Um dia perfeito. Ou seria uma noite perfeita? Fato é que se alguem pedisse uma descrição de uma noite perfeita, ela seria bastante parecida com a do dia 6 de junho de 2008 - menos fria talvez, mas os 10 graus acompanhados por uma chuva fininha que insistia em aparecer ajudava a confirmar que sim, era tudo real: Dublin, um castelo medieval à direita, um arco-íris - duplo! - à esquerda e no centro de todo esse espetáculo a banda mais importante surgida na década de 1990. Quiçá a mais respeitada da atualidade. Quem? O Radiohead. Ou como dizem por aqui, "the fucking Radiohead, mates".
Ovacionados pelo público (mas eles ainda nem apareceram direito no palco!) o Radiohead dá início ao show no Malahide Castle - 30 minutos da capital irlandesa, de trem - com "All I Need", faixa do álbum mais recente da banda, In Rainbows (cogitamos se o arco-íris duplo era um efeito especial planejado pela banda, mas concluimos que não. O Radiohead não é dado a essas coisas. O que se mostra no palco, definitivamente, é o que importa). A música, que serve de trilha sonora para a campanha da MTV contra o tráfico humano, seria uma das lentas tocadas na noite, até porque o ânimo de Thom Yorke e a entrega dos músicos no palco deram ao show uma pegada bem mais enérgica do que poderíamos esperar das faixas do Radiohead.
Na seqüência, instrumentos de percussão são colocados à frente do palco e é chegada a hora de Jonny Greenwood e Ed O Brien trocarem as guitarras pelos batuques em "There, There", faixa de Hail to the Thief. Daí em diante, o setlist passearia por toda a discografia do Radiohead, priorizando, claro, In Rainbows. Mas se todos os álbums estao ali, isso não quer dizer todos os hits. Esqueca "Creep", esqueca "High and Dry". Estamos na Irlanda, e o amigo ao nosso lado foi a seu primeiro show do Radiohead quando tinha 15 anos. Hoje ele tem 27. Aqui, "Creep" já não faz mais sentido. Ótimo! Assim temos uma banda à vontade no palco e um show ainda mais visceral, apresentado sem a necessidade dos músicos de cumprir obrigacões.
Sim, mas e Thom Yorke? Ele não é, afinal, e o que costumamos chamar de showman É quase como se fosse um popstar por acidente. Não fala muito com o público, mas dança o tempo todo e se entrega totalmente ao que faz. Visualmente lembra uma criança mimada, hiperativa, dançando desajeitadamente, sem se preocupar em agradar. O resultado? Identificação. A persona? Ilustremos: Em dado momento, num lance simples, mas estratégico, senta-se ao piano e interpreta "You and Whose Army?" olhando para uma câmera. As imagens são transmitidas pelos telões e somos brindados com um Thom Yorke tamanho gigante careteando, olhando com doçura para nós, cantando gentilmente, para que nada, nada seja excessivo. Carisma. Não daqueles que de cara atraem todas as atenções, mas daqueles que depois que você experimenta não pode viver sem. Ele merece. Merece cada um dos aplausos que ganha a cada - rara - palavra que emite.
As músicas do novo álbum ganham bastante força ao vivo, e todas, sem exceção, são extremamente bem encorpadas, resultado da união do rock mais simples que há com elementos de música clássica, inovações sonoras, e vale dizer mais uma vez: entrega.
O show do Malahide Castle ganhou dois bis com "My Iron Lung" e "Paranoid Android" entre as faixas escolhidas para fechar a noite perfeita. Ou seria o dia? Ninguém sabe. Como perguntou Thom Yorke, "quer dizer que nunca mais escurece em Dublin?". O povo grita, mas ninguém sabe ao certo. São 11 horas da noite, e acredite: o Sol acabou de se pôr.
Danem-se as convenções: Noite ou dia, foi perfeito.
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