0

Três tipos de encanto no palco do Resfest

My Brightest Diamond, Miro Hatori e Akron/Family foram atração do festival


1
My Brightest Diamond
2
Miho Hatori
3
Akron Family

Finalmente a versão brasileira do Resfest, ciclo estadunidense dedicado ao cinema e à arte pop digital, conquistou sua merecida versão adulta. Comemorando os 10 anos do projeto-pai, o festival reuniu sua programação 2007 em um único e sensacional lugar, ocupando a Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

À parte a seqüência de cinema com filmes irregulares, as mesas-redondas ímpares (como a do clássico jornalista Goulart de Andrade) e exposições meio gastas (as imagens da japonesa Fruits estão longe de ser novidade), o grande trunfo do festival foram as suas atrações musicais. Um alívio depois das duas baixas das edições anteriores - Lali Puna e TV on The Radio cancelaram seus shows em 2004 e 2005, respectivamente.

Neste ano, o palco gerou encanto via três nomes diametralmente opostos: a delicadeza de My Brightest Diamond, a simpatia de Mito Hatori e a balbúrdia da Akron/Family.

Primeiro a subir ao palco, na sexta-feira, My Brightest Diamond é codinome da musicista Shara Worden, apadrinhada pelo indie heroe Sufjan Stevens. Miudinha, a moça se apresentou acompanhada de baixista e baterista, e impressionou a platéia pequena com sua voz refinada. Com formação clássica de família e convivência com os amigos do freak folk dos EUA, Shara vai da garganta funda de uma PJ Harvey aos agudos doídos de Kate Bush.

O repertório foi todo calcado no seu primeiro disco, Bring me the workhorse, lançado no ano passado, e covers que explicitaram suas influências - de Nina Simone e Edith Piaf a Led Zeppelin. Suas canções ganham, ao vivo, um vigor que em estúdio fica pelas entrelinhas. Apresentação impecável, da etérea "Disappear" à energia de "Magic rabbit" e a divertida "Freak out".

No sábado, depois de um show extra do MBD (com direito a cover de "Tainted love", do Soft Cell, no meio da sua "Workhorse"), a estrela foi Hatori, ex-vocalista do Cibo Matto, grupo cult dos anos 90. Tão pequena quanto Worden, ela conquistou todo mundo com aquela simpatia peculiar que todo japonês tem. Apaixonada pelo Brasil, Hatori passou todo o tempo tagarelando entre as músicas, explicando faixa a faixa e tentando falar em português - "estou praticando bastante em Nova York", disse antes de emendar um trechinho de "Tempo de amor", de Baden Powell.

Mas foi apresentando as canções do seu álbum solo, Ecdysis, que a japinha mostrou sua eficácia. Dividindo-se entre um laptop, a guitarra, e o microfone, Hatori atuava como maestrina de mão de ferro com seus acompanhantes (um baixista e uma tecladista). Delicadas, as faixas do disco têm muito mais graça no palco. A brasilidade do disco, que tem influências diretas de samba e bossa nova sob a massa sonora, era resolvida no computador, com bases pré-gravadas. Ao final, para fechar sua ode à nossa música com chave de ouro, Hatori teve a coragem de cantar uma versão em japonês para o forró "Paraíba", clássico de Luis Gonzaga, levantando o coro da platéia indie no refrão em português ("Paraíba masculina / Mulher macho, sim senhor").

A festa do último dia ficou por conta da balbúrdia da Akron/Family, em um daqueles shows difíceis de explicar. Começando com "Love and Space", um coro gospel, o quarteto pediu as bênçãos divinas para dar a partida em uma apresentação enérgica, misturando folk com post rock e muita cacofonia bem-humorada.

Sem se preocupar com formalidades, a banda emenda uma canção na outra, transformando tudo em longas sessões de improvisação entre trechos das faixas gravadas em seus álbuns. E faz tudo isso sem parecer gratuitamente cabeçuda. O transe permitia cenas como o guitarrista tocando com um peixinho Nemo de pelúcia como palheta no meio de uma colagem de 40 minutos de barulho.

A bagunça, com participação maciça do público, lembra uma versão menos grandiosa - mas também menos abobada - dos Flaming Lips. Em um momento, conseguiram transformar uma "ola" barulhenta em uma platéia mexendo os braços e imitando o barulho do mar com a boca para "I’ll be on the water". Mais tarde, lotaram o palco com pessoas da platéia, que receberam instrumentos para participar da jam - que acabou logo, com os seguranças expulsando todo mundo, fazendo gestos de que o palco poderia ceder com o peso.

Mas é provável que o culto dos Akron não acabaria nem com o palco caindo. No final, tudo já tinha se transformado em um bailão soul, com metade do quarteto no meio da platéia improvisando uma dança à la YMCA e um coro ("Circle, triangle, square / Yeah yeah yeah"). Parecia que, se dependesse deles, continuariam tocando até agora. E ninguém reclamaria.


Compartilhar

Comentários (0)

O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.

Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.