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Cabeça Tubarão - A resposta ao "Mistério no Omelete"

Era tudo um jogo para divulgar o livro mais insano do ano

Érico Borgo
30 de Outubro de 2007

Cabeça Tubarão

Cabeça Tubarão

Steve Hall

Companhia das Letras

Excelente

Antenadíssimos os nossos leitores. Alguns, em poucas horas após a publicação na nota "Mistério no Omelete", que causou furor na semana passada, já haviam descoberto tratar-se de um jogo para divulgar o romance Cabeça Tubarão (The Raw Shark Texts), que a Companhia das Letras lança agora no Brasil.

A grande parte, porém, ficou é pirando com as relações (ou pistas) que divulgamos aos poucos. Tubarão, Pi, Vanilla Sky, Matrix, Nunca aos Domingos, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança, Casablanca... o que diabos afinal todas produções têm a ver com Frapê de Café, vida conceitual, um gato chamado Ian e paradisíacas ilhas gregas?

Na cabeça do inglês da cidade de Derbyshire, Steven Hall, autor do romance, tudo! E olhe que nem mencionamos Alice no País das Maravilhas, Paul Auster, Jorge Luis Borges...

O escritor criou um universo riquíssimo em detalhes e extremamente instigante. Nele, um sujeito acorda do que parece ser um ataque, sozinho, numa casa desconhecida (não, não é Jason Bourne). Não se lembra de coisa alguma nem o que está fazendo ali. Aliás, nem seu próprio rosto ele conhece. Felizmente, há uma carta sobre a mesa. "Antes de mais nada, fique calmo". O remetente? Como no filme Amnésia, ele mesmo.

O homem, descobrimos (e ele também), é Eric Sanderson. Ou foi. Sua terapeuta - a quem ele recorre seguindo suas próprias orientações escritas - informa que ele sofre de uma condição de amnésia dissociativa. Seus apagões começaram num evento dramático anos atrás e seguem acontecendo conforme Eric depara-se com alguma coisa. O quê, ela não sabe. Sabe apenas que ele deve ignorar as outras cartas que certamente encontrará. Seu passado, ironicamente, só atrapalha a recuperação.

Obviamente, não demora para que a recomendação da doutora seja colocada de lado (afinal, ele está sendo caçado por algo enorme e assustador!) e Eric se veja metido numa luta pela sobrevivência de sua própria mente e - por que não? - da individualidade humana.

Hall é um poço de cultura pop. Diferente da maioria dos autores que gostam de parecer moderninhos usando tais referências, porém, o escritor parece vivê-las. Ele menciona a cultura de massa de maneira absolutamente despretensiosa, criando personagens que efetivamente estão inseridos nesse mundo. Quando Eric e sua namorada discutem letras de música, é como se tivessem acabado de desligar seus iPods... Na tradição de um Kevin Smith, portanto, ao homenagear a arte pop, Hall integra-se a ela.

Igualmente bacanas são suas brincadeiras estruturais. Em tempos de pós-modernismo, jogos online, códigos DaVinci e Jonathan Safran Foer, Hall usa imagens e tipografia como partes essenciais da trama cinematográfica. Há mensagens cifradas, flipbook, trechos de enciclopédias, fotos... mais interativo só mesmo se o livro tivesse aqueles elementos de RPG impresso - tipo "você ataca o goblin? Sim (vá para a página 15). Não (vá para a página 28).

Mas nem precisa... Hall vai além da limitação do suporte papel e expande a experiência do romance usando a internet. Nas listas de discussão do seu livro já foram descobertos diversos "não-capítulos", trechos da história que existem em edições específicas da publicação ao redor do planeta. E a brasileira, claro, também tem a sua... e cabe a você descobrir qual é. Ou você achou que o jogo acabava aqui? ;-)

Cabeça tubarão - Steven Hall
480 páginas, 14 x 21 cm.
Previsão de lançamento: 01/11/07


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