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Depois de duas colunas dedicadas aos quadrinhos, é hora de falar novamente de alguns álbuns que tenho ouvido recentemente. Os três primeiros foram lançados recentemente no Brasil, já os outros dois, apesar de não estarem assim tão "frescos", merecem um lugar aqui pela sua qualidade.
Blind Guardian - A twist in the myth
Desde o lançamento de Nightfall in Middle-earth, considerado por muitos o seu melhor álbum, o Blind Guardian estabeleceu um período mínimo de quatro anos entre um e outro trabalho de estúdio. Foi assim entre NIME e A night at the opera e agora para seu novo trabalho, A twist in the myth. Não que tenha sido um período infrutífero. Afinal, nesse hiato, a banda fez uma longa turnê - da qual resultaram o álbum duplo Live e o excelente DVD Imaginations through the looking glass - e o vocalista Hansi Kürsch ainda teve tempo de trabalhar no segundo álbum do Demons & Wizards, projeto que mantém com John Schaffer, do Iced Earth. Nesse meio tempo, o Blind Guardian ainda perdeu o baterista Thomas Stauch, primeira baixa na banda desde sua fundação, em 1985.
O Blind Guardian foi a banda que mais se destacou no cenário do heavy metal na década de 90, principalmente por não se repetir. Cada um dos seus álbuns traz elementos diferentes à sonoridade da banda, colocando o Blind como o mais criativo e ousado grupo do cenário. Assim sendo, depois de A night..., em que a banda explorou todas as suas influências sinfônicas e progressivas, ficou uma desconfiança no ar, sobre qual seria o próximo passo. O novo álbum seria ainda mais épico e complicado do que o anterior ou a banda daria um passo atrás e voltaria às raízes?
No fim das contas, A twist in the myth é um conjunto dos dois. O Blind Guardian deu um passo atrás para dar dois à frente. O resultado é um álbum menos épico do que o anterior, mas, ainda assim, mais pesado, com uma sonoridade mais direta, mas sem nunca perder os elementos característicos da banda. Ou seja, quem espera encontrar em A twist... elementos presentes nos discos anteriores, como, power, speed e symphonic metal, influências progressivas e uma pitada de experimentações mais "modernas" estará bem servido. Aqueles que, por outro lado, esperam que o BG repita algum de seus trabalhos anteriores vai cair do cavalo.
Segundo entrevistas recentes de André Olbrich (guitarra) e Hansi Kürsch (vocal), o Blind Guardian havia quase que esgotado seu repertório sinfônico em ANATO. Assim, em A twist... seguiriam por um caminho diferente sem, obviamente, perder o foco de sempre evoluir em sua sonoridade. E não é que os bardos alemães conseguiram fazer isso? O disco é aberto com "This will never end", faixa que dá uma boa idéia do que vem pela frente: riffs de guitarra poderosos, uma linha vocal bem trabalhada, bateria e orquestrações bem encaixadas e, claro, bastante peso. Se "Precious Jerusalem", faixa de abertura de ANATO causava estranheza, "This will never end" cumpre o papel de apresentar a nova evolução musical do grupo. As excelentes "Otherland" e "Turn the page" só reafirmam essa impressão, mostrando que o Blind conseguiu novamente combinar toda a orquestração e atmosfera presente em seus últimos trabalhos com a agressividade contida nos primeiros.
O álbum segue com a contestada "Fly", primeiro single, que desagradou aos mais xiitas tanto por seus flertes eletrônicos quanto pela letra, inspirada em Peter Pan (o que é estranho, já que o personagem fora mencionado anteriormente em "Born in a mourning hall", faixa do "Imaginations from the other side"). Apesar de "Fly" não ser uma boa amostra do álbum, pra mim é um dos destaques do CD. Assim como "Carrying the blessed home", uma quase balada daquelas cujo refrão vai abalar estádios e casas de show ao redor do mundo. O álbum segue com "Another stranger me", música de trabalho, cujo clipe pode ser encontrado facilmente no Youtube e é recheada de influências modernas e advindas do hard rock. Outra faixa indispensável e um dos destaques do álbum.
A essa altura, já não há muito como variar o discurso. Daqui pra frente não há muitas surpresas. "Straight through the mirror", "The edge" e "The new order" trazem uma sonoridade um tanto quanto mais moderna, sem deixar de abusar do peso."Lionheart" tem um clima que remete muito aos tons épicos presentes em ANATO."Skalds and shadows" é a clássica balada folk-celta pra ser cantada em coro, verso a verso, junto com a banda. Lembra bastante "Harvest of sorrow", single de ANATO e a preferida dos fãs "The bards song - in the forest". Finalmente, "Dead sound of misery" e uma versão mais pesada de "Fly", com letras e arranjos um pouco diferentes, fecham o álbum com chave de ouro.
Individualmente, não há muito o que se falar. O novo baterista, Frederik Ehmke, cumpriu bem a tarefa; André Olbrich mostra mais uma vez que continua sendo um dos guitarristas mais injustiçados do metal. Afinal, ele compõe praticamente sozinho quase todo o material do Blind Guardian, fazendo muito mais do que muito dos ditos "guitar heroes" que estão por aí. A diferença é que André joga prefere trabalhar em equipe, e conseqüentemente não obtém tanto destaque. Marcus Siepen é outro guitarrista que aprendi a valorizar cada vez mais. O entrosamento entre André e ele é impressionante, assim como são bem definidos seus papéis na banda: André é o guitarrista principal e o trabalho de Marcus é ajudar a criar riffs que façam com que a guitarra do primeiro se sobressaia. E Marcus faz isso com maestria. É meio que uma relação entre cavaleiro-escudeiro que funciona à perfeição. Finalmente, Hansi Kürsch é um dos melhores - senão o melhor - vocalistas de sua geração e prova isso a cada trabalho. Os músicos convidados Oliver Holzwarth (baixo, que acompanha a banda desde 1998) e Martin G. Meyer e Pat Benzer (teclados) cumprem bem seu papel.
A versão nacional de A twist in a myth traz ainda uma entrevista com a banda, falando sobre os novos rumos do grupo. Particularmente, eu descartaria a entrevista em prol do vídeo de "Another stranger me" ou mesmo por "All the kings horses" e "market place", faixas-bônus lançadas no Japão. Mas nada que desvalorize o álbum.
Com uma produção impecável, da capa até a última nota, A twist in the myth é, sem sombras de dúvidas, um dos melhores álbuns do ano. Só não leva a medalha de ouro devido ao estrago que o novo trabalho de uma "certa" Donzela de Ferro vem causando.
Savage Circus - Dreamland manor
Em abril de 2005, depois de vinte anos dedicando seus serviços ao Blind Guardian, o baterista Thomas "Thomen" Stauch decidiu deixar a banda que ajudara a fundar, insatisfeito pelos rumos que o grupo estava tomando. Depois de toda a elaboração presente em A night at the opera, Thomas queria fazer algo mais direto, um power metal sem tanta elaboração. Sem encontrar eco para suas opiniões dentro do Blind Guardian, ele decidiu encerrar sua rica história por lá.
Sabendo exatamente o que queria, Thomas recrutou para seu projeto o guitarrista e produtor Piet Sielck, líder do Iron Savior, e com quem já havia trabalhado mais de uma vez na época do Blind Guardian. Através de Piet, ele entrou em contato com o guitarrista Emil Norberg e o vocalista Jens Carlsson, ambos da banda sueca Persuader. Coincidentemente, ou não, a voz de Jens lembra muito uma versão mais "suja" e crua de Hansi Kürsch, mais ou menos como o vocal do alemão soava nos primeiros álbuns do Blind Guardian.
Com a banda recrutada - Piet também gravou o baixo -, o Savage Circus entrou em estúdio e lançou seu début, Dreamland in manor antes do novo trabalho do Blind Guardian. E o álbum tem tudo para agradar aos fãs de heavy metal, já que traz pura e simplesmente um power metal muito bem feito. Amparado pelos mais de vinte anos de experiência de Thomas e a competência de Piet, aliado à vontade de Emil e Jens, Dreamland in manor é um álbum que transborda energia. A faixa de abertura "Evil eyes" é um belo cartão de visitas e dá uma idéia geral de como será o álbum que, em seu todo, é bastante homogêneo. Linhas vocais interessantes e energéticas, refrões grudentos - os de "Evil eyes" e "Tomorrowland" são daqueles de abalar estádios - riffs e solos de guitarra bem encaixados, teclados aqui e ali ajudando na criação de climas e, claro, a bateria sempre precisa de Thomen.
E apesar do Savage Circus ser uma iniciativa de Thomen, o álbum não deprecia os outros instrumentos em detrimento da bateria. Dreamland in manor é bastante homogêneo, a ponto de ser difícil eleger destaques isolados no álbum. Se tivesse que escolher, no entanto, eu ficaria com as supracitadas "Evil eyes", "Tomorrowland" e ainda "Waltz of the demon", "Ghost story" e a balada "Beyond reality".
No frigir dos ovos, Dreamland in manor não traz nenhuma novidade e chega até a repetir fórmulas consagradas pelo próprio Blind Guardian há anos. No entanto, isso não é um demérito e o álbum consegue ser muito superior a muitos outros lançados por aí. A versão nacional do álbum ainda traz um clipe para a faixa de abertura, "Evil eyes".
After Forever - Remagine
Desde que Mark Jansen saiu da banda para fundar o Epica, o After Forever tem mudado seu foco musical. Toda a pomba das orquestrações, corais em latim e outros elementos góticos que permearam seus primeiros álbuns, quando Mark era o principal compositor do grupo, estão sendo aos poucos, deixados de lado. O EP Exordium e o álbum Invisibe circles já apontavam para essa tendência, que se consolida no mais novo trabalho da banda Remagine, que apesar de ter sido lançado lá fora ano passado, só chegou recentemente ao Brasil.
Não que o After Forever esteja negando seu passado. A banda está apenas buscando novos rumos, fazendo um som mais direto e mais ligado ao heavy metal tradicional. E o que o sexteto formado por Floor Jansen (vocais), Sander Gommans e Bas Maas (guitarras/vocais), Luuk Van Gerven (baixo), Andre Borgman (bateria) e Joost Van Der Broek (teclados) faz neste trabalho é apenas mais uma confirmação disso. Os corais e orquestrações vistos em álbuns anteriores ainda estão lá, mas não de maneira tão onipresente. Algumas músicas, como "Come", "Living shields" e "Face your demons" são bem pesadas, bem voltadas para o heavy metal; outras, como "Boundaries are open" trazem bons duos de guitarra/teclado, enquanto que "Strong" é a balada emocional que acompanha os trabalhos do After Forever desde "Intrinsic", presente em seu segundo álbum, Deceit.
Com o risco de chover no molhado, individualmente há de se destacar o trabalho vocal de Floor Jansen, que varia de tons mais altos a mais baixos, do vocal lírico ao mais comum de maneira bastante fluida, natural. Assim como interage de maneira primorosa com os tons mais guturais de Sander e Bas, o que mostra o nível de entrosamento encontrado pelo trio.
Apesar da demora Remagine vai agradar bastante aos fãs do After Forever, que terão a oportunidade de ver a banda tocando no Brasil nos dias 12, 14 e 15 de outubro, respectivamente em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Belo aquecimento!
Edguy - Rocket ride
Apesar de virem construindo uma bela carreira, os alemães do Edguy estão longe de serem uma unanimidade no mundo do heavy metal. Isso se dá principalmente pela atitude da banda, especialmente em seus vídeos e shows. O Edguy aparentemente não se leva muito a sério, no sentido de que são um quinteto jovem que se diverte fazendo música. Quem vê os clipes da banda ou os vê em cima do palco sabe bem o que digo. Eles estão sempre fazendo palhaçadas, agitando, brincando entre si ou com o público, algo completamente condenável para muito headbanger cabeça fechada. Em muitos momentos, o Edguy lembra muito mais uma banda de glam rock do que um grupo de heavy metal.
Por outro lado, é inegável a competência da banda, principalmente de seu líder, o vocalista Tobias Sammet. À frente do Edguy desde o começo, Tobias sabe como poucos mesclar o power metal que consagrou a banda com elementos do rock dos anos oitenta, especialmente o praticado por grupos como Mötley Crue e Twisted Sister.
Seu novo álbum, Rocket ride, o Edguy mostra de tudo um pouco. "Sacrifice" é a faixa de abertura e, no alto de seus oito minutos, traz o tipo de música que se pode esperar do grupo, parecendo quase uma sobra de estúdio descartada de seu último álbum, o excelente Hellfire club. "Wasted time" e "Return to the tribe" são talvez as maiores representantes do power metal praticado pela banda. O resto do álbum apresenta de tudo um pouco. Flertes descarados com o hard rock estão presentes em "Rocket ride", "Superheroes", "Out of vogue" e "Asylum"; teclados mais "modernos" podem ser notados em "Matrix" e até mesmo uma referência a ritmos latinos pode ser encontrada em "Trinidad". "Save me" é a indefectível balada presente em praticamente todos os álbuns da banda, uma música com uma roupagem bastante comercial mas, nem por isso, pior do que as demais. Já "Catch of the century" tem um final divertidíssimo, que mostra toda a aura de "palhaços do heavy metal" carregada pela banda.
Uma coisa que o Edguy faz como poucos, provavelmente uma herança da influência não só das bandas de hard rock dos anos 80, como também de grupos como Iron Maiden e Helloween é a atenção que dá aos refrões de suas composições. Em sua maioria são daqueles "grudentos" e empolgantes, capazes de grudar na sua cabeça logo na primeira audição.
Uma prova da competência do Edguy, uma banda que se preocupa mais em fazer uma música que agrade aos seus próprios componentes e não apenas aquilo que os fãs e mídia espera deles, a versão nacional de Rocket ride traz como faixa bônus a música "Land of the miracle", gravada em São Paulo em 2004.
A exemplo da última turnê, o Edguy também passa pelo Brasil em 2006. Até o fechamento dessa coluna, as datas confirmadas eram: 03/11 (São Paulo), 04/11(Rio de Janeiro), 05/11 (Curitiba) e 07/11 (Porto Alegre).
Place Vendome - Place Vendome
O primeiro (e provavelmente único) álbum do Place Vendome não é assim tão novo. Foi lançado no fim do ano passado, mas só agora tive tempo para sentar e escrever sobre um dos melhores álbuns de rock lançados recentemente.
Antes de mais nada, um pouco de história: o Place Vendome não é uma banda "de verdade", mas sim um projeto que reúne Dennis Ward (baixo), Uwe Reitnauwer (guitarra), Kosta Zafiriou (bateria) - todos membros do Pink Cream 69, banda de hard rock alemã - Günter Werno (tecladista da banda de rock progressivo Vandenplas) e o vocalista Michael Kiske, que fez história na música durante o período em que esteve à frente do Helloween.
O resultado dessa união é, como eu disse acima, um dos melhores álbuns de rock dos últimos tempos. Place Vendome, nome tirado de uma famosa praça francesa, tem tudo para agradar em cheio aos apreciadores de um bom hard rock. Desde a primeira faixa, "Cross the line", até a última "Sign of the times", o álbum mantém uma qualidade impressionante, lá no alto. É daqueles CDs que até apodrece de tanto rodar no seu aparelho de som. São dez faixas contagiantes, que trazem todos os elementos que fazem um bom álbum de rock: melodias "pegajosas", refrões "grudentos", uma boa dose de peso, algumas baladas e, claro, um pezinho aqui no pop e outro lá no rock pesado.
Muita gente pode até dizer que projetos como esse não passam de caça-níqueis - e muitas vezes são mesmo. Mas no caso do Place Vendome, o álbum deve vai agradar em cheio qualquer um que goste de um hard rock de primeira qualidade. Fãs de bandas como Europe, Journey e Whitesnake podem ter certeza de que este é um item indispensável em suas coleções.
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