A Caça | Crítica

Dignidade em meio à histeria coletiva

Érico Borgo
19 de Outubro de 2012

A Caça

A Caça

Jagten
Dinamarca , 2012 - 115 min.
Drama

Direção:
Thomas Vinterberg

Roteiro:
Thomas Vinterberg

Elenco:
Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Ole Dupont

Ótimo
A Caça
A Caça

O dinamarquês Thomas Vinterberg (Submarino, Querida Wendy), um dos criadores do movimento Dogma 95, retorna ao tema de seu primeiro filme, Festa de Família (1998) em A Caça (Jagen, 2012).

É o melhor filme do diretor desde seu elogiado debute e, apesar da palavra "pedófilo" estar presente em ambas as sinopses, o tema é tratado de forma muito diferente 14 anos depois. Vinterberg deixa de lado o humor negro satírico do original para realizar um filme sutil, centrado e emocionalmente contido.

Na trama, um professor de jardim da infância (Mads Mikkelsen) é adorado pela população da pequena cidade em que vive. Participa dos grupos de caça (uma tradição local), é apoiado durante seu divórcio e tem amigos leais. Mas quando Klara (Annika Wedderkopp), uma menina de 8 anos, filha de seu melhor amigo, confunde seus sentimentos pelo professor e tenta beijar-lhe, o homem pacientemente explica que isso só se faz entre "mamães e papais" e que ela deveria dar atenção aos meninos de sua idade. Mas Klara, confusa, resolve repetir à diretora da escolinha uma frase que ouviu dos irmãos - algo que coloca a cidade inteira contra o professor, que é acusado gravamente de ter abusado sexualmente da menininha.

A edição primorosa não deixa um grama sequer de gordura no filme, que conta com a belíssima fotografia de Charlotte Bruus Cristensen (mais quente no início e menos acolhedora quando as coisas começam a degringolar). Vinterberg, sabiamente, evita todos os clichês possíveis desse tipo de filme, concentrando sua história nos espaços vazios, em que pouco acontece, favorecendo a introspecção, a sutileza e valorizando a catarse. E Mikkelsen, melhor ator em Cannes pelo papel, tem aqui também seu melhor trabalho - enchendo a tela com uma presença poderosa, que irradia dignidade e descrença pelo que está acontecendo (como os bons episódios de Além da Imaginação, em que o chão desaparece sob os pés dos protagonistas).

Ao final, quando toda a concentração enfim dá lugar aos sentimentos represados, A Caça simplesmente explode em uma espécie de crítica social que não demoniza ninguém e nunca dá lugar ao fatalismo que acometeu alguns dos filmes anteriores de Vinterberg. A cena derradeira é o único ponto negativo de todo o filme, que já havia sido bem resolvido, mas parece ter sido uma pequena concessão do diretor ao grande público - um lembrete de que quando a histeria se estabelece, nem toda a história é escrita pelos vencedores.

Leia mais críticas da Mostra 2012



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Comentários (15)

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sem avatar Vinícius (02/02/2014 21:09:11)   0 0
A filha do amigo tem cinco anos e não oito.



sem avatar Marcio (17/11/2013 21:23:59)   -9 0
O diretor Thomas Vinterberg (que também é um dos roteiristas com Tobias Lindholm) nos entrega um drama em que nos mostra uma face que procuramos manter escondida dentro de nós: julgamos sem sermos imparciais.
Lucas (Mads Mikkelsen) trabalha em uma creche e busca se reerguer após um divórcio. Gostaria que seu filho morasse com ele. É um indivíduo de bom coração e possui vários amigos. Quando um dia uma das crianças da creche e filha de um dos seus grandes amigos diz para a diretora da creche que ele se insinuou sexualmente para ela, sua vida é transformada em um inferno e aqueles que se diziam seus amigos passam a desejá-lo pelas costas.
Mads Mikkelsen realiza um bom desempenho na caracterização de seu personagem. Em uma cena em que sai da creche após ser acusado, vejo em seu rosto uma dúvida, um atordoamento de não saber ainda ou de não ter caído à ficha ainda do que está acontecendo. Annika Wedderkopp interpreta Klara e apesar da idade realiza um trabalho muito bom. Com seu olhar vago ou um tique consegue nos indicar uma tristeza ou doença velada (ela tem TOC). Ao mesmo tempo consegue estar em um momento com uma expressão alegre e se fechar em seguida.
Thomas Vinterberg estabelece o quanto Lucas é querido tanto pelos alunos quanto pelo seu grupo de amigos. Assim acaba nos manipulando para sofrermos mais com o que Lucas irá passar. Sabemos de informações que os personagens não sabem e isso nos tortura e nos irrita. Somos expectadores de uma caça ao protagonista e não podemos fazer nada. Acabamos passivos como em muitos casos em nossa vida. Às vezes a passividade não é uma inércia e sim as circunstâncias que nos obrigam a essa paralisação. Sem contar que inúmeras vezes julgamos pelo simples fato do horror que é a situação, sem ponderarmos fatos e versões. Dessa maneira acabaríamos apedrejando Lucas como as pessoas a seu redor fizeram.
Por o diretor nos manipular dessa maneira, ele não se preocupa, em minha opinião, em ser verossímil, pois é nítido que Klara tem um problema e que aceitar tudo que vem de sua mente é um pouco forçado. A maneira como ela é interrogada ou a maneira com que o caso é tratado na creche faz com que nos afastemos um pouco da trama. Passamos a não aceitar muito bem a situação e acabamos nos revoltando mais com o diretor (e com o filme) por ver que o mais importante que o diretor quer é ir fundo na possível destruição da vida de Lucas a fim de que assistamos uma verdadeira injustiça.
Dessa maneira apesar de ser um filme interessante não consegui apreciar tanto a caça realizada ao personagem.

http://embriagadospelocinema.blogspot.com.br/2013/11/critica-caca.html



claudio claudio (19/04/2013 19:05:48)   20 0
Exemplo de como fazer um ótimo drama sem um pingo de melodrama barato.



sem avatar josé (06/04/2013 14:48:14)   -39 0
deve ter ganhado 4 ovos pq não tem efeitos especiais...DÁ PRA LEVAR ESSES CARAS A SÉRIO?!?



sem avatar Maicon (04/04/2013 09:47:20)   41 0
Apenas 4 Ovos?



sem avatar Daniel (23/03/2013 08:45:42)   -7 0
Corri para logo assistir na estreia mesmo, e o filme é hipnotizador. As interpretações são brilhantes, principalmente a do protagonista. Diversos sentimentos e sensações são nos postos à prova por conta da passividade do personagem principal, cuja conduta durante todo filme deixa uma dúvida no ar: é inocente ou culpado? Vale muito a pena conferir.



 Cristina Cristina (22/03/2013 23:24:37)   556 0
Otimo ator, estava esperano que estreasse o filme por aqui, só falta agora Hannibal.



Marco Aurélio Marco Aurélio (07/01/2013 21:19:50)   -4 0
E aí pessoal! Disponibilizo meu site de críticas para quem quiser acessar e dar uma conferida...

http://www.cinemarcocriticas.blogspot.com.br/



Anderson Anderson (20/10/2012 03:24:40)   23 0
Espero que ele seja reconhecido além de Cannes, quem sabe até uma indicação ao Oscar.



Willie Willie (19/10/2012 18:19:22)   795 0
Sou fã desse ator desdo o magnífico Valhalla Rising! E sou fã do Vinterberg também... então tô na fila!!!



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Comentarista Comentarista (19/10/2012 14:40:58)   500 0
Thor 2 perdeu muito com a saída do Mads Mikkelsen, mas como disse o Raphael, não vejo a hora de assisti-lo como Hannibal!



nilton nilton (19/10/2012 14:00:50)   -2194 0
Mikkelsen rouba a cena, seja em 2, 3 minutos do rei arthur sem falar quase nada, ou do vilao le chifre do 007 de casino royale, como a critica do borgo foi favoravel irei conferir


claudio claudio (19/04/2013 19:04:58)   20 0
Em Pusher 2 do diretor Nicolas Winding Refn ele tamben esta ótimo !


Raphael Raphael (19/10/2012 11:28:13)   61 1
Mads Mikkelsen um dos melhores atores da atualidade, expectativa absoluta desde já pra vê-lo como Hannibal Lecter.




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