Na semana passada o palco montado dentro do clube Clash, em São Paulo, passou pouco mais de sessenta minutos em um universo paralelo. Quem estava lá, viu. E cada um entendeu de uma maneira, de acordo com o que lhe restava de audição. Era guerra, batalha sonora, em um lugar desamarrado da realidade.
Era o show dos Battles, banda nova-iorquina que vem arregimentando estrelas entusiasmadas (e nada gratuitas) desde o lançamento de seu primeiro álbum, Mirrored, no primeiro semestre. O quarteto é classificado como bastião atual do math-rock, estilo experimental com melodias complexas e andamentos quase exatos, de verve usualmente pesada. Mas, rótulos inventivos à parte, é ao vivo que, como se costuma dizer, a coisa pega.
No palco, os Battles funcionam como quatro one man bands dividindo o mesmo espaço. Ao fundo, David Konopka se reveza entre baixo, guitarra e uma pilha de equipamentos, entre seqüenciadores e pedais. Ian Williams toca guitarra, teclado, laptop e sintetizadores. O gigantesco John Stanier (conhecido por ser ex-Helmet) ocupa o centro com seu set resumido de bateria - apesar de um prato caracteristicamente estendido a dois metros do chão. E Tyondai Braxton, filho do polêmico jazzista Anthony Braxton, se entretém com a terceira guitarra, outro laptop e mais sintetizadores, além do microfone.
A dinâmica dos quatro é tão complexa quanto parece em palavras. Na maior parte do tempo, cada um agia como se não estivessem tocando todos a mesma composição. A equação dos Battles envolve música eletrônica, rock desarraigado, free jazz, experimentalismo e até truques adotados pelo pop mais grudento, capazes de fazer a platéia cantar junto. Uma soma complexa, mas que resulta em uma variável coerente.
Ao vivo, as faixas ganham em peso e velocidade, mas o que impressiona é a habilidade (e, alguém dirá, insanidade) dos músicos. Konopka é o único que passa quase despercebido, apesar de responsável por boa parte da construção do clima. Williams e Braxton chamam a atenção pelo jeito inusual de dedilhar suas guitarras; assim como o segundo se mostra o mais divertido, principalmente quando pega ao microfone. Mas difícil mesmo é tirar os olhos do ogro Stanier, que toca com tanta determinação que faz suar seu instrumento.
E assim desfiaram o repertório quase completo de Mirrored (e de parte pequena dos EPs de início de carreira, lançados em 2004). Seria possível destacar "Race in", "Rainbow" e o hit "Atlas" como pontos altos do show. Mas em momentos assim, quando uma música se funde a outra, a platéia submerge tentando entender o que está acontecendo e as caixas tremem com a potência do som, esse conceito cai por terra. O zumbido, que permaneceu no ouvido depois do cessar-fogo, é a prova.
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