Terceiro mundo em chamas: dá pra
resumir assim o combo Gogol Bordello, que finalmente se apresentou
no Tim Festival - depois de anos sendo quase-confirmado nos bastidores.
A banda foi o ponto alto da sexta-feira, batizada de "festa",
que trouxe nomes da música eletrônica como Junior Boys e
DJ Yoda.
A esbórnia começou com Dean
Decon, simpático produtor gordinho de Baltimore. Deacon é do tipo
que dispensa o palco e prefere se apresentar no meio do público. A
interação, para ele, é 90% do show - tanto que fez miséria com quem
estava por lá, conseguiu sobreviver ao som altíssimo e entrou na sua
viagem. Ao longo das suas faixas, o músico conclamou a platéia a gritar,
armou um concurso de dança e, no final, já tinha feito um imenso corredor
de quadrilha de festa junina na tenda do festival.
Mas, em termos de performance, o
Gogol Bordello goleou Deacon - e com louvor de causa.
Liderada pelo ucraniano bigodudo
Eugene Hütz, a banda é uma seleção de músicos da periferia
mundial: russos, etíopes, equatorianos, israelenses... Todos tão pirados
quanto o vocalista, um Borat mais sacana do que bobo, que é
figurinha fácil em filmes independentes e foi alçado ao posto de "performer
do ano" pela Madonna.
A música do Gogol é uma releitura
de sons folclóricos, com pés nos ciganos e nas canções típicas
e animadas do leste europeu. Lembra a brasileira Karnak e os
shows da No Smoking Orchestra, banda do cineasta sérvio Emir
Kusturica. Difícil é imaginar a platéia que se reunia ali, louca
pelos gritos de Hütz, no show de uma dessas bandas.
O mérito maior dos Bordello é esse:
mostrar que há vida (e boa música) para além da ponte Londres-Nova
York. Daí se pode perdoar que o gipsy punk da banda seja meio pastichento,
cheio de clichês ou até meio cansativo. O que vale é a performance
e a festa que causa na audiência.
Super taranta! e Gypsy
Punks: Underdog World Strike, os dois últimos discos da banda,
formaram o setlist do show, com clássicos da banda - como "Ultimate",
que abriu, "60 revolutions" e "Think locally, fuck globally".
Hütz não é o único astro do palco,
dividindo o brilho com o insano violinista Sergey Ryabtsev e
com suas duas dançarinas, que também fazem as vezes de backing vocals
e apareceram usando uniformes do clube Santos adornados com patches
anti-nazistas.
É difícil resumir o que se passa no palco do Gogol. Quando um ucraniano, que formou sua banda em Nova York, sobe num palco em São Paulo e cita "Morena tropicana", hit de Alceu Valença, antes da sua "Start wearing purple"... é confusão de dar nó. Mas é certo que a vida seria melhor se houvesse mais shows assim.
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