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Jack White - Blunderbuss | Crítica

Sem grandes surpresas, mas tão excelente quanto se esperava

Fernando Scoczynski Filho
23 de Abril de 2012

Blunderbuss

Blunderbuss

Jack White
Estados Unidos , 2012 - 41:52
XL Records

Excelente

Após moldar e influenciar o rock da década passada, com os dez ótimos discos lançados pelo trio de bandas que liderou (ou co-liderou), Jack White finalmente optou por lançar seu primeiro trabalho solo, Blunderbuss.

O ponto de partida para analisar uma obra deste tipo costuma ser a comparação entre ela e o restante da discografia do artista em questão. Assim, logo na primeira audição, Blunderbuss deixa claro que não pode ser descrito como um simples ponto médio entre os três antigos grupos de White, mas também não foge daquilo que já foi ouvido neles. Sonoramente, está mais próximo do The Raconteurs, tanto pela instrumentação (guitarra, baixo, bateria, piano), quanto pelo rock setentista influenciado pelo country. Também há escassas amostras do punk/blues imediato do The White Stripes, e pouquíssimo do som mais dançante e abrasivo do The Dead Weather.

Ainda referindo-se a comparações, é importante notar que, nos últimos trabalhos de cada um dos três projetos, houve evoluções aos saltos. Respectivamente, Consolers of The Lonely (2008) partiu do rock quase-pop para o quase-progressivo; Icky Thump (2007) abrangeu tantos gêneros que chegou perto de perder seu rumo; e Sea of Cowards (2010) mais parecia uma furiosa, ininterrupta jam session de meia-hora. Tendo isso em mente, é curiosa a forma como Jack White não está preocupado em ampliar seus limites em Blunderbuss, mas sim em se aperfeiçoar dentro do rock que já fazia bem. Livre das restrições e opiniões alheias que fazem parte da dinâmica de qualquer banda, White adotou vários estilos, mas não experimentou nem flertou com nenhum novo; apenas cuidou para que não soasse como uma cópia de si mesmo.

Como principal medida para evitar o déjà vu, a utilização de guitarras foi restringida, mas de maneira a não descaracterizar o álbum como um trabalho de rock. A maior parte parte das canções é conduzida pelo piano (ou teclado), acompanhado de um violão, com White resgatando texturas que começou a explorar no único de seus dez álbuns que não foi dominado pela guitarra - Get Behind Me Satan (The White Stripes, 2005). Dentre as faixas que exemplificam isso, destacam-se as sombrias "Hypocrytical Kiss" e "Weep Themselves to Sleep", ambas escalando e liberando sua tensão por diversas vezes, graças a um bom uso do piano, em perfeita sintonia com o ritmo e os vocais de White. Claro, a guitarra faz várias aparições, mas muitos ouvintes ficarão primeiro chocados ao descobrir que "Sixteen Saltines" é a única música introduzida por um riff em todo o disco, e, depois, aliviados ao perceber quantos solos este contém.

A implementação dos instrumentos de teclas em detrimento dos de cordas não funciona tão bem durante todo o álbum. Após a ótima cover "I'm Shakin'" (de Little Willie Johnson), há uma sequência de quatro faixas com humores tão uniformemente alegres, que um ar desnecessário de ingenuidade é gerado. Logo, chega como um alívio o riff da faixa final "Take Me With You When You Go", que resgata os últimos minutos de Blunderbuss, reinserindo a variedade que é tão presente em sua primeira metade.

Como de costume, as melhores letras de White são aquelas que falam, sem reservas, de sua relação com o sexo feminino - aqui, praticamente todas se encaixam nessa categoria. Porém, o mesmo homem que já compôs versos de auto-confiança e conquista como "All the white girls trip when I sing at Sunday service" e "Let's have a ball and a biscuit, and take our sweet little time about it", encontra-se, agora, tratando de relacionamentos com uma mistura de desprazer e rancor. Na abertura, "Missing Pieces", culpa alguém por necessitar tanto dele, que acabou levando alguns de seus "pedaços" quando partiu; próximo ao fim, em "I Guess I Should Go To Sleep", lamenta a impossibilidade de se discutir com uma mulher aos prantos; enquanto que, em "Love Interruption", resume, perfeitamente: "I won't let love disrupt, corrupt or interrupt me, anymore". O disco está repleto de exemplos similares, onde White expressa um ressentimento que pareceria irreparável, não fosse pela sua forma ácida e quase humorística de lidar com o problema. Para aqueles que decidirem se aprofundar numa análise das letras, uma obra melhor aguarda.

Tal qual todo bom álbum deve tentar ser, Blunderbuss se aproxima de ser absolutamente coeso. Certamente, há momentos mais excitantes ou memoráveis que outros, mas todos fazem sentido e têm sua função dentro da obra. No geral, é tão consistente em qualidade quanto qualquer outro dos dez trabalhos anteriores do músico, mas deverá gerar reações tão variadas quanto aquelas que surgiram quando ele alternou entre grupos, bem como um número ainda maior de comparações. Por conta própria, sem limites para sua criatividade, Jack White fez um rock que mantém-se dentro de seus padrões - os quais, felizmente, são extraordinários.

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Comentários (21)

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Caio Caio (10/08/2012 14:16:40)   105 0
Álbum está no replay desde o começo do ano. Simplesmente um dos melhores do ano.



Jamerson Jamerson (24/04/2012 10:12:02)   396 1
sou fã do Jack White, o album é bom, mas não é pra tanto. Prefiro os anteriores, a parceria com Brendan Benson é insuperável.

"Hypocrytical Kiss" é a melhor!



James James (23/04/2012 22:30:20)   157 0
Hum... Esse Jack Withe é Fodão.


MAL COMPARANDO (entederam doidinhos?) talvez seja o único cara q "corta cana e chupa ao mesmo tempo" ou melhor: canta como Robert Plant e toca como Jimmy Page!


Incrível!!!



Joel Schumacher Joel Schumacher (23/04/2012 22:26:08)   444 0
Por isso digo... SOU FÃ DO JACK WHITE!



Menino Lobo Menino Lobo (23/04/2012 22:03:59)   268 0
O álbum é muito bom! Jack White não é superestimado, ele é bom mesmo. De qualquer forma, não sei se daria 5, mas é um ótimo trabalho.



Marcos Marcos (23/04/2012 20:35:05)   83 1
Estou digerindo o álbum ainda, mas numa primeira audição não achei sensacional, mas também não achei medíocre. Preciso ouvir mais pra ter uma opinião formada, assim como aconteceu com o último do Mastodon, que de início achei fraco e hoje em dia adoro.



xMarcosx xMarcosx (23/04/2012 20:13:55)   62 1
Ótimo álbum, só esperava que ele tivesse mais gitarras, mas tudo bem :D



Caio Caio (23/04/2012 19:16:31)   51 1
Fazia tempo que não me entusiasmava por um disco. É FODA PRA KRALHO!!!!!



sem avatar lucas (23/04/2012 18:56:08)   83 1
To ouvindo agora o album.
Realmente, ele completo está bem mais interessante que as músicas soltas que tinha ouvido antes. Não tinha me empolgado muito.

Mas o conjunto está realmente bem coeso.



Hector Hector (23/04/2012 18:13:17)   766 0
Não tenho nada contra o artista... mas acho Jack White um pouco superestimado.


luiz luiz (23/04/2012 20:28:29)   4 1
é só observar o restante da cena musical. É um alívio quando aparece um artista como ele. É possível acreditar que justiça está sendo feita quando este recebe seu devido valor.

Hector Hector (24/04/2012 08:24:37)   766 1
"é só observar o restante da cena musical"

Realmente... colocando dessa forma entende-se realmente o motivo de recepção tão "calorosa".


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Paulo Vox Paulo Vox (23/04/2012 18:00:13)   123 1
Aliás tem, o El Camino do Black Keys é um disco que merece 5 ovos.


Marcos Marcos (23/04/2012 20:54:18)   83 0
El Camino é excelente e viciante, acho que é o álbum mais acessível dos Black Keys, não?!

sem avatar Guilherme (30/04/2012 11:00:20)   1 0
El Camino é um 4 ovos no máximo. É o álbum mais açúcarado dos caras. É muito bom e muito mais coeso que o Brothers. Mas falando em Black Keys tem que olhar para o começo do catálogo deles para achar os álbums 05 ovos. "The Big Come Up" e "Rubber Factory" são muito superiores ao El Camino.

Quanto ao "Blunderbuss"; esse é um puta disco. Jack White é um dos melhores compositores na ativa hoje em dia. O CD é bem variado e o pouco uso de guitarras quase nem é sentido, graças a uns belos solos de piano ao longo do disco.


Paulo Vox Paulo Vox (23/04/2012 17:49:41)   123 1
Jack White é um bom musico, mas 5 ovos é meio exagerado. Faz tempo que não vejo um disco que merece esta classificação.



Renato Renato (23/04/2012 17:22:52)   -4 -4
Comentário mal avaliado pelos leitores. Clique para ler.

sem avatar lucas (23/04/2012 18:54:49)   83 1
Em que mundo que você vive que "ninguém" escuta Radiohead e Jack White? (principalmente Radiohead...)

Só pq vc uma opinião (bem fraca, por sinal), não quer dizer que o gosto alheio seja patético.

Patética é a agressividade que o senhor trata um artista completo e competente como Jack White.

Marcos Marcos (23/04/2012 20:56:17)   83 0
Eu ouço Radiohead bem como Jack White na maioria dos seus projetos, mas nem por isso os considero gênios.

Augusto Augusto (17/04/2014 15:18:00)   1 0
Jack White, surge como um arremedo de musico em uma pseudo banda de punk. num cenário atualmente favorável e carente de músicos razoáveis.Que se tornou punk pelo simples fato de querer usar o artificio de não saber tocar. A comparação ultimamente feita, dele com outros guitarristas é um declive da sanidade musical das pessoas. Jack White não é cantor, nem guitarrista mas consegue ser um pseudo artista. Foi escarrado no Mainstream, e como se não houvesse alternativa. Se tornou o ídolo da cultura indie. Da qual nunca precisou ser comparada ao Classic rock, mas no momento que surge uns riffizinhos mais destacados numa guitarra cheia de efeitos e tocada com pouca técnica. O ser que possui logo é comparado aos grandes nomes da guitarra.



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