Os Delírios de Consumo de Becky Bloom

Filme sobre heroína ciclotímica sofre, ele mesmo, de transtorno bipolar

09/04/2009 - 15:00 - Marcelo Hessel

Rebecca Bloomwood chegou ao fundo do poço. Seu vício por compras já custou mais do que um mero estouro do limite do cartão de crédito. Ela é confortada pelo pai: "Se os Estados Unidos devem bilhões emprestados e ainda assim conseguem prosperar, você também consegue!".

A crise econômica é um vulto que somente pairaria sobre a comédia Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, não fosse mencionada tão descaradamente. Talvez sejam mudanças de última hora no roteiro para adequar o longa - que esperou na fila oito anos para ser produzido - ao cenário mundial atual. O fato é que Becky Bloom vive, em mais de um sentido, em uma fantasia colorida que não condiz com a realidade.

Fantasia colorida literalmente, porque o que há de mais extravangante nos editoriais das revistas de moda Becky faz questão de usar. A história começa como um Ugly Betty vestido por Patricia Field (a figurinista de O Diabo Veste Prada, que trabalha também neste filme). Isla Fisher interpreta a fashion victim do título, que precisa arrumar um novo emprego para pagar todas as suas faturas. O acaso a transforma em uma colunista de finanças pessoais numa publicação de Nova York.

Uma compradora compulsiva que dá dicas de como economizar - a irônica premissa dos livros mezzo autobiográficos de Sophie Kinsella é levada com fidelidade ao cinema. Atriz acima da média dentro do gênero das comédias físicas, Isla Fisher corresponde bem nos momentos de pantomima, e o retrato caricato que traça de Becky Bloom é o que a aproxima da cafonice consciente de um Ugly Betty. (A cena da mendiga com o vestido, que acumula humor em cima de tragédia, é Ugly Betty puro.)

Mas há a obrigação de incluir a crise. E se toda comédia romântica contemporânea tem seu arrastado lado edificante (valorizar o amor, a família, blabla), Os Delírios de Consumo de Becky Bloom adiciona mais uma lição de moral - e tome jornalista fazendo discurso naïve pela transparência, tome presidente de empresa levando sermão porque recolheu bônus milionário enquanto a empresa caía...

Esses reflexos do mundo real na ficção fazem da comédia uma amarga combinação de conto-de-fada alienante e cautionary tale, fábula-de-sobreaviso. O que pode até ser uma coisa interessante, mesmo porque é um paradoxo parecido com aquele que compõe a personalidade bipolar de Becky Bloom.

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