É de se admirar a ousadia de colocar pandeiro, cavaquinho e surdo em "Satisfaction", do Rolling Stones e "Rock'n'Roll", do Led Zeppelin. Os arranjos que o Sambô construiu para alguns clássicos do rock parecem um sacrilégio à primeira vista. No entanto, a combinação de instrumentos como triângulo, guitarra e bandolim e a competência dos músicos que compõem o grupo fazem com que as versões se tornem uma agradável surpresa.
No último domingo, em São Paulo, a banda formada em Ribeirão Preto apresentou o repertório que estará no seu próximo DVD - gravado dias antes, também na capital paulista. A mistura de ritmos atraiu cerca de sete mil pessoas que lotaram o Credicard Hall e cantaram junto todas as músicas, desde samba "O Que é o Que é", de Gonzaguinha, até "Sunday Bloody Sunday", hino do rock criado pelo U2.
De todos os covers internacionais que a banda faz, poucos encaixam tão bem como "Mercedes-Benz" (Janis Joplin), "This Love" (Maroon 5) e "Rock'n'Roll", do Zeppellin. Além do arranjo caprichado, os vocais de Daniel San encaixam perfeitamente na mistura de rock e samba que o grupo tenta emplacar. Dentro do próprio samba, o grupo ainda varia e dá a "Smells Like Teen Spirit" (Nirvana) um toque do candomblê, lembrando o ritmo de clássicos como "Festa de Umbanda", de Martinho da Vila, ou "Morena de Angola", de Clara Nunes.
A coragem de mexer em tantos hits vem do simples talento instrumental que o grupo tem. Isso fica ainda mais claro com o passar do repertório e a chegada das músicas nacionais. A inventividade do Sambô continua em "Rock das Aranhas" e "Aluga-se", de Raul Seixas, que se encaixam tão bem com o tantã e pandeiro, que parecem ter sido compostas pelo Maluco Beleza com o intuito de serem tocadas em uma roda de samba. Outras modificações que merecem destaque são as realizadas em "Dívida" e "A Feira", do Rappa - estas duas bem comandadas nos vocais por Júlio Feijuca.
Se no primeiro contato o Sambô pode parecer uma afronta a lendas da música, a segunda vez pode ser, para aqueles com desprovidos de preconceito, uma suave entrada no mundo do samba. Ao usar dos tradicionais instrumentos deste ritmo originalmente brasileiro, estes paulistanos divertem e, com uma combinação de talento e ousadia, fazem alguns roqueiros tentar os primeiros requebrados.
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