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Fotos: Adelaide Ivánova |
Você pode não saber, mas o Brasil ganhou, no dia 16, mais um nome naquela lista de bandas que vêm angariar uns trocados de sobrevida no país, depois de mergulhar na decadência.
A bola da vez foi a nova-iorquina Foreigner, que correu o mundo há trinta anos, muito antes dos conterrâneos Strokes arriscarem um acorde errado. A história da banda, aliás, tem similaridades com seus contemporâneos sujinhos: eles gostam de contar que, logo depois do lançamento do primeiro álbum, em 1977, foram jogados em uma turnê instantânea, com apenas dez músicas na bagagem. Devidas proporções tomadas, são precursores de Casablanca e cia, que estouraram para o mundo com meia dúzia de canções via Internet.
O primeiro show brasileiro do Foreigner chegou a São Paulo na noite seguinte à apresentação encharcada do Oasis, ocupando a mesma casa. A grande diferença era a platéia, que desta vez não reuniu mais de cinqüenta pessoas nas mesas.
No palco, a banda é uma caricatura reformada de si mesma, preenchendo sem esforço todos os clichês ruins do rock de arena: o tecladista cool, o baixista com poses ridículas, o vocalista afetado, o segundo guitarrista que é até bom, mas toca outro instrumento melhor ainda... E na bateria, o músico com DNA: Jason Bonham, filho do lendário baterista do Led Zeppelin, mas sem boa parte do talento do pai.
O único sobrevivente dos anos áureos é o guitarrista Mick Jones, em nova fase, com uma avançada careca no lugar dos longos cabelos loiros. Ao contrário da banda de apoio, visivelmente marqueteira, ele parecia ser o único realmente feliz por achar pessoas que ainda paguem para assistir a um show seu - o contrário do que se espera de uma turnê caça-níqueis como essa. Além da honestidade, Jones também colocou afinco na sua guitarra, mostrando que ainda está ultrapassado (pelo menos até o próximo revival), mas sabe fazer barulho com propriedade.
E dá-lhe hits no setlist. O repertório do Foreigner sobrevive até hoje na programação das ditas "FMs adultas", com o seu semi-hard rock melado e baladas grudentas. "Double vision", "Cold as ice", "Dirty white boy", "Feels like the first time" - não há quem, com mais de vinte anos, não tenha ouvido ao menos um desses épicos.
A platéia, minúscula mas esforçada, respondia com animação, cantando todas as músicas e interagindo com o vocalista. Roqueiros com mais de 50 se animavam a uma dancinha velha, logo ao lado de uma bandeira do Brasil solitária, levantada em frente ao palco. Um público que, apesar de contar com uns poucos adolescentes, parecia recém-tirado do congelador do rock.
Foi um show quase honrado. Mas nem esses momentos de nostalgia salvaram a apresentação do Foreigner de um desastre calculado. Tudo começou com o bizarro arranjo quase flamenco de "Say you will", outro da longa lista de hits. Mais além, no meio dos solos de "Juke box hero", a banda cismou em entulhar acordes de "Whole lotta love", do Led Zeppelin. O arrepio na espinha ainda não tinha passado quando, no bis, Jones pegou o microfone e disse que os músicos tinham o costume de "mandar uma pequena mensagem ao pai dele", apontando para o Bonham júnior e emendando "Misty mountain hop", outro clássico zeppeliano.
A cover fora de esquadro tornou-se o ápice de tudo, acabando com a pouca dignidade que ainda restava no recinto. Foi o fim da breve saga do Foreigner no Brasil, provando que essas velhas bandas deviam se limitar a sugar a glória da sua própria discografia, ao invés de insistir em provar que a concorrência era melhor.
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