Depois de acompanhar por anos a carreira cinematográfica de Juliette Lewis, ver a atriz entrar no palco como cantora dá um gosto de déjà-vu. É como uma cena final de um filme, quando a banda da personagem principal faz seu show redentor, durante os créditos.
Talvez seja aquele da menina de Oklahoma que pena toda a vida para conquistar seu sonho como diva roqueira. Ou aquele da apresentadora infantil que vê seu público minguar e resolve mudar de foco. Ou o da cantora de coral que foi internada em uma clínica psiquiátrica e montou uma banda com seus colegas de cela acolchoada. Não importa muito, o que vale é o resultado antes do fade out com o logotipo do estúdio.
De couro e pena colorida na cabeça, aqui Juliette faz o papel de frontwoman apache-fetichista da sua The Licks. Todos músicos rapazes, como manda o figurino do clichê sexualista. No palco, segue a escola de interpretação de Iggy Pop - se joga e rola no chão, se debate, tenta estraçalhar o microfone no tablado, faz caretas, toda aquela coisa que a gente já conhece (mas com o detalhe do sapato de salto alto, que permanece intacto durante todo o tempo).
A música também não foge muito do que já passou por aí nessas últimas décadas de guitarras no amplificador. É punk certinho, com pitadas de refrões grudentos e um bocadinho de revolta de liquidifcador.
Mas não que isso seja chato, pelo contrário. Dá pra ver uma boa porção de sinceridade na cara da atriz-agora-cantora e perceber que ela não está fazendo aquilo só pra capitalizar em cima de Mallory Knox, sua personagem em Assassinos por natureza. Ela tem consciência de que, se fosse uma anônima qualquer no seu lugar, a banda dificilmente ganharia todo esse hype.
Então Juliette se esforça no seu papel de centro das atenções, para dar peso e caldo às canções, berrar o quanto pode e exibir todo o seu corpinho de mulher carnuda, mesmo que sem uma barriguinha (sempre estrategicamente escondida) sarada. O resultado é uma apresentação divertida, também pelo esforço da competente banda de apoio.
No final, ainda tenta se jogar na platéia e é prontamente impedida pela meia dúzia de seguranças que agarra suas pernas. Quem manda ser estrela de Hollywood? Assim não dá pra brincar.
Como todo roteiro repetitivo de roqueiros, Juliette se rasga em elogios ao Brasil, enrolada na bandeira, promete um retorno em 2008 e jura que, quando estava montando a banda, um de seus grandes objetivos era vir para o país. A gente acredita, né? Não custa, afinal ela é bonita e dedicada.
A atuação canastrona continou em pauta durante o show dos Killers, na seqüência. A banda de Las Vegas dominou a pauta como "estrelinhas pentelhas" do festival: proibiu qualquer tipo de foto por parte dos jornalistas e ainda gastou um bom tempo montando seu cenário de videoclipe, com direito a neon e tudo.
Tudo dentro do contexto do grupo, que entrou no palco de semifraque para gastar todos os seus cartuchos de banda de arena wannabe. E eles seguem o script à risca. Estão ali o vocalista showman (que lembra até Freddie Mercury, se visto de longe), o baterista empolgado, o guitarrista posudo e o baixista blasé. Tudo para levar os fãs na base das músicas cuidadosamente grandiosas. Há quem goste.
O show é competente, é preciso admitir, apesar dos exageros kitsch. Mesmo atrás de seu teclado decorado feito árvore de natal, Brandon Flowers impressiona na execução dos hits dos dois discos da banda. Já em "Bones", no comecinho, o coral estava garantido. Ópera crua, show para fãs. No quesito diversão gratuita, Juliette leva a melhor.
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