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Planeta Terra 2010

Entre indies, gays e sisudos, festival continua como o irmão gente boa

Eduardo Viveiros
25 de Novembro de 2010

Empire of The Sun
Empire of The Sun
Of Montreal
Of Montreal
Mika
Mika
Passion Pit
Passion Pit
Hot Chip
Hot Chip
Phoenix
Phoenix
Girl Talk
Girl Talk
Pavement
Pavement
Smashing Pumpkins
Smashing Pumpkins

Good vibrations! Novamente ocupando o labirinto de brinquedos que é o Playcenter, em São Paulo, o Planeta Terra confirmou sua posição de festival mais gente boa do país. Entre pequenos eventos e concorrentes gigantistas (ou seja, o SWU), este só leva vantagens. Localização central, boa infra-estrutura, pontualidade, organização e nível quase zero de confusão. Dá gosto.

A escalação de bandas, é claro, também ajuda. Na concorrência, "perdeu" grandes headliners para o semiWoodstock de Itu. Assim, assumiu de vez sua verve indie de bandas que não carregam a balbúrdia de um público monstruoso. Aqui, acaba valendo mais o hype do que a tradição, dividido entre os dois palcos concorrentes.

Mesmo sem um line-up épico (em comparação com a dobradinha Iggy Pop + Sonic Youth de 2009, por exemplo) o Terra aposta nas bandas que fazem a festa da imprensa moderninha no exterior. E cai em conclusões divertidas, como "o festival que reúne o maior número de vocalistas que curtem um falsete".

Duvida? Faça a lista: Mika, Kevin Barnes (Of Montreal), Thomas Mars (Phoenix), Luke Steele (Empire of The Sun), Chris Keating (Yeasayer), Michael Angelakos (Passion Pit), Joe Goddard (Hot Chip) os brasileiros do Holger e Novos Paulistas e até Stephen Malkmus (Pavement). Ou seja, dez das quinze bandas escaladas. Diz muito sobre o momento atual do rock e afins, tão distante da macheza desafiadora de voz grossa de antigamente.

Purpurina

Não de graça, o Terra reuniu três ícones do pop flamboyant de hoje. Um bem-vindo alívio gay friendly para a homofobia que paira sobre a cidade nestas últimas semanas. No palco menor, a dupla australiana Empire of The Sun investiu em figurinos exóticos, com plumas e cocares, coerentes com seu pop oitentista.

No palco principal, não diferente, Kevin Barnes liderou a trupe (quase circense) do Of Montreal vestindo saia de tutu sobre meia-calça roxa. Assistir à performance do vocalista é entender o porquê de ele ter tomado um pé na bunda da namorada de Montreal (história que, diz a lenda, batizou o grupo). Barnes é exagerado, indefinido, over, hiperativo. Mas como ele mesmo disparou, em determinado momento, a um fã mal humorado do Smashing Pumpkins que estava na grade: "não me julgue!".

Seu figurino é mero detalhe perto da apresentação funkeada e ultrapop, inserida entre viradas de bateria de banda indie e dançarinos performáticos metidos em colantes purpurinados e máscaras de porcos, caveiras e peixes surreais, fazendo um teatrinho feito mutantes pós-apocalípticos. A nova "Black Lion Massacre" abriu o set, que deu preferência à porção mais animada do último disco, False Priest ("Coquet Coquette", "Sex Karma", "Our Riotous Defects") e boas músicas pinçadas dos outros discos da banda ("Suffer for Fashion", "The Party's Crashing Us").

Logo na sequência e, pode-se dizer, mais discreto, Mika tomou o palco para um show mais consistente, baseado nos seus dois discos (Life in Cartoon Motion e The Boy Who Knew Too Much). Apesar do escorregão do playback descarado no começo (em "Relax, Take It Easy"), que se repetiria em outras faixas, o libanês radicado em Londres é do tipo que conquista pelo charme.

Mistura Broadway com Elton John, Freddie Mercury com Maria Callas, Madonna com Fred Astaire e mergulha no pop descarado e sexualidade, sob as flores que cobrem seu piano. Mas não é só fórmula, veja bem. Acompanhado de uma bela banda, Mika se vale mesmo, além dos trejeitos bailarinos, é da sua garganta profunda. Aí vai da épica "Billy Brown" ao hino "We Are Golden", da sem disfarces "Lollipop" ao coro de "Big Girl (You Are Beautiful)", alcançando agudos impressionantes e com confiança de showman.

Moderninhos

No chamado "palco indie", espremido ao lado do Castelo dos Horrores, Passion Pit e Hot Chip seguraram a onda do público do pop eletrônico moderno. A última, inclusive, ganhou justiça em São Paulo: voltou com um belo disco nas mãos (One Life Stand, lançado este ano) e apagou as lembranças da passagem prejudicada no Tim Festival de 2007.

Enquanto isso, no palco principal, a francesa Phoenix também voltava ao país (passaram por aqui no Nokia Trends de 2007) para provar o valor do hit maciço "Lisztomania" (de Wolfgang Amadeus Phoenix, lançado no ano passado). Como de costume, o grupo de Thomas Mars abriu o show com a música. E deu com os burros n'água. Uma água rasa, mas ainda assim.

O instrumental potente e grudento de "Lisztomania" acabou chapado pelo volume repentinamente baixo do palco, diminuindo o potencial da histeria coletiva. Nada que diminua a empolgação dos fãs, mas foi uma ficha preciosa queimada.

O Phoenix de hoje é bem diferente do de três anos atrás. Famosos e calejados, aparecem mais seguros de si, no seu papel de banda pop francesa. Aí podem atacar tanto com os bons hits, como "1901", "Lasso" e "Run run run", quanto com a viagem instrumental "Love Like a Sunset" - quando Mars passou o tempo deitado no chão do palco, cabeça no amplificador, observando a banda.

Mas apesar da boa fase, talvez por estarem no fim de turnê, talvez por serem franceses mesmo, o Phoenix caiu no show irregular. Nem o "crowd surfing" de Mars, no final da apresentação, colaborou. Uma pena que o Daft Punk, que virou assunto de um imenso telefone sem fio nos dias anteriores ao festival, não apareceu de verdade para ajudar a esquentar.

De volta aos anos 1990

O encerramento, à parte a bagunça provocada pelo mashupeiro Girl Talk, ficou na tensão entre os "velhos inimigos" Pavement e Billy Corgan, que encerraram o palco principal.

A rixa é velha, desde que a primeira citou os Smashing Pumpkins na letra de "Range Life". E lá se vão 15 anos de reações exageradas por parte de Corgan, que voltou à carga via Twitter pouco antes da viagem ao Brasil.

O que se viu no ringue foi uma banda blasé versus um roqueiro obsessivo por mostrar trabalho. Quem ganha?

Reunidos depois de uma década, o Pavement se apresentou para um público compacto de fãs. Apesar de ser nome clássico do indie dos anos noventa, o quinteto não é das bandas mais conhecidas por aqui. No palco, entre concentrados e burocráticos, os americanos não parecem ter superado as divergências que levaram à separação.

Quietos e focados, levaram a sério a turnê baseada na coletânea Quarantine The Past, lançada este ano. A partir de "Gold Soundz", que abre o disco e abriu o show, foram 22 músicas pinçadas entre os grandes hits dos cinco discos da banda. Alguns dos seus hinos apareceram - "Cut Your Hair", "Spit On a Stranger", "Stereo", "Date with Ikea" - enquanto Stephen Malkmus dividia os vocais com Scott Kannberg e os gritos do percussionista-macho-alfa Bob Nastanovich.

O charme do Pavement, com suas músicas dissonantes e levemente erradas, continua vivo no palco e ainda atual. Mesmo que Malkmus, que foi o responsável pela debandada há 10 anos, se mantenha visivelmente distante dos companheiros.

No caso dos Smashing Pumpkins, a história de certa forma se inverte. O charme também está lá, da banda melancólica e agressiva liderada por um Billy Corgan com cara de enfezado. Ele também se mantém distante da sua banda (que não carrega mais ninguém das formações originais), mas como um líder espiritual.

Dá para perceber que, dependesse da sua vontade, Corgan tocaria todos os instrumentos ao mesmo tempo, para mostrar como as músicas deveriam soar de verdade. Não parece perceber (ou pelo menos não demonstra) que tem uma baixista cativante (Nicole Fiorentino) e um belo baterista (Mike Byrne, ironicamente nascido quando a banda começava a fazer sucesso).

Apesar do esforço e da vontade de se provar ainda como nome relevante no cenário do rock, os Pumpkins não conseguem se desligar da imagem de banda noventista. Nada de errado, não fosse a encanação do seu líder de que isso é uma coisa ruim.

Por isso ele sua para provar o valor das músicas novas (e nem tão brilhantes), como "The Fellowship" e "Astral planes", que passearam pelo set, entre solos instrumentais e citações ao hino norte-americano em "United States". Alívio fica para as clássicas - tipo "Ava Adore", "Tonight, Tonight", "Cherub Rock" -, que é o que o povo quer ouvir. Corgan deveria ouvir mais o povo - e não só o fã hardcore, que ainda usa aquela surrada camiseta com o "zero" estampado.


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Comentários (11)

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sem avatar Katia (05/12/2010 04:12:54)   0 0
Ah concordo com o James sobre o Pumpkins, também vivenciei essa época, assino embaixo do seu comentário.



sem avatar Katia (05/12/2010 03:01:42)   0 0
Apenas querendo deixar um comentário sobre o show do MIKA, na minha opinião o melhor show do Festival, ele não fez e não faz playback em seus shows. Eu estava na frente do palco e em nenhum momento foi utilizado esse recurso. Talvez o que tenha causado essa impressão seja assistir alguns videos na net onde não se percebe o incrível alcance vocal desse artista, não vejo outra explicação, quem estava lá não teve dúvidas.



James James (27/11/2010 01:19:01)   114 0
Hum... Vou tomar pedrada. Ok, prefiro os Pumpkins da década de 90 ao Radiohead do mesmo período (embora goste e seja também fã). Até aí tudo bem, se incorremos no tal "gosto não se discute". Acontece q há exatos 15 anos atrás, enquanto os ingleses lançavam seu The Bends, os Pumpkins "conquistavam o mundo" com Mellon Collie...Pois não é q se tratou de criar uma polaridade entre ambas as bandas!Pior, de uma hora para outra o chato, meticuloso e narcisista líder do Pumpkins virou exemplo de frontliner fracassado e compositor idem. Enquanto isso, o pessoal de Oxford se tornou, provavelmente desde os Beatles, a banda mais incensada, babada e livre de preconceitos. Hum... o Rock, e suas variantes, é muito esquisito.



sem avatar Miller (26/11/2010 12:26:32)   1 0
Gabriel
Pumpkins também foi a banda da minha adolescência, mas curti a atitude do Billy em fazer algo que não se esperava. Com certeza, faltou To Sheila, 1979, Rocket, Disarm, Porcelina, etc.etc. e esperar mais de 10 anos pra ver o cara aqui de novo sem levar esses sons é foda. Apesar do batera que é virtuoso, ainda é estranho não ver o Jimmy lá. O Pavement fez o mais fácil, tava na cara que eles estavam lá por grana. No fim, o Billy foi mais Billy do que nunca



sem avatar Miller (26/11/2010 12:12:24)   1 0
Blz Mateus
vamos ver até onde essa banda vai chegar
abraço



Jim Jim (26/11/2010 01:01:14)   35 0
É Eduardo, infelizmente nem todos são fãs hardcore do Pumpkins, mas pelo menos você teve a fineza de não achincalhar a banda. O fato é que o Pumpkins continua sendo tão bom quanto há 20 anos atrás, mesmo que hoje da formação original só reste Billy, ele sempre foi a alma e o coração do SP. A diferença é que a mídia já não dá aos Pumpkins o mesmo espaço, a mesma importância. Eu que me considero um grande fã não pude ir no show, mas ao menos deu pra vê-lo ao vivo na internet, o que é melhor do que nada. Quanto ao festival, é uma pena que Terra, o provedor de internet, seja o responsável por um dos melhores festivais do país. (Quem entendeu, entendeu).



Mateus Mateus (25/11/2010 22:51:43)   -1 0
Miller

se for assim o Empire of The Sun leva vantagem em atitude ao quebrar a guitarra no chão, tocar ela no palco e depois jogar pedaço e pular junto na galera...



sem avatar Márcio (25/11/2010 17:38:03)   0 0
Esse é o texto mais GAY que já li aqui no site do omelete!
Ui, ui, ui..."hype", "gay friendly" e etc...rsrsrsrsrs....



sem avatar Miller (25/11/2010 14:14:18)   1 0
O Billy mostrou pra esse monte de banda hypada o que é um show de ROCK´N ROLL!!
foi corajoso em tocar músicas novas e deixar de fora pérolas como "Disarm", "1979", "To Sheila", emendou uma porradaça do Led (Moby Dick), solou com a boca,pisou na guitarra, tirou ruídos e barulhos com raiva, com cara de invocado... até esboçou um solo "costas com costas" ao lado do clone do Iha... tava lá, tudo que o rock representou... Ressuscitou os anos 90 sem deixar de lado o novo... Os SP nunca mais serão como eram, apesar dos ótimos músicos e da baixista gatíssima, mas valeu pelo esforço do Billy:)



sem avatar Gabriel (25/11/2010 14:12:22)   1 0
Curti bastante pela estrutura mesmo. Das bandas (das que vi) só gostei do show do Pavement, que passou longe do burocrático. Sim, o Malkmus tava um pouco esnobe, mas mesmo ele se empolgou e pareceu se divertir, mesmo que sozinho. E poxa, ele não canta nada em falsete, ele desafina de brincadeira.
Achei meio triste o público esvasiar no Pavement e lotar em uma banda tão sub quanto o Phoenix... Todas as músicas parecem sobra de estúdio do Strokes, com bateria mais pobre e "fácil".
Pumpkins foi a decepção da noite. Aquilo era a carreira solo do Billy Corgan, SP era outra banda. A banda foi trilha da minha adolescência, e saí derrotado.



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Mateus Mateus (25/11/2010 13:27:04)   -1 0
Foi um otimo festival de incrivelmente 15 bons shows! otimo line-up escolhido com publico muito semelhante, vi pouquissimas pessoas bebadas ou usando droga (e me sinto muito velho e chato por achar isso um fator bom em um festival) e a infra estrutura muito boa tambem...

acho que o playcenter podia começar a ser usado APENAS para esses eventos!

senti falta apenas da critica dos shows nacionais... o show do Republica(que eu nao conhecia) foi otimo!




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