais em órbita, os tigres estão extintos desde 2017, o aquecimento global é uma realidade, atravessar as fronteiras dos EUA ficou ainda mais difícil, o maquinário pesado da velha URSS é mais valioso do que nunca, etc.

Toorop está sendo contratado para escoltar uma moça da Mongólia até Nova York. Se sabíamos pouco sobre o mercenário, sabemos menos ainda sobre a garota. O contexto é o que importa neste começo de filme, e Kassovitz o instala muito bem. Ponto alto: para ser levado até a Mongólia, Toorop entra em um velho carro soviético que então é rebocado de helicóptero. Não há simbologia melhor: vive-se ali a pós-globalização, é possível chegar de um ponto a outro do planeta em instantes, mas só dentro de uma sucata cujo rádio ainda toca aquelas mesmas velhas canções propagandistas.

Kassovitz tem tino para as imagens bem construídas, sem fazê-las articificiais demais (a luz azul dentro do trem é uma bela sacada; marca um ponto de virada na trama sem fazer alarde), e Vin Diesel não precisa de muito - a economia de atuação faz parte da construção do misterioso personagem. Vai-se muito bem até a metade do filme, é a construção de uma babilônia digna do nome.

E aí a coisa descamba de vez.

Diesel e Kassovitz desdenharam o filme em uma entrevista à rede de TV AMC. O diretor francês reclamou que a Fox não teve culhão para fazer um filme para adultos e submeteu Missão Babilônia a várias remontagens. A bem da verdade, fica evidente na segunda metade de filme - um amontoado de trechos desconexos e sobrecarregados de informação, em que se explicam todos ao mesmo tempo os mistérios levantados na primeira metade - que o filme passou pelo bisturi meia-dúzia de vezes. Mas não dá pra culpar só o estúdio.

O fato é que Kassovitz, ótimo criador de tensão, continua inseguro na hora de desfazer os nós que cria. A cena dos ursos polares é um exemplo de didatismo em excesso. E já estavam no roteiro, provavelmente, antes de qualquer interferência do estúdio na pós-produção, diálogos medonhos como quando Michelle Yeoh diz que "o míssil pode ter sido um acidente".

Kassovitz perde o rumo. Rios Vermelhos tem ambientação formidável, mas na hora de explicar os mistérios... Com Na Companhia do Medo acontece o mesmo. O francês simplesmente não consegue encerrar o que começou, e no fim Missão Babilônia, depois de um bom início, resulta numa cópia desvairada de Filhos da Esperança. E por mais que a Fox tenha mutilado o filme, é o nome do francês que está lá nos créditos.

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