Cachoeirinha, RS
O fabuloso destino de Amélie Poulain
Valdeci (01/07/2011 19:44:08)
Tenho visto muito filme fora do circuito americano ultimamente e algumas destas produções vêem da França. Sempre gostei da cinematografia da cidade luz pela valorização que eles fazem dos bons diálogos, das cenas com uma velocidade em que é possível absorver (e apreciar) as expressões faciais e interpretações dos atores de um modo amplo e comovente. Alguns dizem que os franceses fazem filmes “cabeça” demais e com uma introspecção cansativa com cenas em que a câmera passeia por cenários e fotografa os atores de uma maneira em que não se conta o tempo. Diferente da cinematografia americana onde tudo é muito rápido e as cenas acumulam-se umas às outras sem que o espectador tenha tempo para assimilá-las ou absorvê-las. Todas filmadas da mesma forma e com a mesma estética dos vídeo-clipes da MTV. Aliás, esta é a linguagem americana em todas as suas produções. Com algumas exceções, claro. Sinceramente nunca me ocorreu este pensamento de que os franceses fazem só filmes “Cult” ou coisa que o valha, porque sempre gostei mais de um bom diálogo a um filme meramente de explosão e tiroteios. Valorizo, sobretudo, um trabalho de interpretação de atores e um trabalho autoral. Cada vez mais raro hoje em dia, diga-se de passagem.
Caso você também tenha a impressão que o cinema francês seja elitista e “cabeça” demais sugiro então que veja, sem demora, os filmes “A Cidade das Crianças” dirigido por Nicolas Bary, “Amor ou Consequência” dirigido por Yann Samuell e “O Fabuloso Destino de Amélie Poulian” com direção de Jean-Pierre Jeunet. Aposto que sua opinião vai mudar rapidinho e quem sabe você também se torne um amante da sétima arte produzida na terra de Edith Piaf. Todo este preâmbulo só para salientar a qualidade artística da produção O Fabuloso Destino de Amélie Poulian que vi esta semana e que ainda guardo na memória os olhos pretos de Amélie Poulain (Audrey Tatou) a me fitar ao som daquela trilha sonora comovente.
Jean-Pierre Jeunet se utiliza do universo fantástico para narrar à história de Amélie Poulain uma garota que passou a infância e a adolescência a observar a vida dos outros já que a sua própria existência lhe parecia sem significado. Seus pais neuróticos a mantinham longe de tudo e de todos por acreditarem que ela sofria de problemas cardíacos e assim a mantinham em total reclusão. Como sua mãe era professora, seu aprendizado foi feito em casa mesmo longe de outras crianças. Este voyeurismo involuntário e a morte prematura da mãe trouxeram para Amélie uma personalidade de quem acredita que a vida é só observar os outros e que nada mais lhe resta além desta solitária existência.
Adulta muda-se do subúrbio para o bairro parisiense de Montmartre onde trabalha como garçonete. Sua vida continua a mesma de observadora da vida alheia até o dia em que, acidentalmente, descobre escondido no rodapé de seu banheiro, uma caixinha com pequenos objetos e fotografias do antigo morador da residência. Intrigada com a descoberta assalta-lhe o desejo de entregar estas “lembranças” de infância ao verdadeiro dono. Ao presenciar a alegria com que Dominique (Maurice Bénichou) recebe a caixa com suas recordações resolve que vai dar outro sentido para sua vida: ajudar as pessoas a sua volta. Assim, começa seu fabuloso destino de levar alegria e esperança para desconhecidos e assim trazer emoção para seu coração nada enfermo. Um coração que na realidade é carente de afeto e atenção. Esta jornada de boa samaritana vai levar Amélie a encontrar outros personagens com personalidades tão intrigantes quanto a sua própria: A atendente da tabacaria que se sente excluída; o vizinho conhecido como “o homem dos ossos de vidro” que vive recluso há vários anos no seu apartamento; o rapaz da quitanda que é humilhado pelo patrão; o escritor canastrão; o cliente do bar que atazana a vida de outra garçonete e tantos outros que cruzam seu caminho. Enfim, uma nova visão de mundo e de perspectivas se abre para Amélie. Suas ações no trabalho e nas andanças pela cidade são realizadas no sentido de trazer emoções fortes e um sentido para a vida destas pessoas.
Na busca de encontrar felicidades alheias, Amélie também vai encontrar o amor da sua vida nos olhos de Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz) um cara tão solitário quanto ela própria e que tem por hábito fazer coleções das mais inusitadas possíveis. Sua última mania é colecionar fotografias 3x4 jogadas no lixo que cola em um álbum. Assim como Amélie ele também procura encontrar sentido para a própria vida acumulando “lembranças” alheias. Almas gêmeas é a primeira impressão que o espectador percebe ao vê-los juntos, e não tem como não torcer para que fiquem juntos no fim.
Direção de arte primorosa, edição ágil, fotografia que realça a beleza de Audrey Tatou e a comovente trilha sonora composta por Yann Tiersen dão um charme todo especial a este filme que transfere ao espectador um sentimento de nostalgia e paz de espírito. Um romance de uma singeleza que comove e apaixona. Não tem como não ficar hipnotizado pelos olhos de Amélie e pelo seu crescimento como ser humano. O roteiro foi escrito quase com um conto de fadas com direito a voz melodiosa de um narrador em off que vai pontilhando cada descoberta da personagem até o fim da história. Deixe-se levar pelo sorriso de Amélie e também se apaixone por esta história.
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Crítica: 500 Dias com Ela
Valdeci (20/02/2011 19:20:15)
Já escrevi aqui neste blog que sou fã de comédias-românticas bem açucaradas e tudo mais. Foi com este espírito que resolvi assistir (500) Dias Com Ela dirigido por Marc Webb. Ledo engano meu. O filme até tem um pouco de comédia, claro. Muito de romance e discussões a cerca de relacionamentos homem/mulher. Isso mesmo, nesta ordem: Homem discutindo a relação com a mulher amada! Bem, já deu pra perceber que o filme inverteu a ordem natural das coisas ou aquilo que estamos acostumados a assistir em filmes românticos ou comédias leves. E para ser sincero, saiu-se muito bem neste propósito. Pelo título do filme já foi possível perceber a inversão de perspectiva narrativa bem como a inversão de valores visto que o homem é que terá seus sentimentos e aprendizados colocados entre parênteses! Aliás, uma narrativa nada linear uma vez que os dias apresentados na tela transcorrem sem uma ordem cronológica. Mas não se preocupe: de fácil compreensão em uma edição muito criativa. Uma visão um tanto quanto heterodoxa (se é que se pode usar esta palavra para uma simples resenha cinematográfica) das motivações e sentimentos amplamente aceitos (e inúmeras vezes repetidos) nos roteiros dos filmes classificados como “água com açúcar” ou “garota procura garoto para romance de final feliz”. Só que neste caso e nesta produção em particular, sob o olhar masculino.
Interessante que o título também já nos dá uma dica de como será o final do filme e o abandono do personagem principal da história e a sua desilusão com a perda do seu grande amor. É eu sei, contei o final do filme… Mas a culpa não é minha e sim do título e acredito intenção real de seus roteiristas! Mas não é um filme triste. Longe disso! Afinal, a vida é feita de perdas e ganhos e o espectador é convidado a entender (ou vivenciar) esta incrível história de amor sob a perspectiva masculina. Neste particular é que o filme é honesto, íntegro e, acima de tudo, sem utilizar de artificialismos e fáceis clichês. Ao colocar a premissa logo no início da projeção e no título do filme o espectador é convidado a não esperar os créditos finais para saber os destinos do jovem casal, mas a vivenciar a experiência de um romance fracassado e, em consequência, crescer como ser humano. Ou quem sabe mesmo tentar entender os motivos que levaram o casal a ter esta ou aquela atitude perante o relacionamento a dois. O que não deu certo? Onde o amor falhou? A culpa foi de quem? Procurar respostas para estas e outras perguntas é a intenção do filme e o espectador vai vivenciar estas questões e sofrer (e ser feliz) com Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) nos 500 dias em que amou e viveu ao lado de Summer Finn (Zooey Deschanel). Quinhentos dias entre parênteses, não se esqueçam!
Tom Hansen é um arquiteto formado que trabalha como escritor de cartões de felicitações em uma empresa de Los Angeles que no dia 8 de janeiro conhece Summer Finn a nova assistente do seu chefe. Amor à primeira vista, claro! Assim começa o primeiro dia. Ele é um cara romântico que acredita no verdadeiro amor, em relacionamentos sérios e duradouros e coisa e tal. Summer é uma mulher moderna, independente e completamente alheia a estas questões afetivas e que possui uma visão bastante liberal sobre relacionamentos, sexo e amor. Aliás, ela não acredita no amor e seus casos e encontros são puramente sexuais e efêmeros. Summer possui a mentalidade da maioria dos homens você deve estar pensando. Pois é… Aqui os papéis se invertem e quem gosta de discutir a relação é ELE e não ela! Para Summer é só um caso de verão e nada mais (Será este apenas um trocadilho infame dos roteiristas?).
Entre idas e vindas o casal vai levando a vida e o relacionamento se fortalece em determinado momento para enfraquecer em outro. A cena em que retrata o dia seguinte da primeira transa deles é simplesmente hilária e vai ficar como antológica da sétima arte. Todo mundo que teve na cama a pessoa amada (e perdidamente desejada) com certeza sente-se como se estivesse a bailar pela rua indiferente a multidão. Até mesmo ver passarinho azul deve ser coisa normal em momentos de extrema felicidade. O mundo se torna mais colorido, as pessoas mais simpáticas e tudo parece que vai dar certo. O tempo passa e Tom Hansen percebe que sua namorada (seria mesmo sua namorada?) possui um comportamento despojado demais para suas pretensões sérias de levá-la ao altar. Summer não é uma garota de guardar opinião e diz na lata o que lhe vem à mente colocando seu parceiro em verdadeiras arapucas e em situações constrangedoras (para não dizer de puro sofrimento e angústia). Mas o amor é mais forte e ele tenta, desesperadamente, não perdê-la.
Outra cena antológica (com certeza será repetida em outros filmes) é a perspectiva que a pessoa que ama tem em relação à realidade dos acontecimentos que envolvem a pessoa amada. Quem ama sempre tem expectativas favoráveis ao futuro do romance o que nem sempre acontece na realidade. Na cena em questão Tom é convidado a participar de uma festa na casa de Summer e neste momento a tela se divide em duas. De um lado assistimos as “Expectativas” de Tom em relação a este reencontro e tudo o que ele gostaria que acontecesse nesta festa que seria reatar o romance e ser o centro das atenções da mulher amada. Porém, o que se vê na outra metade da tela é justamente o contrário. A “Realidade” é mais crua e dura e é impossível não sentir uma pena enorme deste homem apaixonado e uma raiva imensa desta mulher insensível. Para piorar as coisas ele descobre que ela está noiva de outro cara! Ele deve ter pensado: “como assim?” A mulher sempre argumentou contra união estável e tudo mais e de repente ela vai CASAR com outro? O coitado sai em disparada da festa e o seu mundo desaba.
Sofrer por amor é duro. Ser abandonado quando se está perdidamente apaixonado mais cruel ainda… Mas a vida continua e é preciso seguir em frente. Por não ser uma comédia romântica padrão o filme retrata apenas uma fase na vida de um cara que se apaixonou pela mulher errada que nem de longe é sua alma gêmea. Solidão, abandono e a dura realidade pela frente. Assim ele larga o trabalho de fazer cartões de amor e felicitações vazias e sem sentido (isso ele descobre depois) e vai procurar emprego como arquiteto. Outra grande ironia do roteiro. Enquanto Tom dedicava sua vida a escrever sobre amores, felicidades e confraternizações em cartões para enamorados anônimos seu destino tratava de impor-lhe outra dura realidade. De tanto escrever sobre felicidade acreditava, sinceramente, que encontraria sua alma gêmea e então também teria direito a receber seus cartões em datas festivas. Um cara que sabe escrever sobre o amor deveria saber conquistar a mulher amada. Mas não foi o que aconteceu como se viu. Quando finalmente resolve dedicar-se a projetar “sonhos reais” (liberdade poética minha) e a desenhar linhas em ferro, concreto armado e a fazer cálculos matemáticos o amor, finalmente, bate-lhe na porta. Assim é a vida! Nada melhor que um novo amor para esquecer um amor perdido.
Gostaria de abrir outro parêntese aqui (como tantos parênteses neste texto e no próprio título do filme). Ou um novo parágrafo como queiram. Enfim… Gostaria de acrescentar que ao assistir (500) Dias Com Ela tive a impressão de estar assistindo um filme de época. O figurino; os cenários; a fotografia; os gestuais dos atores, tudo me levava a crer que a história de Tom e Summer se passava na década de 60 ou 70. Claro que as cores utilizadas no filme não eram berrantes ou caleidoscópicas como naquela época. Mas o corte das roupas, a fita no cabelo da Summer; o colete inseparável de Tom; o madeiramento do escritório e os prédios sempre antigos retratados nas ruas de Los Angeles me levaram a ter esta impressão. Até o relógio que o despertava para a triste rotina era um modelo bastante antiquado (ou me pareceu no momento) e a loja onde só apareciam discos de Vinil. Levei um susto, porém quando vi a cena em que Tom e sua jovem irmã estão a se divertir em uma partida de vídeo-game em um aparelho de última geração com joystics sem fio! Pelo visto só eu tive esta impressão de “filme de época” já que não li nenhum comentário neste particular dos meus amigos que viram o filme.
Para os que estão a chorar rios de lágrimas neste momento por um amor perdido ou não correspondido esta história é bastante ilustrativa e mostra que nem tudo está perdido e que este momento de sofrimento é passageiro. No futuro irão perceber que a dor não era tanto assim e que aquele amor na realidade foi mesmo é superestimado (ou não… vai saber). Para usar um velho clichê diria que “o tempo cura todas as feridas”. Se existe uma lição de vida para ser aprendida neste filme (e sempre se aprende alguma coisa em produções com esta qualidade e honestidade) esta lição poderia ser resumida numa frase: A felicidade pode ser efêmera, mas não existe dor que dure para sempre. O clichê é meu, podem atirar as pedras!
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Crítica: Baaria - A Porta do Vento
Valdeci (22/01/2011 15:04:30)
Escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore o filme Baarìa – A Porta do Vento acompanha quatro décadas de história de Baarìa uma pequena localidade siciliana em que os moradores do local se referem, em dialeto, a cidade de Bagheria. Para quem não viu o mais novo trabalho de Tornatore um aviso: Não tente entender os personagens que aparecem no decorrer da narrativa porque eles entram e saem de cena em uma velocidade espantosa. Aliás, o filme é um grande painel histórico, político e social desta cidade siciliana e, como tal, relega a segundo plano as histórias pessoais de seus moradores. Inúmeros personagens surgem a todo o momento e suas motivações, complexidades psicológicas, emocionais e tudo mais vão se perdendo ao longo de quase três horas de duração do filme. Fica difícil, em certos momentos, saber quem é quem e as razões de serem retratados nesta ou naquela cena. O espectador fica com a impressão de estar assistindo a uma retrospectiva histórica de um povo e seu país em que os acontecimentos ali retratados ele, o espectador, não possui familiaridade ou não a conhece de todo. Para entender Baarìa - A Porta do Vento na sua complexidade, seria necessário ter um pouco de conhecimento prévio da história da Itália e de seu povo. Só assim, com conhecimento de causa, é que é possível assimilar e apreciar, como se deve, os acontecimentos ocorridos em mais de 40 anos nesta pequena localidade da Sicilia.
Com certeza este filme é uma daquelas produções em que é preciso rever e rever várias vezes para se poder entender e, principalmente, apreciar toda a grandiosidade da obra. Cada vez que o espectador assistir a Baarìa – A Porta do Vento vai maravilhar-se com esta ou aquela cena, esta ou aquela passagem que passou despercebida e emocionar-se com este ou aquele momento retratado em tela. Não pense que estou só a fazer uma crítica ao trabalho de Tornatore. Longe disso! Só gostaria que o leitor deste texto tivesse um pouco mais de paciência com o roteiro e a visão do diretor e se deixasse levar pela beleza plástica das cenas (e são muitas cenas...); apreciasse igualmente o incrível trabalho de reconstituição de época; maravilhar-se com os figurinos e cenários feitos com maestria e é claro emocionar-se, às lágrimas, com trilha sonora composta por Ennio Morricone. Um pequeno adendo: A música de Ennio Morricone faz toda a diferença e não se lembrar de Era “Uma Vez na América” de Sérgio Leone foi impossível já que Morricone também foi o responsável pela trilha sonora deste filme. Ficar indiferente a toda aquele gestual característico do povo italiano e ao seu belo idioma igualmente impossível o que torna esta obra imperdível. Sendo assim, deixe-se levar pelas belas imagens, pela estupenda trilha sonora e depois reveja o filme uma segunda vez para poder entendê-lo melhor no que diz respeito as suas motivações e a história que realmente Tornatore queria contar.
Para não ficar divagando muito devo dizer que foi possível acompanhar a história de Peppino Torrenuova (Francesco Scianna) desde sua infância como um menino problemático nos anos 30 que percorria as ruas de sua cidade a puxar uma vaca e a vender seu leite de porta em porta e sua dura experiência de guerra nos anos 40 sob o fascismo. Foi possível também assistir seu romance proibido com a bela Mannina (Margareth Made) e suas artimanhas para finalmente conquistar e casar com a mulher amada. Juntos passam por privações, sofrimentos e alegrias... Finalmente chegar à maturidade, à vida política e os anos de sucesso na militância no Partido Comunista Italiano e a criação dos seus três filhos. As passagens de tempo não são lineares e acontecem durante todo o filme, indo e voltando na história dos Torrenuova o que dificulta acompanhar as trajetórias dos inúmeros personagens que surgem a todo o momento e a entender algumas passagens históricas da Itália e seu povo. Todavia, é possível focar a atenção na família de Peppino e Mannina e assim não ficar muito perdido na trama. Acompanhar o desenvolvimento da cidade de Baarìa de cidade tipicamente agrícola em uma grande metrópole com seu caos no trânsito foi interessante. Bem como ver o surgimento dos partidos fascistas, socialistas e comunistas (em qual ordem se deram não me pergunte...) e toda a questão política italiana e a influência da máfia nos destinos daquela gente também foi possível acompanhar apesar de toda a caótica edição. Enfim é um filme imperdível para quem gosta de filmes com fundo histórico e social emoldurado numa bela trilha sonora e imagens impactantes. Se você não entender muita coisa desta colcha de retalhos que é o enredo não se preocupe. Até porque, Giuseppe Tornatore não facilitou muito a vida de quem não conhece a história do povo italiano. Se você entender melhor esta história me escreva porque ainda preciso rever muitas vezes Baarìa – A Porta do Vento para entendê-lo completamente. Uma coisa é certa: As imagens (em turbilhão) e a trilha sonora são belíssimas e valem o valor da locação.
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Crítica: Preciosa - Uma História de Esperança
Valdeci (18/01/2011 18:13:30)
Por uma cruel ironia era conhecida por todos como preciosa. Claireece Preciosa Jones foi assim batizada por sua mãe porque era assim que esta mulher queria que sua filha fosse conhecida e, certamente, era assim que a considerava quando seu bebê nasceu. Uma criança que tem no próprio nome um adjetivo tão comovente deveria ser tratada com todo amor e carinho por seus pais. Deveria... Mas não foi o que aconteceu com Claireece “Preciosa” Jones que jamais conheceu (ou sentiu) o significado que seu nome transmitia. Teve uma infância sofrida por inúmeros abusos sexuais praticados pelo pai com a conivência da mãe; uma adolescência ainda mais cruel pelo tratamento de escrava que a própria genitora impunha e, acima de tudo, a grande solidão de viver cercada por tanto ódio, descaso e sofrimento. Preciosa jamais usufruiu, em sua curta existência, a beleza do próprio nome. Não até o momento em que “aprendeu” a rebelar-se contra este tratamento desumano praticado por seus pais.
Preciosa tinha auto-estima em grau zero. Sua realidade em preto-e-branco era por demais cruel para permitir-lhe ser feliz. Aliás, felicidade era uma palavra que não constava em seu dicionário. Até porque, semi-analfabeta, não tinha ciência da própria ignorância e da sua condição de ser humano. Não saberia mesmo soletrar felicidade, quanto mais senti-la e muito menos ter consciência que todo ser humano merece ser feliz. Em seus sonhos sentia-se poderosa, amada por seu homem branco (aqui uma alusão ao preconceito e a sua dura realidade de negra/mulher/gorda) rodeada de muita cor e luxo. Um dia Preciosa aprendeu que também tinha lá seus direitos e que igualmente mereceria sentir a tal felicidade e vivenciá-la plenamente além de seus delírios cor-de-rosa.
Interessante perceber que o diretor Lee Daniels neste brilhante filme Preciosa – Uma História de Esperança nos mostra o caminho percorrido por Preciosa para sair de sua prisão domiciliar e deixar de sofrer as humilhações e maus tratos da mãe. Quando era uma menina que não tinha “conhecimento” e era uma completa ignorante no sentindo mais abrangente da palavra aceitou seu destino resignadamente. Até porque, não tinha parâmetros para comparar com sua triste situação. Acreditava, sinceramente, que o mundo era assim mesmo, que sua vida deveria igualmente ser de sofrimento e dor. Normal para uma mulher negra, gorda e mãe de duas crianças geradas com o próprio pai. Quando percebeu que a “palavra” (no caso o conhecimento) a libertaria de sua sina correu atrás de sua liberdade e resolveu cortar o cordão umbilical e buscar outras palavras para o seu dicionário. Quando finalmente entende sua condição de ser humano e o conhecimento a alcança sua auto-estima melhora, sua confiança em si própria aumenta sente-se então forte para enfrentar a mãe dominadora. Na sala de aula aprende muito mais que soletrar e entender os significados das palavras ela os escreve em seu diário e, a partir desta arte de escrever exorciza seus medos, angústias e esperanças. Ao ser reconhecida como uma boa aluna percebe que está no caminho certo e, a partir deste momento, sente-se forte para recomeçar uma nova vida e finalmente ser feliz.
A interpretação de Gabourey Sidibe como Preciosa é convincente e comovente. Seu olhar distante e sua aparente apatia perante o mundo nos mostram uma pessoa sofrida que usa estes artifícios como escudo para proteger-se e manter-se incógnita. Mas quem rouba a cena mesmo é a atriz Mo’Nique como a vilã mãe da protagonista. Uma interpretação visceral, incrivelmente comovente e assustadoramente real. Não tem quem não sinta uma raiva atroz por esta mãe e não tenha vontade de esganá-la na primeira oportunidade. Vale cada cena em que contracena com Gabourey. Não pense tratar-se de mais um daqueles filmes cheios de clichês com heroínas sofridas que dão a volta por cima e coisa e tal. Não é um filme fácil e simplista a este extremo. O realismo é chocante, as interpretações convincentes e a direção competente. Um filme para quem realmente quer aprender um pouco sobre esperança e como conquistar a felicidade. Preciosa desejava ser uma pessoa que, além de ter esta palavra em seu próprio nome, ser um ser uma mulher realmente Preciosa. Provavelmente foi com seus filhos...
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Crítica: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Valdeci (11/12/2010 15:59:51)
O escritor sueco Stieg Larssons Autor da trilogia “Millennium” composta pelos livros Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, A menina Que Brincava Com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar não viveu para usufruir da fama e do dinheiro que sua obra se tornou. Em 2004, aos cinquenta anos, pouco após entregar aos seus editores os manuscritos da Trilogia Millennium, morreu vítima de um ataque cardíaco. Para quem gosta de um bom suspense de investigação policial repleto de sexo, violência, intrigas de toda ordem e personagens bizarros vai encontrar nesta trilogia muitas tramas paralelas de ação e espionagem que será impossível ao leitor, amante deste tipo de literatura, ficar indiferente. A trilogia lembra muito o estilo Agatha Christie com suas reviravoltas e tramas bem reconstituídas e com uma narrativa empolgante fazendo o leitor devorar suas páginas num fôlego só para descobrir o final da história. Evidentemente que toda esta trama policial e psicológica iria tornar-se uma produção cinematográfica e coube ao diretor Niels Arden Oplev dar vida a estes personagens na primeira parte da trilogia com o filme Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Já estou ansioso para ver a continuação... Fez tanto sucesso a obra literária e esta produção cinematográfica que Hollywood também irá fazer sua versão (como sempre fazem e estragam). Segundo a imprensa especializada tem noticiado a direção caberá a David Fincher que dirigiu sucessos como Alien III, Seven, O Curioso Caso de Benjamin Button, Zodíaco entre outros.
Fazer uma adaptação para o cinema de uma obra literária sempre é muito arriscado porque são linguagens diferentes e para públicos igualmente diversos. Todavia Niels Arden Oplev seguiu o texto quase que ao pé da letra. Claro que todo o universo literário não cabe em um filme, mesmo que este tenha uma metragem bastante longa (que é o caso desta produção sueca). Mas enfim... O filme é muito bom e conseguiu transpor o suspense policial na medida certa com cenas bem elaboradas, uma fotografia caprichada e uma trilha sonora sem comprometimento. Infelizmente Lisbeth Salander (Noomi Rapace) a personagem principal da história e a que tinha um perfil psicológico dos mais interessantes perdeu um pouco na transposição para a sétima arte. Foi difícil retratá-la de forma convincente e pareceu um estereótipo de hacker inconseqüente. Sua psicologia, caráter e estilo de vida ficaram relegados a segundo plano. Talvez na continuação o público possa conhecê-la melhor e tomar ciência de seu passado e os motivos que a levaram a ser esta garota rebelde e sem vínculos afetivos. .
Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) é editor e repórter investigativo da revista Millennium que é contratado por Henrik Vanger (Sven-Bertil Taube) um poderoso empresário para investigar o desaparecimento de sua sobrinha Harriet Vanger ocorrido há mais de 36 anos. Enquanto aguarda para cumprir pena de seis meses de reclusão por difamação de outro empresário em uma reportagem polêmica em sua revista, Mikael dedica-se a descobrir o que poderia ter acontecido a Harriet que tinha de 16 anos quando sumiu do mapa. Lisbeth Salander (Noomi Rapace) é uma hacker que foi contratada para seguir Mikael e descobrir mais sobre ele. Ao término desta investigação e, por ter acesso ao seu computador, descobre que ele está trabalhando neste caso e resolve ajudá-lo. Salander faz o tipo anti-heroína que se esconde por trás de muitos piercings, tatuagens e visual dark no intuito de afastar as pessoas e proteger sua identidade e seu passado tumultuado. Desde a infância vive sob a tutela do estado em orfanatos e clínicas psiquiátricas e pouco se sabe sobre sua família e as razões por ser uma jovem tão reclusa. Defende-se sozinha do mundo e não costuma levar desaforos para casa. Tem um relacionamento homossexual e amigos um tanto quanto suspeitos, uma banda pra lá de esquisita e ganha a vida como investigadora particular para a organização Milton Segurit usando de meios lícitos e ilícitos para resolver seus casos. Durante esta investigação outras tramas paralelas vão surgindo e a verdade sobre a família Vanger que possuem entre seus membros nazistas e anti-semitas vêem à tona. A violência a que é submetida Lisbeth Salander por seu tutor e o seu passado misterioso são fatos que correm paralelo à investigação propriamente e, entre uma cena e outra, são inseridas no decorrer da trama para que o público possa entender um pouco sua infância tumultuada e perigosa.
Para quem não leu a trilogia recomendo que façam o mais rápido possível porque vale à pena. Para quem não viu o filme dirigido por Niels Arden Oplev também recomendo pela eficiente direção e, acima de tudo, por ter mantido na tela todo o suspense que a obra possui. A atuação de Noomi Rapace como a anti-heroína Lisbeth Salander foi perfeita e Michael Nyqvist na pele do repórter Mikael Blomkvist não compromete muito. Vejam este filme antes que Hollywood invista seus dólares na versão americana (como se qualidade se resumisse única e exclusivamente a quantidade de dinheiro investido) e coloquem tudo à perder.
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Thriller futurista com Jude Law e Alice Braga ressurge com trailer e pôster
Valdeci (06/11/2010 15:30:03)
No início do filme Repo Men, dirigido por Miguel Sapochnik com roteiro de Eric Garcia e Garrett Lerner o personagem vivido por Jude Law justifica seu “trabalho” com o seguinte raciocínio mercadológico: ”Se você não paga as parcelas do carro, o banco vem e pega o carro de volta... Se você não paga a hipoteca da casa, o banco vem e toma a casa de você”. Este é o meu trabalho... “Se você não paga as prestações dos seus órgãos, nós o pegamos de volta” Não foram exatamente com estas as palavras, mas a idéia básica foi essa. Depois de tentar justificar seu ofício de “Coletor” nestes termos Rins (José Law) e Jane Frievald (Forest Whitaker) partem para mais um dia de trabalho: Resgatar órgãos de pessoas inadimplentes com “A União”. Acontece que esta cobrança não tem nada de amigável e, por mais surreal que possa parecer, o filme é ainda mais inverossímil na medida em que Remy e Jake matam as pessoas para retirar os órgãos implantados. Seria inacreditável que, mesmo num futuro distante, fosse ético e humanamente aceitável que uma empresa comercial venha a ter o poder “legal” de matar as pessoas para retirar implantes artificiais dos indivíduos e assim recuperar sua mercadoria e seu investimento. Afinal, que tecnologia médica é essa que, de um lado proporciona ao indivíduo um padrão de vida melhor com estes implantes, possibilitando um tempo de vida maior e em melhores condições da pessoa exercer suas atividades usufruindo de todos os recursos médicos e científicos disponíveis. Na contramão deste avanço médico científico, atua como uma mera empresa financeira (sem valores éticos ou morais) tem por finalidade única o lucro certo e garantido. O não pagamento da aquisição dos órgãos artificiais (e vitais em muitos casos) a companhia simplesmente resgata sua mercadoria sem importar-se que o indivíduo morra de forma cruel e sanguinolenta e assim possa revender novamente o órgão para outro infeliz inadimplente. Até a forma como a “coleta” é feita é desproporcional a tal avanço tecnológico e médico e é exageradamente artificial e caricato. Para não dizer de extremo mau gosto. Medieval demais e humanamente inaceitável para os padrões futurísticos mostrado no filme. A não ser é claro, se os produtores tiveram a intenção de nos retratar um futuro meramente mercantilista e ganancioso onde os valores humanos (e, por conseguinte, éticos e morais) serão relegados a segundo plano. Ou o que é pior, um futuro onde o ser humano será apenas um produto de mercado.
Para não dizer que não existe um lado interessante nesta história toda, foi interessante ver que depois o tal sitema se vira contra o próprio Remy ao precisar de um transplante de coração e ficar sem a grana para pagar as mensalidades para “A União”. Agora ele está sendo caçado por Jake (seu parceiro de trabalho) para recuperar o órgão transplantado. Assim, começa a segunda parte desta história e Remy cai na real e sente na própria pele (literalmente) que o ofício de coletor e toda aquela engrenagem da corporação de doar/recuperar órgãos das pessoas não é uma prática aceitável e agora tem que correr contra o tempo para salvar a própria vida e das outras pessoas que se encontram na mira do coletor. Este aspecto moral foi a única parte interessante da história uma vez que sempre temos a visão errada das coisas quando não nos colocamos no mesmo lado da outra pessoa e não temos a perspectiva do outro. Sempre temos a tendência de olharmos para o próprio umbigo sem importar-nos com os problemas e angústias alheias. Assim, ao vivenciar a mesma situação dos inadimplentes com “A União” Remy conhece o lado humano dos endividados e as péssimas condições que vivem sempre a fugir e a se esconderem nos lugares mais insalubres e em ruínas. Uma verdadeira lição de moral e ética. Mas tal consciência só foi possível quando teve que viver como fugitivo.
O filme é direcionado para aquele público que gosta de tiroteio, explosões, perseguições e muito sangue sem importar-se com questões morais, éticas ou mesmo filosóficas. Chego a pensar até que o parágrafo acima não tenha sido levado em consideração pela grande maioria dos espectadores de Repo Men (não vai aqui nenhuma crítica a esta legião de pessoas é só uma observação pessoal e uma perspectiva cinematográfica bem particular). Geralmente o público de filmes de ação não está muito ligado nestas questões e costumam dizer que é só um filme e nada mais. Realmente neste aspecto o filme funciona e as cenas onde os coletores praticam seu ofício são impressionantes. As cenas de lutas e perseguições em cenários em ruínas e a trilha sonora ajudam a criar um clima a deixar o expectador sem fôlego e muito menos tempo para pensar. A cena final quando os fugitivos encontram a porta rosa e entram no “coração” do sistema da corporação chega a dar uma dor na espinha. Assistir toda aquela automutilação foi chocante. Mas fique tranqüilo: Você pode desligar seu aparelho e dormir tranqüilo depois de assistir toda esta matança, sanguinolência e mutilação. Afinal, trata-se simplesmente de mais um filme de ação sem propósito algum que não o entretenimento.
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Crítica: Orgulho e Preconceito
Valdeci (30/10/2010 16:13:22)
Para escrever este comentário sobre o filme Orgulho e Preconceito com direção de Joe Wright fui buscar na Internet informações sobre o livro homônimo da escritora britânica Jane Austen uma vez que não tive o prazer de ler a obra. Faltava-me idéia para começar este texto. Então encontrei a seguinte preciosidade:
“A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós”.
Seria simplista demais dizer que o texto acima resume bem o tema tratado no filme Orgulho e Preconceito, mas na falta de outro melhor este vem a calhar. Até porque, como já disse anteriormente, não li o livro e, com certeza, outras passagens literárias mereceriam destaque neste meu comentário. Feito este preâmbulo (que já se estende em demasia) vamos ao que interessa já que vamos falar da obra cinematográfica e não literária que como se sabe, são linguagens diferentes.
A Sra. Bennet está desesperada para ver suas cinco filhas casadas e seguras uma vez que seu marido já está com o pé na cova. Como a família é constituída de cinco meninas a herança da família, por tradição, irá para William Collins primo das garotas. Para evitar que a herança da família vá para o jovem a matriarca da família tem chiliques e ataques de nervos só de pensar em perder o pouco que tem e deixar suas filhas desamparadas. Sua vida se resume em encontrar marido para as cinco filhas. Com a chegada de Charles Bingley e seu fiel amigo Fitzwilliam Darcy à região, a mulherada entra em alvoroço pronto para fisgar um dos cavalheiros (ou ambos). Em um baile público a família Bennet é apresentada aos jovens sendo que Bingley cai de amores por Jane Bennet (com 22 anos e a mais velha das irmãs) e Darcy não vê com bons olhos esta aproximação já que se trata de família camponesa e pobre. Aliás, Darcy desdém abertamente de Elizabeth (de 20 anos e a segunda filha dos Bennet) que, ferida em seu íntimo, trata-o como um ser desprezível, arrogante e orgulhoso.
Com o passar do tempo a relação dos Bennet com os jovens cavalheiros vai tomando outro rumo. Bingley é orientado por seu amigo a separar-se de Jane e Darcy por sua vez vai percebendo que Elizabeth é uma moça inteligente, perspicaz, astuta e sem papas na língua. Ao ficar sabendo destas articulações para separar sua irmã de seu amado Bingley Elizabeth acaba se aproximando de um jovem soldado que lhe conta o passado do frio e articulista Darcy. Apesar de seu orgulho e preconceito em relação aos Bennet, Darcy acaba se aproximando da jovem Elizabeth e o amor acontece inexoravelmente. Chega-lhe, inclusive a pedir em casamento, mas é prontamente recusado por ser considerado culpado pela separação da irmã e por ser um sujeito deveras preconceituoso e pedante. Nestes encontros e desencontros do destino, Elizabeth e Darcy finalmente encontram razões sentimentais para deixarem de lutar um contra o outro e acabam aceitando suas diferenças e o amor (sempre ele) acaba por romper barreiras sociais, culturais e econômicas.
O filme é repleto de cenários arquitetônicos fabulosos, figurinos impecáveis e reconstituição de época de encantar quem, como eu, curte e o ambiente do século dezoito. Os bailes de gala são ricamente detalhados e aquele bailado todo com aquela música é de emocionar a qualquer um. Uma das cenas incríveis é o momento em que Elizabeth e Darcy estão a dançar no meio daquela gente toda e, por um milagre que só o amor é capaz de produzir, de repente estão sozinhos no salão como a simbolizar que o amor focaliza só o amado e mais ninguém importa. Confesso que não gostei muito da escolha de Keira Knightley vivendo a personagem instigante, perspicaz e sincera Elizabeth Bennet. Mas ela não compromete de todo e seu desempenho. Por outro lado, Matthew Macfadyen está fantástico na pele do orgulhoso Darcy. Mas o grande barato mesmo foi assistir a interpretação de Brenda Blethyn como a afetada, nervosa e cheia de chiliques Sra. Bennet. Ah sim, antes que eu me esqueça devo citar a participação de Judi Dench como a aristocrata dominadora Catherine de Bourgh. Pena que sua participação é pequena, mas essencial para o desenrolar da trama.
Para quem curte um filme romântico com toques de ironia, cinismo, olhares de milhares de interpretações vale a pena assistir. Uma crítica cruel ao estilo de vida daquela época, mas através de uma perspectiva de que é possível superar orgulhos e preconceitos. O duelo entre o amor e o orgulho; a luta entre o desejo e o preconceito são elementos importantes retratados nesta obra. O amor não vive de aparências, não se alimenta de orgulho e, sem sombra de dúvida, não sobrevive neste círculo de vaidades.
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Crítica: Orgulho e Preconceito
Bruna (14/10/2011 18:47:03)
Valdeci esse trecho que vc colocou é do próprio livro
Crítica: À Prova de Morte
Valdeci (27/10/2010 20:08:02)
Tarantino é o cara! Sabendo disso ele se dá ao luxo de, propositadamente, fazer de tudo para que seu filme À Prova de Morte seja visto pelo público como um filme descartável, de péssima qualidade de edição, com fotografia sem retoques e artificialismos e trilha sonora das mais variadas possíveis numa mistura sui generis. Deve ter dado um trabalho enorme para Tarantino e sua equipe fazer esta produção parecer um lixo cinematográfico! Não para seu público cativo que já conhecem suas manhas e excentricidades criativas muito menos para os críticos cinematográficos que adoram filmes “cabeças”. Confesso que balancei com este filme. Tudo bem que Tarantino é criativo e excêntrico nos seus diálogos “nada a ver” intermináveis tão característicos de sua obra (que me declaro de pronto admirador desta façanha) e por sua mania de querer homenagear os filmes da década de setenta e oitenta com suas trilhas sonoras e tudo mais. Mas não é fácil apreciar à primeira vista este À Prova de Morte. Talvez porque tenha visto este filme baixado da internet com qualidade ainda mais inferior daquilo que Tarantino se propôs a fazer e com as legendas andando rápidas demais ou fora de sincronia. Alguns diálogos foram impossíveis acompanhar e lá pelas tantas eu já não sabia mais quem estava falando o que para quem. Assim, nem com toda a paciência e adoração pela obra de Tarantino foi possível apreciar esta obra e dar-lhe os devidos méritos e aplausos.
Preciso ser sincero e dizer que mesmo com toda esta “criatividade” do Tarantino o filme me pareceu sem propósito. Aliás, o grande propósito do filme foi satisfazer ao próprio diretor sem importar-se com a audiência do grande público. Filmou para si mesmo e para provar aos mortais que ele pode fazer o que lhe dá na telha. Como não precisa provar mais nada a ninguém se dá ao luxo de filmar da maneira que quer e o resto que aceite (ou não). Acho até que só Tarantino (e os seus fãs mais ardorosos) curtiu todo este experimentalismo cinematográfico. Quando vi Planeta Terror também dirigido por Tarantino aplaudi de pé toda aquela encenação e curti muito aquela homenagem aos filmes de terror de quinta. Mas não consegui ficar igualmente entusiasmado por esta produção atual que também simula toda esta plasticidade da precariedade técnica e criativa. Aqueles cortes de edição, a imagem truncada e desfocada, a ação quase que estereotipada dos atores e a canastrice em dose cavalar de Kurt Russel tudo isto já foi visto no Planeta Terror. Já sabemos que Tarantino é um gênio. Agora a ficar a produzir só “homenagens” vai ficar cansativo... Quem assistiu Bastardos Inglórius, Kill Bill I e II, Jackie Brown, Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempo de Violência, Amor à Queima Roupa e Tempos de Violência sabe que Tarantino é o cara! Espero que esta fase “experimental” passe logo. Já vi Planeta Terror e me dou por satisfeito. Que ele mire suas lentes para mostrar-nos sua genialidade e contar-nos uma boa história.
Só pra não dizer que não falei de flores... Gostei do final e da possibilidade que Tarantino nos coloca da vingança possível e que um dia o bandido irá encontrar alguém que o enfrente e o aniquile. Aquela perseguição de carros da segunda parte foi de tirar o fôlego e é claro aquele “papo de mulher” (que apesar de não ter sido possível apreciar pela baixa qualidade do arquivo baixado da internet) deu para sentir que Tarantino agora foca sua lente para o universo feminino. Não me atirem pedras fãs de Tarantino, porque eu também sou fã do cara! Vou comprar este DVD, rever o filme e provavelmente fazer os elogios que ele merece.
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A Vida dos Outros
Valdeci (05/09/2010 19:43:00)
A Vida dos Outros, escrito e dirigido por Florian Henckel Von Donnersmarck é um filme alemão muito interessante porque coloco o espectador como um “Voyeur” involuntário (seria mesmo involuntário? Todo espectador é um voyeur por excelência. Mas enfim...) além de colocar o espectador na corda bamba em torcer para que o Agente da Stasi (Polícia Política da Alemanha Oriental) chamado Gerd Wiesler não encontre vestígios para incriminar Georg Dreyman e a atriz Christa-Maria Sieland. Neste jogo de gato e rato (ou mais precisamente de socialistas contra capitalistas) ficamos atentos ao desenrolar desta história e aguardando as conseqüências na vida de cada um dos personagens envolvidos nesta guerra política de poder e submissão.
Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) é um sujeito extremamente competente na sua atividade de agente secreto e sua vida resume-se a cumprir ordens do partido sem questioná-las. Calmo. Calculista. De gestos contidos e fala mansa e monossilábica como a pensar cada frase antes de pronunciá-las. Provavelmente para evitar comprometer-se num governo que controla até o pensamento de seus funcionários num mundo policialesco. Obedece fielmente seus superiores e acredita que sua função é vital para o bem do país já que eliminar “inimigos” do estado é uma tarefa heróica que muito lhe orgulha. Tem uma vida social nula e vive num apartamento asséptico sem qualquer vestígio de relacionamentos humanos. As paredes do seu apartamento são de cores neutras e frias, assim como os móveis e utensílios ali representados. Tudo muito funcional. Parecendo mais um quarto de hotel a um lar. Suas roupas também destituídas de cor que mais parecem um uniforme profissional. Seus modos de atuar lembram um robô programado para apenas uma tarefa: Espionar. Mas não se engane. Ele é eficiente no que faz. Ou era até receber ordens de espionar o dramaturgo e escritor Georg Dreyman e sua amante a atriz Christa-Maria.
Com o desenrolar da trama, Wiesler vai tomando consciência que sua atividade profissional e todos os conceitos políticos que até então acreditava imutáveis e verdadeiros nada mais são que uma guerra de poder entre a elite dominante (Estado) e o povo comum alemão. Com a divisão da Alemanha em Oriental (Socialista) e Ocidental (Capitalista) e a guerra fria em pleno vigor, o governo da parte socialista coloca seus espiões a vigiar seus cidadãos para evitar a fuga para o lado capitalista ou mesmo controlar remessas de informações para o outro lado. Ao vigiar o casal Wiesler toma ciência da insignificância da sua própria existência e realiza suas possíveis fantasias na vida de Dreyman e Chista-Maria. O Casal leva uma vida mais desregrada de comprometimentos políticos e suas rotinas repletas de vigor, paixão e efervescência cultural muito distante da sua vida vazia e sem brilho. O que era para ser uma rotina de espionar e delatar,torna-se uma forma de viver a vida dos outros, literalmente.
Georg Dreyman (Sebastian Koch) é um dramaturgo e escritor teatral que não questiona o regime e vive à margem destas questões políticas e tudo mais. Tem uma vida bastante turbulenta culturalmente falando e não percebe (ou faz de conta que não percebe) o regime opressor que seu povo vive. Até o momento que começa a levantar bandeiras contrárias ao poder dominante. Tem um caso com a atriz Christa-Maria Sieland muito famosa e adorada pelo povo alemão. Quando toma conhecimento que provavelmente está sendo vigiado e que corre perigo de vida ou banimento começa a escrever artigos para a Alemanha Ocidental como forma de protesto e para tornar público os casos de “Suicídio” muito acima do normal ocorridos em seu país.
Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck) é uma atriz que tem uma grande legião de fãs (inclusive dentro dos escalões do governo) e leva uma vida, de certa forma, muito melhor que a grande maioria da população. Ao se ver no centro deste imbróglio político acaba caindo nas garras do ministro que a explora sexualmente em troca de mantê-la em cartaz e deixá-la desfrutar de suas regalias e ao seu vício de medicamentos. Será uma peça importante neste triângulo e fará seu sacrifício em nome da pessoa que ama.
Florian Henckel Von Donnersmarck consegue transpor para a tela toda a angustiante vida do povo alemão sob o regime totalitário e policialesco através de seus cenários vazios, suas cores sóbrias e a interpretação contida e eficiente de Ulrich Mühe. A trilha sonora, que a princípio parece exagerada, acaba por ser um elemento importante para salientar momentos chaves. Interessante notar igualmente a mudança de comportamento de Wiesler na medida em que ele vai conhecendo o casal a que deve vigiar e deletar. Sua tomada de consciência da inutilidade de seu trabalho e de sua vida é algo que emociona pela forma brilhante como interpreta este personagem. A queda do muro de Berlim anos mais tarde só veio a evidenciar este fato. A inutilidade de toda aquela engrenagem que a todos aprisionava e banalizava não serviu para nada. Exceto aterrorizar o povo, enriquecer alguns e dar poderes supremos de vida e morte sobre pessoas inocentes a alguns sujeitos inescrupulosos.
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Crítica: Amor Sem Escalas
Valdeci (29/08/2010 16:25:09)
Após assistir ao filme Up In The Air, dirigido por Jason Reitman fiquei matutando com meus botões a razão do título em português desta produção: Amor Sem Escalas. O título brasileiro sugere uma comédia romântica ou mais um daqueles filmes “água com açúcar” e tudo mais. Claro que um filme estrelado pelo galã George Clooney (que faz a mulherada suspirar) deva ter influenciado o cara a pensar: “Vou colocar um nome bem bonitinho e romântico para fisgar a mulherada!” Nada mais falso e enganador. Não sou contra as comédias românticas e açucaradas, muito antes pelo contrário. Eu as adoro! Mas não é o caso de Amor Sem Escalas. Com roteiro de Jason Reitman e Sheldon Turner é a história do solitário Ryan Bingham (Clooney) que vive entre um aeroporto e outro como um “Conselheiro de Transição de Carreira”. Eufemismo de executivo contratado para fazer o trabalho sujo de dar o pontapé na bunda de funcionários das empresas americanas uma vez que os chefes não possuem coragem, ou estômago, para este serviço ingrato.
Na primeira cena já somos apresentados a Ryan e a sua especialidade e capacidade em organizar sua mala de viagem de maneira rápida, extremamente eficiente e milimetricamente organizada. Tudo feito com maestria de alguém acostumado a fazer e desfazer malas e acumular milhas e milhas em viagens. Aliás, seu grande objetivo de vida é acumular 10 milhões em milhas. Até seus truques em como evitar filas demoradas em aeroportos na hora do chek-in é motivo de grande orgulho. Suas artimanhas em estar sempre preparado para embarcar no próximo avião e estar satisfeito com tudo isso nos coloca frente a frente a um sujeito prático, sem problemas afetivos algum e sem laços familiares ou de amizades a lhe “pesarem” nas costas. Qualidades estas que costuma propagar em suas palestras motivacionais com grande orgulho.
No decorrer do filme percebemos que Ryan está feliz com sua profissão e plenamente realizado e de consciência tranqüila de ser o cara que chega às empresas e demite pessoas com um sorriso no rosto e palavras previamente ensaiadas e cartilhas impressas motivacionais para deixar o “demitido”’ consolado e motivado a seguir em frente (mesmo desempregado). Como não tem vínculos com ninguém e sua vida é completamente destituída de quaisquer laços humanos mais íntimos, consegue colocar a cabeça no travesseiro à noite e dormir feliz da vida com a sensação do dever cumprido. Para fazer o contraponto a esta filosofia de vida surge no seu caminho asséptico e incolor Nathalie.
Nathalie (Anna Kendrick) é uma mulher que também tem como profissão demitir pessoas e foi admitida na empresa de Ryan por ter desenvolvido um sistema para fazer este “servizinho” via internet para evitar o contato pessoal com a “vítima” da vez e reduzir os custos operacionais da corporação em viagens de seus executivos. Mas apesar de todo este distanciamento humano a que ela se propôs profissionalmente, é uma mulher que acredita no amor; nos relacionamentos afetivos estando inclusive, noiva e prestes a realizar seu sonho de casar com o homem da sua vida. Usa este sistema até como defesa para não ter que enfrentar face a face o constrangimento de dar a triste notícia e presenciar a dor alheia. Acompanha Ryan Bingham por algum tempo em suas viagens para aprender o ofício e aprimorar seu sistema. Nestas viagens ambos irão fazer um duelo verbal muito interessante sobre a conveniência – ou não – do casamento, família, relacionamentos e tudo mais.
Para dar equilíbrio a estas propostas antagônicas aparece então Alex (Vera Farmiga) uma mulher com o mesmo estilo de vida de viver em aeroportos e hotéis. Claro que o relacionamento de Alex e Ryan será entre um hotel e outro. Nada muito complexo. Sexo casual, bom papo sobre hotéis e restaurantes e uma companhia agradável para passar o tempo. Suas afinidades são comparar Cartões de Fidelidades de companhia aéreas, empresas de aluguéis de carros e restaurantes. Aliás, interessante notar aqui que na carteira de Ryan não existem fotografias de sua família (pai, mãe, irmãs ou outro ser humano qualquer). Só cartões de crédito e de empresas para acumular milhas e vantagens de serem “Vips” por onde passam. Seu apartamento também é muito prático e vazio. Mais parece um quarto de hotel tal a “funcionalidade” e ausência de calor humano e aconchego. O que pareceria uma convivência harmoniosa e conveniente para Ryan, Alex tem alguns laços familiares e não é tão distante assim dos relacionamentos humanos. Não sabemos muito sobre sua vida além da sua atividade profissional. Mas percebe-se que ela tem onde jogar “âncora” após suas viagens. O que não é o caso de Ryan. Temos assim um extremado anti-social Ryan que jura não o ser já que vive rodeado de pessoas em aeroportos e hotéis (sua concepção de convivência com outras pessoas); Alex uma pessoa que vive no meio-termo de hotel/lar e na outra ponta Nathalie uma pessoa que necessita de família e laços afetivos (apesar da sua profissão a tornar uma pessoa que desfaz vínculos).
Este triângulo “profissional” irá fazer com que o espectador pense sobre a busca da felicidade, os relacionamentos humanos, as escolhas na vida e as razões que temos em viver desta ou daquela maneira. Além é claro de fazer questionamentos sobre a possibilidade de se ser feliz sozinho sem laços afetivos algum. Ryan acredita que sim. Alex vive, aparentemente, da mesma forma, mas não acredita numa vida tão solitária. Nathalia, apesar da profissão, acredita piamente no amor.
O filme é interessante sobre todos os aspectos levantados acima e faz com que o espectador fique atento aos diálogos e discussões sobre estes temas tão relevantes que são os relacionamentos humanos. Ficou muito estranho, e até certo ponto muito contraditório, o momento em que Ryan convence o cunhado - que estava prestes a desistir do casamento - a subir ao altar. Bem ao estilo de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Como alguém tão convicto no celibato convence alguém a casar? Então ficamos com a pulga atrás da orelha. Mas não por muito tempo. Percebe-se igualmente que Ryan, apesar de toda sua ojeriza ao casamento, em certo momento está disposto a viver com Alex. A cena em que ele aparece à porta da casa de Alex para, com certeza pedi-la em casamento ou mesmo para pedir que ela venha a viver em sua companhia, é ilustrativa. Seu constrangimento e sua tristeza por não realizar este sonho são evidentes e porque não dizer dolorosos.
Para quem não viu os extras do DVD vai aqui uma mostra do quanto esta vivência solitária era mais uma questão de rotina profissional do que propriamente um preferência pessoal. Estava mesmo era muito a fim de ter uma companhia e estava, de certo modo, a procura de sua cara metade. Só não tinha encontrado ainda alguém que o tivesse fisgado. E quando encontrou Alex, suas teorias foram por água abaixo. Mas o diretor Jason Reitman preferiu deixá-lo sozinho no limbo da “felicidade possível”. O que de certa forma foi toda a tônica do filme. Mas nos tais extras do DVD como eu ia dizendo, aparece Ryan adquirindo (ou alugando) um aconchegante apartamento, comprando móveis e o decorando completamente para torná-lo um ambiente muito humano e acolhedor. Inclusive espalhando flores por todos os cantos. Ou seja, estava feliz e disposto a lançar também sua “âncora” em um porto seguro ao lado da mulher amada. Mas confesso, tristemente, que ficou muito clichê realmente e o diretor preferiu excluir esta vivência do personagem (ou mesmo esta ruptura do discurso de toda a trama). Ficamos assim na dúvida se as escolhas deste estilo de vida de Ryan eram suas convicções profundas ou só uma questão de rotina profissional. O Diretor escolheu pela felicidade possível. Ficou coerentemente triste. Ficou ao menos honesto com todo o desenrolar e o discurso da trama proposta pelo roteirista. Outra cena excluída talvez seja parte de um sonho de Ryan em que ele aparece vestido de astronauta chegando ao aeroporto, pegando um taxi e ao chegar ao seu edifício começar a subir e subir como um balão até ver a cidade do alto. Nada mais sozinho que um astronauta. Sua visão angustiada do cenário aos seus pés imaginando talvez as pessoas abaixo com suas felicidades de uma vivência a dois.
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Crítica: Fúria de Titãs
Valdeci (25/08/2010 16:38:08)
Mais uma vez Hollywood fica nos devendo um filme à altura da mitologia grega! Fúria de Titãs, dirigido por Louis Leterrier é somente mais um filme de efeitos especiais e nada mais. Os personagens são fracos, com diálogos dos mais pobres e rasos possíveis e a interpretação de todos, sem exceção é um porre de dar sono! Nem mesmo os tais efeitos especiais (sempre eles) conseguem ser algo que mereça destaque. Nada do que é mostrado nesta produção é algo novo ou espetacular. Nada que já não estejamos cansados de assistir. Não surpreendem mais. Nem com a tecnologia 3D este filme funcionaria. Uma pena terem gastado tantos milhões de dólares para não acrescentarem nada de novo ou mesmo um filme digno de ser revisto. Vai ficar juntando poeira nas estantes já que ninguém terá vontade de revê-lo algum dia.
É uma perda de tempo falar da interpretação de Liam Neeson como Zeus, Sam Worthington como Perseu, Gemma Arterton como Io. Talvez, digo talvez Ralph Fiennes tenha muito remotamente conseguido dar um pouco de credibilidade ao seu Hades. Todos os personagens aqui citados não merecem uma nota de consideração e muito menos de louvor. Aliás, o diretor não os exigiu e o roteirista os relegou a meros coadjuvantes de uma história ridícula (não a mitologia grega, claro), mas a colcha de retalhos em que transformou a mitologia nesta produção infantil e tola. Verdadeiro filme Sessão da Tarde para crianças olharem enquanto tomam o lanche e a babá folheia revistas de fofocas. Escrevi demais. Chega. Não vale à pena gastar meus dois neurônios nesta produção medonha onde nem os tais efeitos especiais conseguem surpreender.
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Hanami - Cerejeiras em Flor | Crítica
Valdeci (12/08/2010 17:03:46)
Hanami é uma festa tradicional japonesa de “apreciar flores”. O povo costuma fazer piquenique para comemorar as cerejeiras em flor que para eles possuem inúmeros significados: vida, continuidade felicidade e simplicidade. Além de ser a flor símbolo do Japão. Elas só florescem uma vez ao ano e dura cerca de uma semana. Por esta razão o povo fica em festa com suas cerejeiras em flor! Através desta metáfora do florescimento e da “continuidade” da cerejeira é que a roteirista e diretora Doris Dorrie conta sua comovente história do casal da terceira idade Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner).
Rudi Angermeier é um homem que detesta aventuras e leva uma vida pacata e tranquila. Acostumado com a rotina diária de levantar-se para ir ao trabalho e voltar ao fim do dia para casa, colocar seus chinelos e tomar sua cerveja. Não tem ambição alguma. Apenas um lema: “Uma maçã todo dia, a ida ao médio adia” Todavia, sofre de uma doença incurável e tem poucos meses de vida. Não sabe disso, já que sua esposa Trudi esconde a verdade.
Trudi Angermeier é uma mulher sonhadora que vive em função do marido. Relegou todos seus sonhos e suas fantasias para ser a companheira inseparável de Rudi. Soube da doença do esposo e sente que precisa fazer alguma coisa de importante para dar algum sentido a sua existência e a do querido companheiro. Sempre sonhou em conhecer o Japão e visitar o Monte Fuji além de ser uma amante da dança Butô (“Bu” significa dança, e “toh”, passo. Butô combina dança e teatro, em espetáculos centrados em temas como o nascimento, a sexualidade, o inconsciente, a morte, o grotesco. O corpo é esvaziado de referências culturais e se entrega a todo tipo de metamorfose). Quando recebe a notícia da doença de Rudi ela resolve convencer o marido a saírem do interior da Alemanha e visitar os filhos em Berlim como forma de aproximar a família nos últimos momentos.
Em Berlim reencontram os filhos Karolin, lésbica, e Klaus, casado e pai de duas crianças, que se mostram indiferentes a chegada do casal. Não possuem tempo, paciência ou mesmo afinidades entre eles. Os netos parecem desconhecer os avôs e a filha não tem a menor vontade de ficar “fazendo sala” para os pais. Assim o casal sente a indiferença dos filhos e netos e uma grande tristeza os acomete. Trudi – sabendo da doença do marido – resolve insistir na convivência entre eles na tentativa de aproximar a todos neste momento difícil. Mas para surpresa geral Trudi é encontrada morta pela manhã deixando Rudi inconsolável. Como forma de lembrar-se da esposa perdida e também para sentir-se mais perto dela, parte para o Japão para passar alguns dias em companhia de seu filho caçula Karl Angermeier (Maximilian Bruckner) que vive em Tóquio. Da mesma forma como seus irmãos não disponibiliza de tempo para fazer companhia ao pai e o abandona à própria sorte.
No Japão Rudi vive sozinho pelas ruas de Tóquio sem entender o idioma, a escrita e os costumes. Esta metáfora da “incomunicabilidade” é interessante já que – apesar de estar na companhia do filho – não consegue se comunicar ou se fazer entender e a afetividade entre ambos se anulam. Em seus passeios pela cidade conhece uma jovem dançarina de butô (papel de Aya Irizuki) que o transporta para um novo universo de compreensão, simbolismos e sensibilidades. Reencontra desta forma a paixão da esposa pelo país e a vontade que tinha de conhecer o Monte Fuji. Resolve então embarcar com a jovem dançarina para conhecer o Monte Fuji e a beleza simbólica da dança Butô para e assim estar mais próximo da querida mulher.
O filme é de uma beleza estética fantástica (pelas cerejeiras em flor), cenários naturais belíssimos e é claro pela interpretação de todo o elenco que supera, em muito, as expectativas dramáticas de uma produção que pretende tratar de assunto tão delicado. A cena em que a jovem dançarina faz seu bailado tendo como elemento um telefone é bárbaro. Seu simbolismo não poderia ser mais explicito: A Falta de comunicação entre pessoas que se amam; a rotina que distancia pessoas uma das outras e as pequenas declarações de afeto que não verbalizamos as pessoas que nos são caras. A incomunicabilidade dos amantes… A indiferença dos filhos… E, acima de tudo, a rotina que nos embrutece e silencia. Um filme de inúmeros simbolismos. Outra cena interessante é o momento em que Trudi resolve mostrar a Rudi a beleza da dança Butô. Ela parece querer aproximar o marido para a sua própria perspectiva de vida e trazer-lhe para o entendimento da beleza e do afeto. Como a dizer: Eu estou aqui, eu existo e, por amá-lo, perdôo por sua falta de comunicabilidade. E esta “comunicação” ele vai buscar depois como a querer reconciliar-se com a esposa e a finalmente entendê-la e amá-la muito mais. Não é à toa que usa as roupas da mulher em sua viagem. Veja o filme de espírito leve e não se acanhe em chorar ou a encontrar beleza nos clichês. Às vezes clichês nos dizem verdades que insistimos em não ver ou a acreditar.
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Crítica: Ilha do Medo
Valdeci (05/08/2010 18:13:36)
Realmente eu também percebi este "erro" em relação ao cópo d'água. Mas acredito que tenha sido mesmo um falha de continuidade.
Será? Agora fiquei na dúvida hehehehee
O Sonho de Cassandra
Valdeci (05/08/2010 16:32:00)
Woody Allen é, sem sombra de dúvida, um excelente roteirista, diretor e humorista. Seus filmes sempre surpreendem pela criatividade (ou seria genialidade?). Isso, genialidade! Acima de tudo pela grande capacidade de Allen em contar uma história de forma eficiente, emotiva e humana. Quem acompanha seus trabalhos cinematográficos (assim como eu) percebe que ele tem uma paixão pela mitologia grega, pelo suspense e é claro pela comédia existencialista onde o próprio Allen é o personagem hipocondríaco principal. Assim como em Poderosa Afrodite, a produção de O Sonho de Cassandra também possui elementos mitológicos e suas tragédias paralelas sobre ambição, riqueza, poder, pecado e morte. Um drama dentro de elementos cômicos. Bem ao estilo Woody Allen de filmar. Ao ver o cartaz do filme já se tem uma pista que alguma tragédia irá acontecer ao notarmos que uma listra amarela, ao estilo que a polícia utiliza para demarcar cenas criminosas, ultrapassa – de ponta a ponta – todo o cartaz. Sem contarmos é claro o título “premonitório” que nos remete ao personagem mitológico Cassandra (filha de Príamo, Rei de Tróia e Hécuba). Cassandra era tida como louca por fazer previsões trágicas e só transmitir notícias ruins ao povo. Como ninguém lhe dava crédito ou sequer acreditava nas suas trágicas previsões Tróia acabou destruída e o povo exterminado ou escravizado. Assim, o Cartaz do filme “O Sonho de Cassandra” nos avisa que uma tragédia está por vir. Mesmo com estas pistas somos levados, por um roteiro interessante, a conhecer os motivos que levaram os personagens a encontrarem seus destinos.
Ian (Ewan McGregor) é um cara que trabalha com o pai administrando um restaurante da família. Vive de aparências sonhando ser um homem de grandes posses dirigindo carrões caríssimos que pede emprestado da oficina mecânica onde trabalha seu irmão. Frequenta lugares badalados e desfila pelas redondezas com belas mulheres fingindo ser o que não é. Boa pinta, sempre bem vestido e uma lábia de encantar as moças do lugar. Quer entrar no ramo de hotéis na Califórnia, mas não tem um tostão furado nos bolsos. Seu irmão Terry (Colin Farrell) trabalha em uma oficina mecânica de carros de luxo. Também tem altos planos para o futuro, mas seu salário não cobre tais despesas. Assim, entre um jogo de pôquer, corrida de cachorros e outras tantas apostas, vai defendendo uns trocados a mais no fim do mês. Quando surge a oportunidade de comprar um pequeno barco os sonhos de grandeza tomam conta dos irmãos e os sonhos começam, aos poucos, tomarem ares de realidade. Mesmo que pequena tal aquisição meio que dá ânimo para que ambos possam aspirar a algo mais grandioso. Batizam o tal barco de O Sonho de Cassandra. Terry com sua compulsão pelo jogo acaba devendo mais do que pode pagar e a situação se complica (e muito) para esta família já tão endividada e de poucos recursos. A saída para tal enrascada é buscarem ajuda ao tio Howard (Tom Wilkinson) um milionário dono de clínicas de cirurgia plástica espalhada pelo mundo que está para chegar à cidade em uma visita familiar.
Ao pedirem um empréstimo ao milionário tio para pagarem suas dívidas e construírem seus castelos de sonhos Howard aceita ajudá-los desde que eles também possam fazer um “pequeno” favor em retribuição: Matar seu contador que está prestes a servir de testemunha em um caso que o levará a ruína. O que poderia ser a salvação da lavoura acaba por tornar-se um verdadeiro pesadelo. Como um pacto Mafioso para defenderem os interesses da família os irmãos resolvem aceitar o caso. O problema surge em como dar cabo de tal tarefa já que ambos, apesar dos pequenos golpes e trapaças, não são assassinos profissionais e morrem de medo das consequências e dos desdobramentos futuros por ato tão drástico e fatal. De qualquer forma seguem o plano de assassinar Martin Burns (Philip Davis) e assim conseguirem realizar seus planos financeiros e ajudar o tio milionário a não ser preso.
Evidente que tal assassinato requer certos cuidados e torná-lo uma realidade requer ainda mais preparo psicológico e logístico. Como executá-lo? E principalmente, como conviver com isso na consciência? Ian até que consegue digerir a idéia e executar o plano com mais naturalidade. Terry por outro lado aceita participar de tal plano, mas enfrenta grandes problemas de consciência e dilemas morais e éticos. Mas o plano segue firme e, após praticarem o crime, Terry resolve entregar-se à polícia para redimir-se de seu ato. A velha questão de Crime e Castigo... Começa então outro desdobramento na narrativa. Como fazer com que Terry desista desta loucura de incriminar a família e a si próprio? Causas e conseqüências. Toda a escolha tem seus desdobramentos e a consciência começa a pesar na mente conturbada de Terry. Ian que agora está apaixonado pela a atriz Angela Stark (Hayley Atwell) não pretende ver seu sonho desfeito e ter que viver atrás das grades. O destino está traçado e nem mesmo as previsões da mitológica Cassandra os livrará dos caminhos que terão que percorrer. Neste ponto Allen mostra um filme mais dramático e as atuações meio canastronas de Colin Farrell não prejudicam muito a narrativa. Apesar da reviravolta (um tanto quanto previsíveis como citei acima) o fim é abrupto como a ficar algo no ar ou argumentos ainda a serem explorados devidamente. De qualquer forma este é um filme de Woody Allen e por isso mesmo um filme que merece ser visto e apreciado.
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Crítica: Chico Xavier
Valdeci (31/07/2010 11:48:39)
Daniel Filho é um ótimo diretor de cinema, e acima de tudo, um homem sensível que conhece profundamente a alma feminina. Seus trabalhos como: Primo Basílio, A Dona da História, A Partilha e principalmente o seriado Malu Mulher provam sua competência em retratar, com sensibilidade, o universo feminino. Ao assistir ao filme Chico Xavier dirigido por ele fiquei surpreso ao constatar sua maestria também no universo da biografia. O que poderia parecer um filme enfadonho e sem grandes surpresas emotivas tornou-se uma produção muito interessante sob vários aspectos. Claro que contar a vida do médium Chico Xavier ajudou bastante já que se trata de uma pessoa iluminada, de uma vida de bons princípios humanos e de uma bondade sincera e cativantes. Mas filmes biográficos possuem suas limitações e Daniel Filho as enfrentou com competência e brilhantismo. A única coisa que me incomodou um pouco foi aquela forma de contar a história. Talvez se o diretor tivesse optado em contar a história de forma linear (sem aqueles pulos de tempo) teria sido mais agradável de assistir. Cansou um pouco aqueles flashbacks intermináveis. De qualquer forma é um filme que teve um grande apuro na Direção de Arte, Figurinos e é claro na caracterização dos personagens.
Tony Ramos já é figurinha constante nos trabalhos dirigidos por Daniel Filho e confesso que, apesar de ser um ótimo ator, não surpreendeu já que estamos acostumados aos seus gestuais e a sua forma de interpretação. Está na hora de Daniel Filho trocar de ator ou vai parecer que estamos assistindo sempre o mesmo personagem. Sorte que ele não era imigrante. Ouvir Tony Ramos novamente com sotaque seria o fim. A história paralela de Orlando (Tony Ramos) e Glória (Christiane Torloni) que tiveram o filho morto acidentalmente por um disparo de revólver proferido por seu melhor amigo de infância deu a dimensão da humanidade de Chico Xavier ao psicografar uma mensagem de perdão ao suposto assassino. Giulia Gam como a “madrasta má” foi surpreendente e deixou marcas profundas na história e na pele do menino Chico. Ângelo Antônio perfeito como personagem título assim como Nelson Xavier em sua caracterização física de Chico Xavier no período de 59 a 75.
Enfim, para quem não conhecia a biografia do Chico Xavier vale a pena conferir esta nova produção de Daniel filho e constatar, mais uma vez, sua competência como diretor e sua sensibilidade em contar uma história.
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Crítica: Ilha do Medo
Valdeci (28/07/2010 18:25:00)
Tenho por hábito jamais ler comentários ou críticas especializadas sobre filmes que ainda não assisti. Até porque, não costumo frequentar mais as salas de cinema por falta de tempo e, como tenho locadora, espero o DVD chegar ao mercado para assistir aos filmes. Como isso ocorre uns quatro ou cinco meses depois que todo mundo já viu no cinema e a crítica já fez seus comentários procuro não deixar-me influenciar e também para não perder as surpresas que o filme me reserva. Gosto de assistir a um filme de mente aberta e olhos atentos e me deixar levar pelo roteiro e pela criatividade do trabalho do diretor em questão. Assim, ao começar a assistir ao filme Ilha do Medo, do grande mestre Martin Scorsesse já fiquei atento ao detalhe da trilha sonora pulsante e escandalosamente explícita do suspense que estava prestes a assistir. Quando o carro que transporta Teddy Daniels ao hospital presídio a trilha é arrebatadora e é impossível não se lembrar dos filmes de suspense e terror das velhas produções dos anos 30 e 40. Pensei com meus botões: Bem, será esta produção uma homenagem aos filmes daqueles tempos? Vários minutos depois esta impressão se confirmou com a homenagem a Alfred Hitchock, Briam di Palma e, pode ser exagero meu, mas consegui sentir a presença de David Lynch através da personalidade caótica de Teddy. A confusão deste personagem interessante e sua falta de perspectiva de perceber e diferenciar sonho e realidade, lembranças reais ou confusões mentais são muitíssimo reveladoras.
Em uma cena Teddy Daniels pergunta ao seu parceiro “É melhor viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”. Está, como se diz popularmente, matada a charada do enigma dos minutos que faltavam para o término do filme. Não que eu tenha descoberto o final e a reviravolta que veria a seguir, mas era, sem sobra de dúvida, uma grande pista que me deixou com a pulga atrás da orelha. Confesso que fiquei com vontade de rever este filme (e o farei com certeza) tal o impacto que ele me causou. Gosto muito desta temática paranóica e aquele ambiente claustrofóbico que vive o personagem principal. Sua confusão mental e suas lembranças chegam a ser dolorosa para quem assisti. Ter praticado aquela carnificina com os soldados alemães ao libertar os prisioneiros judeus no campo de concentração foi um ato que marcou profundamente sua personalidade e Teddy Daniels deveria viver com esta angústia. Ou fugir deste pesadelo. Aquela fotografia espetacular, aqueles figurinos com suas cores sóbrias, os ângulos de câmeras fabulosos e claro a iluminação perfeita foram responsáveis para caracterizar um ambiente propício para a loucura dos personagens, bem como para transmitir ao espectador toda a pressão psicológica enfrentada por Teddy.
Para quem ainda não viu o filme Teddy Deniels (Leonardo DiCaprio) é um agente da FBI que, juntamente com seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo) seguem para Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston para investigar o desaparecimento de Rachel solando (Emily Mortimer) uma paciente criminosa que teria matado, por afogamento, os próprios filhos. Ao iniciar os trabalhos investigativos no local, relata ao seu parceiro que também está procurando no hospício/presídio Andrew Leaddis (Elias Koteas) o homem que teria assassinado sua esposa. Ao ficarem isolado na ilha em razão de uma tempestade começa a desconfiar que no local devam estar havendo experiências humanas idênticas aos praticados pelos nazistas aos judeus. Lembranças de seus atos como soldado na segunda guerra interferem na sua capacidade descobrir o paradeiro de Rachel. Tais lembranças e o assassinato da esposa levam o espectador a cair em inúmeras armadilhas e a acreditar que descobriu o fim do filme. Mas Scorsese volta novamente a criar novas possibilidades e a desmoronar a certeza do entendimento final e assim, de armadilha em armadilha, vamos sendo guiados pela mão do mestre e seu roteiro muito interessante. Uma obra-prima de Martin Scorsese. Suspense na dose certa em um cenário muito bem construído para deixarmos presos nesta ilha de muitas surpresas e reviravoltas onde a verdade pode ser mais cruel que a imaginação psicótica.
Leonardo DiCaprio está perfeito como o conturbado Teddy Deniels e Mark Ruffalo desempenha seu papel de Chuck na dose certa com uma interpretação quase sutil de quem leva pela mão seu companheiro de investigação. Max Von Sydow como Dr. Reremiah é um achado e dá a esta produção um ingrediente de suspense bastante interessante. Pena que Ben Kingsley como Dr. John Crawley dá algumas pistas e parece ser o personagem mais caricato dos filmes de “cientistas malucos que fazem experiências com humanos” já vistos anteriormente em outras produções do gênero. Mas nada que comprometa.
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Crítica: Coco Antes de Chanel
Valdeci (26/07/2010 18:14:42)
Como o próprio nome indica, o filme trata de contar-nos a história de Gabrielle Bonheur Chanel antes desta figurinista de talento ser mundialmente conhecida por Coco Chanel. Mas este talento todo só conheceríamos tempos depois. Poderíamos supor que esta escolha deva-se ao fato da produção querer deixar de lado a fama propriamente dita da estilista bem como suas relações, prá lá de suspeitas, com o nazismo e seu colaboracionismo à ocupação Alemã na França na Segunda Guerra. Seu envolvimento com oficiais nazistas, seus inúmeros amantes, seus instintos de mulher revolucionária e as motivações que a levaram a ser um ícone, não só de moda, mas de liberação das “amarras” do figurino feminino estão de fora. Ou foram tratados de forma muito simplista e de maneira a tornar esta Coco Chanel mais como um produto do que como ser humano.
Mas vamos então analisar a “história” que nos conta o filme Coco Antes de Chanel dirigido por Anne Fontaine já que foi isto que o filme se propôs a retratar. Gabrielle (Audrey Tautou) é uma menina que fora criada e educada em um educandário. Anos depois sobrevive como mera costureira fazendo bainhas e pequenos consertos de roupas. À noite, para arrecadar mais alguns trocados, dedica-se a ser cantora em bordeis. Neste ambiente conhece um homem de muitas posses chamado Étienne Balsan que a introduz no mundo das pessoas ricas, elegantes e com ele vai ter um relacionamento tumultuado e, acima de tudo, vai observando os figurinos “escandalosamente suntuosos” destas senhoras. Percebe que as mulheres (e ela própria) vivem “amarradas” em seus espartilhos para manterem a cintura fina e seus vestidos que varrem o chão impedido seus movimentos livres e espontâneos. Seu primeiro movimento estilista surge em criar chapéus femininos mais discretos sem plumas, fitas exuberantes e toda aquela parnafenália de ostentação que fazem com que as mulheres usem uma verdadeira árvore de natal sobre as cabeças. Em seguida conhece "Boy" Capel, amigo de Balsan que lhe patrocina seu empreendimento na criação de chapéus e dá-lhe ainda liberdade de criação. Surge então seu segundo movimento de dispensar os espartilhos e libertar as mulheres das amarras e dar-lhes liberdade de movimento. Introduz ainda a calça dos homens ao guarda roupa feminino. Revoluciona assim a moda vigente de ostentação para uma moda mais discreta, mas elegante. Seu “pretinho básico” e sua filosofia de “mais é menos” ganha força entre algumas mulheres e o sucesso começa a acontecer. Tempos depois a casa Chanel surge como ícone da moda feminina moderna com seu estilo único, despojado e elegante.
Audrey Tautou está brilhante no papel de Coco Chanel e a Direção de Arte e Figurinos deram um show de competência. Pena que o filme deixou de lado a personalidade forte de Coco Chanel para centrar-se apenas no lado “bom” da mulher. Vamos considerar então esta produção como a primeira parte da biografia desta mulher revolucionária e quem sabe sejamos brindados com uma produção que retrate toda a personalidade e o caráter desta grande senhora. Afinal, deu para vislumbrar neste filme que existem outras tantas perspectivas de se contar história de Chanel. Quem sabe um filme com o título de COCO CHANEL para que o seu público possa admirá-la na sua amplitude. Com seus defeitos e suas virtudes. Que eram muitas. De ambos os lados.
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Crítica: Um Sonho Possível
Valdeci (24/07/2010 16:45:20)
Quando estava lá pela metade do filme Um Sonho Possível, dirigido por John Lee Hancock eu estava aguardando que alguma coisa de errado haveria de acontecer e desmontar toda aquela montanha de clichês em que esta produção estava soterrada. Não era possível tudo estar dando tão certo na vida de Michael Oher, o Big Mike (Quinton Aaron). Alguma coisa tinha que acontecer para desestabilizar todo este conto de fadas. Quando houve o acidente de carro em que ele quase mata o caçula da ricaça pensei: Ai está a desgraça que vai dar uma virada na história e mostrar-nos se a tal Anne Tuohy é mesmo uma boa samaritana ou estava só fazendo tipo “ricaça fútil que vira boa samaritana para poder dormir com a consciência tranquila nos seus lençóis de seda ou para impressionar as amigas igualmente ricas e fúteis da sua pseudo bondade”. Pois não é que tudo ficou na mesma e a ricaça ficou mais bondosa do que já era? Santo Deus! Não li o livro que a produção do longa se baseou para criar o roteiro deste conto de fadas do século vinte e um. Mas com certeza não deve ter sido este mar de rosas, não.
Em linhas gerais o filme conta-nos a seguinte história: Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock) é uma ricaça branca de bons princípios cristãos e humanitários, mãe de uma patricinha e de um guri pentelho, casada igualmente com um cara que não fede nem cheira que resolvem acolher na sua mansão um negrão pobre que fora abandonado pela família e que vivia sozinho no mundo. Todos os membros da família não vêem nesta atitude nada de estranho e a convivência é pacífica, bondosa, ordeira e na mais santa paz celestial. O paraíso terrestre, enfim. A Patricinha (com suas colegas de escola igualmente patricinhas), aceita tal convivência numa boa. Esta tem lugar garantido no céu. O caçula, além de serelepe e pentelho, é igualmente um anjo da guarda e recebe o “irmão” de braços abertos (desde claro possa chamar mais a atenção para si mesmo). O Marido? Este não faz nada mais que bancar tudo de bom grado. Afinal a família é cristã, humanitária e a mulher é quem manda e ponto final. Quanto ao Big Mike ele aproveita para tirar vantagem e viver como bom filho adotivo. É bom que se diga que o Michael Oher é um cara negro que passou a infância fugindo de lares adotivos uma vez que foi tirado de sua mãe viciada e que relegava a educação e mesmo a subsistência de uma penca de filhos. Para se isolar de tudo e todos vive no seu mutismo e aparente indiferença a tudo que acontece a sua volta. Mas ele encontra pela frente esta bondosa família e seu futuro está garantido. Claro que o choro é garantido e igualmente aquela sensação de que bom que exista no mundo gente de bom coração para ajudar os necessitados. Então você segue para o seu quarto para dormir o sono dos justos.
Tudo é tão perfeito neste filme que mais parece um “documentário” de como se tornar uma boa pessoa ou aqueles filmes institucionais de alguma entidade que deseja incutir na audiência a consciência social e a prática da bondade ao próximo. Quando parece que algum drama real vá surgir na tela, o diretor volta sua câmera para a emoção superficial e inverossímil. Ainda bem que ele colocou um pouco de riso neste lençol de lágrimas que é o jovem S.J. (Jae Head) que dá um pouco de refresco quando a coisa começa a ficar insuportável. Sandra Bullock ganhou o Oscar por sua atuação como Leigh Anne Tuohy, mas confesso que não vi nada de mais e achei até bem forçado. Quinton Aaron como Big Mike saiu-se muito bem. Mas o grande barato deste filme foi mesmo Jae Haed com o pentelho S.J. E pensar que tudo isso foi baseado em fatos reais. Bem, pelo menos não choramos à toa e existem realmente pessoas de bem neste mundo. Mas que não deve ter sido assim tão fácil. Com certeza não foi.
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Crítica: Entre Irmãos
Valdeci (23/07/2010 19:40:21)
A Guerra no Afeganistão continua rendendo roteiro para Hollywood. Entre Irmãos é mais um filme que trata deste conflito acrescido de todos os traumas psicológicos causados nos soldados e suas respectivas famílias. O Capitão Sam Cahil (Tobey Maguire) é um bom pai de família e apaixonado por sua esposa Grace (Natalie Portman). Tem duas filhas: Izzy (Bailee Madison) e Maggie (Taylor Geare). Para completar o irmão Tommy (Jake Gyllenhaal) é o que chamamos de “ovelha negra” da família e acabou de sair da prisão para cumprir a condicional. Seu pai, Hank (Sam Shepard), é um oficial do exército reformado que tem predileção por seu filho Sam e um desprezo por Tommy. Ao ser chamado novamente para combater no Afeganistão seu helicóptero é abatido pelo inimigo. Nos Estados Unidos a família recebe a notícia da sua morte. Para manter a família unida, Tommy assume algumas responsabilidades e começa a agir de forma a ser um sujeito respeitável e trabalhador. Seu relacionamento com a cunhada, antes bastante tumultuado, começa a dar sinais de melhora. Até as meninas começam a ter uma boa convivência com o tio problemático. Neste ínterim descobrimos que o capitão Sam Cahil foi capturado e é tido como refém do inimigo. Sofre horrores neste cativeiro e é obrigado a praticar um ato de extrema crueldade que lhe trará futuros problemas familiares e psicológicos.
Ao regressar ao lar encontra a esposa e as filhas já em franco progresso de familiaridade com o irmão. Percebe que alguma coisa está acontecendo e isola-se no seu mundo. Mas a angústia é tanta e a explosão acontece quando sua esposa diz que trocou alguns beijos com Tommy e uma das filhas diz, num jantar em que estão todos à mesa, que a mãe está fazendo sexo com o tio. As lembranças da guerra e o ato que fora obrigado a praticar para manter-se vivo e voltar para a mulher tornam sua vida um inferno. Seu relacionamento muda drasticamente e é internado em um hospital psiquiátrico. Neste segundo ato vamos perceber então todo o conflito existente entre o triângulo Sam, Grace e Tommy bem como as novas possibilidades de relacionamentos familiares. Interessante notar que todos são afetados pela guerra. Inclusive as meninas que sofrem com a volta de um pai psicologicamente instável e perigoso. Sofre igualmente Grace que agora se encontra numa encruzilhada de amar a dois homens e Sam por ver sua esposa numa situação bastante difícil. Claro que para Tommy também não é nada fácil ter que disputar com seu irmão o direito a também ter uma família que teve por poucos meses.
O filme é bastante verossímil no tratamento dos conflitos, angústias e medos de todos os personagens envolvidos nesta trágica guerra no Afeganistão e no seio de uma família americana. Foge dos clichês habituais e, por isso mesmo, chega a ser comovente em alguns momentos. Palmas para a interpretação de Bailee Madison como Izzy e Tobey Maguire na pele do Capitão Sam Cahil.
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Cadillac Records: Assista ao trailer do filme que conta a história da Chess Records
Valdeci (17/07/2010 16:54:36)
Para os amantes do Blues é uma delícia a trilha sonora do filme Cadillac Records escrito e dirigido por Darnell Martin. Você poderá ouvir algumas músicas que imortalizaram grandes nomes da música americana que originou posteriormente o velho rock. Vai conhecer um pouco da história da gravadora Chess Records (no Brasil conhecida por Cadillac Records) fundada por Leonard Chess (Andrien Brody) em Chicago que lançou nomes como Etta James (brilhantemente interpretado por Beyoncé Knowles), Chuck Berry (Mos Def), Muddy Water (numa interpretação interessante de Jeffrey Wright) e muitos outros. Um vasto painel musical dos
A primeira pare do filme confesso que fiquei meio perdido visto que a história corria rápido demais e tive a impressão que o roteirista quis apressar um pouco as coisas para chegar finalmente a retratar a gravadora no auge do sucesso quando lançava nomes que se tornariam famosos no blues, no jazz e o nascimento do rock. Infelizmente não conhecemos muito a história de Leonard Chess e seus pupilos no decorrer do filme. Apenas algumas pinceladas aqui e ali e a boa música de Etta James e seu relacionamento tumultuoso com bebidas, drogas e a profunda dor de não ter o reconhecimento de seu pai. Racismo, violência, drogas, sexo (muito sexo) e boa música são o que surgiu no caminho destes negros e sua fantástica criatividade musical. Um verdadeiro painel musical dos anos 40 aos anos 60.
A produção caprichou na reconstituição de época e figurinos. A interpretação dos atores é brilhante e convincente. Até mesmo a cantora Beyoncé dá seu recado com competência e Jeffrey Wrght idem. A trilha sonora como já disse é fantástica e é o personagem principal desta história. Após o término do filme é impossível não correr para a estante e procurar todos os discos de Etta James e deliciar-se. Procure no youtube que você vai encontrar vídeos destes grandes dinossauros da boa música negra americana e como os músicos brancos foram beber nesta fonte.
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Crítica: Alice no País das Maravilhas
Valdeci (16/07/2010 11:27:42)
Gosto muito do trabalho de Tim Burton. Seu cuidado em trabalhar a imagem, cenários, figurinos e, acima de tudo, sua assinatura inconfundível de transpor para a tela filmes essencialmente focados na “embalagem” muito mais do que no roteiro ou na história a ser contada. Ele parece um pintor gótico mais preocupado em misturar suas cores e transmitir seu expressionismo criativo indiferente ao entendimento racional da obra exposta. Ele quer mais “impressionar” seu público com sua criatividade ao transpor todo seu trabalho para um estilo gótico em cenografia e figurinos e desta forma cativar a audiência mundo a fora.
Em Alice no País das Maravilhas isto está mais que evidente. Ele preocupou-se mais em “vestir” os personagens do que retratá-los psicologicamente. Ou seja, ele colocou sua assinatura para fazer de Alice no País das Maravilhas mais um trabalho de Tim Burtun já que esta história foi inúmeras vezes retratadas no cinema por outros diretores. Seus cenários fantásticos e multicoloridos não deixam margem para uma interpretação do caráter e das motivações que levam os personagens a agir desta ou de outra maneira. Vamos combinar também que Mia Wasikowska como Alice não ajudou muito para torná-la uma pessoa interessante ou crível. Tudo bem que ela era uma moça de uma imaginação fértil e tudo mais. Mas não consegui, em momento algum, simpatizar com a interpretação distante desta atriz. Johny Depp como Chapeleiro Maluco até que dá um certo charme ao personagem. Mas já esteve melhor em outros trabalhos de Tim Burton como em A Fantástica Fábrica de Chocolate (com seu personagem mesquinho e pra lá de maquiavélico) e em Edward Mãos de Tesoura (pura sensibilidade). O que salva mesmo o filme, em se tratando de personagens, é Helena Boham-Carter como a Rainha Vermelha de cabeção enorme e sua raiva em decapitar a todos.
Vale a pena ver esta Alice de “Tim Burton” no País das Maravilhas. Porque é justamente isto do que se trata esta produção de milhões de dólares. Visualmente é fantástico. Visualmente é Tim Burton. Pegue um saco de pipoca com manteiga, chame as crianças para a sala e bom divertimento.
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Crítica: A Estrada
Valdeci (15/07/2010 18:57:34)
Quando comecei a escrever este comentário sobre o filme A Estrada, dirigido por John Hillcoat percebi que não lembrava o nome do personagem principal do filme interpretado brilhantemente por Vigo Mortensen. Aliás, não conseguia mesmo lembrar nem o nome do garoto interpretado por Kodi Smit McPhee e muito menos o nome da mulher na interpretação de Charlize Theron, do Velho (Robert Duvall) e do veterano (Guy Pearce). Por mais que eu tentasse lembrar não conseguia. Como não sou crítico de cinema profissional não vou fazendo anotações no decorrer do filme (será que eles fazem?). Mas enfim... Então fui procura na capinha do DVD o nome dos personagens e lá também não constava. Só consegui tirar de lá o nome dos atores. Pesquisei na internet e nada. Ninguém me informava o nome dos personagens desta história prá lá de pessimista. Blogs, críticos, etc... etc... Ninguém informava este dado importante. Como não li o livro do qual o roteirista se baseou para escrever esta obra também não tinha este dado. Mas então me dei conta que esta é uma história da condição humana e das consequências dos atos de todos nós como seres humanos viventes neste planeta azul. Assim, é evidente que os personagens não possuem nomes próprios porque eles representam cada um de nos: homens, mulheres, crianças, pretos, brancos. Todos estão, de alguma forma, representados neste drama de desesperança. Só agora escrevendo estas linhas é que percebi (a inexistência de nome dos personagens) a verdadeira amplitude do recado e da mensagem do filme. Sim, porque todo filme tem uma mensagem ou uma moral a ser divulgada (os filmes bons, evidentemente). Alguns filmes são puro entretenimento e não se preocupam (e nem deveriam) se preocupar com estas questões. Outros nem se quer merecem qualquer comentário.
Para definir o personagem principal deste filme (“o homem bom”) poderíamos usar uma palavra: Teimosia. Ou talvez duas: Teimosia e sobrevivência. Mas teimosia se aplica melhor visto que ele lutava, não por uma sobrevivência já que não tinha perspectiva de futuro, mas por pura teimosia de continuar para o Sul e quem sabe, muito remotamente, talvez encontrar algo que valesse a pena continuar a viver. Talvez esta teimosia em manter-se vivo e na estrada fosse para proteger o filho (“o garoto bom), mas nem este estava mais disposto a viver nesta miséria e com o medo de ser devorado pelo canibalismo reinante nestes tempos funestos. Assim, porque lutava e teimava em viver este homem? Fé ele não tinha... Esperanças raríssimas... Sobrevivência da espécie humana? Talvez. Mas qual o motivo de lutar por uma vivência completamente animalesca sem nenhuma gota de racionalidade, civilidade e humanismo? Instinto poderíamos supor. Mas o homem viveu por instinto na era das cavernas e evoluiu. Será que o “Homem Bom” tinha, lá no fundo da sua alma, razões para acreditar que superaríamos esta hecatombe e surgiríamos novamente como seres pensantes? Quero crer que sim, caso contrário toda a luta seria inútil e morrer a única solução.
A mulher não teve falsas esperanças e saiu porta a fora ao encontro da morte deixando para trás seu filho e marido. Pela estrada só encontravam destroços, fome, frio e morte. Muitos encontraram conforto no suicídio e outros devorados pela fome de seus semelhantes. Interessante notar que o “homem bom” tinha duas balas no revólver e estas representavam muito mais do que uma simples defesa, a certeza de poderem utilizá-las para encontrar a mãe (desejo explícito do garoto) e a segurança de uma morte rápida (desejo do homem). Pela estrada outros personagens igualmente desesperançosos vão surgindo e a certeza de que a raça humana extinguiu-se ou devorou-se. Num cenário frio, cinza de árvores desfolhadas ao chão chorar talvez seja a única maneira de pedir desculpas pela própria desgraça e entender que, apesar das lembranças em cores, o futuro é sombrio. A única certeza que tive ao ver este filme é que preciso ler o livro e entender melhor toda esta desesperança, pessimismo e encontrar alguma razão para tudo isso. Talvez um alerta. Mais um alerta neste momento em que Hollywood se volta para filmes apocalípticos. Que possamos tirar alguma lição de tudo isso e não fiquemos depois a sonhar colorido numa estrada deserta com frio, fome e medo. Esta é a mensagem do filme.
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Crítica: Guerra ao Terror
Valdeci (10/07/2010 20:01:56)
Na época do Oscar sempre surge uma velha questão: O Oscar influencia a bilheteria de algum filme? Eu tinha minhas dúvidas sobre este fato. Mas é inegável que em um caso específico ele foi fundamental. Estou me referindo ao filme Guerra ao Terror que levou o Oscar de Melhor Filme na última edição. Dirigido por Kathryn Bigelow (também agraciada como a Melhor Direção) este filme surpreendeu a todos pela visibilidade inesperada e por ter recebido seis estatuetas douradas.
Neste caso específico o Oscar influenciou a bilheteria. Não só isso, fez com que os próprios produtores corressem atrás do prejuízo comercial e lançassem o filme novamente em uma maior quantidade de salas americanas. No Brasil, ele se quer foi lançado no circuito de salas de cinema, passando direto para DVD. Eu, como dono de locadora ha 17 anos também não acreditei no filme e, na época do seu lançamento há mais de um ano, também não disponibilizei na locadora. Agora estou correndo atrás do prejuízo. Sinal direto da premiação do Oscar. Até então, ninguém tinha procurado por Guerra ao Terror na locadora e, a grande maioria, nem sequer sabia de sua existência. Depois daquele domingo no Teatro Kodak a coisa mudou. E muito.
Só fui assistir ontem à noite a Guerra ao Terror. O filme realmente impressiona pela qualidade da direção de arte, pela direção competente de Bigelow e pelo excelente desempenho de Jeremy Renner na pele do destemido sargento William Jemes. Apesar de ser um filme de guerra (assim foi classificado), eu diria que é um bom filme de suspense muito bem articulado visto que as cenas de explosões e tiroteios, que se esperaria de um filme do gênero, não acontece de forma gratuita. A cena que o pelotão fica encurralado pelo inimigo escondido num casebre é fantástica. Assim como a cena do Sargento William James desmontando as bombas escondidas num carro em frente ao prédio da ONU.
Mas a razão deste comentário, no entanto diz respeito a uma outra cena e num ambiente bastante diferente. Seria cômica não fosse trágica. A cena em questão é a seguinte: Ele termina sua missão e volta para casa depois de ter desmontado inúmeras bombas e ter colocado a sua vida (e a de seus colegas) em risco por diversas vezes. James, a esposa e o filho pequeno estão no supermercado e ela pede que ele vá pegar os sucrilhos em outra estante. Ele encontra um corredor enorme com centenas de pacotes do cereal. De todas as formas, cores, tamanhos e preços. Olha pra esquerda tem sucrilhos, olha para a direita tem mais sucrilhos ainda. E agora? Qual levar? A cena fica alguns minutos neste “suspense”. Ele deve ter pensado: É mais fácil ter que escolher o fio azul ao vermelho em uma bomba letal do que escolher sucrilhos! Na cena seguinte ele aparece embarcando novamente para 365 dias de novas missões como o destemido homem que desarma bombas.
Interessante este aspecto colocado por Bigelow. Parece uma cena trivial e até engraçada. Mas ela quer dizer muito mais que isso. Não fosse o fato de mostrar, na cena seguinte, que ele desiste da família para voltar para o campo de batalha. Evidentemente não foi a compra do maldito sucrilho que desencadeou todo este processo. Mas fica claro que ele não tem um relacionamento familiar completo com a mulher e, apesar de amar o filho, também não tem um vínculo afetivo tão forte para mantê-lo por perto. Apesar de salvar vidas de estranhos e de se importar muito mais com outras pessoas, ele não consegue ter vínculos com sua família. Prefere arriscar a vida e neste aspecto buscar um sentido para ela a ter que ficar e criar raízes. É mais fácil para ele salvar a vida dos outros do que salvar a sua própria. No filme isto fica bem claro pela forma quase irresponsável como ele atua no desarmamento destes artefatos letais.
Um filme para se assistir por diversos ângulos e perspectivas. Mas a cena do supermercado foi a que mais me impactou e a que mais me fez refletir sobre esta obra. James poderia fazer uma guerra ao descaso familiar e, antes de salvar a humanidade, salvar a si próprio. Talvez seja este o recado do filme.
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Crítica: Atraídos pelo Crime
Valdeci (10/07/2010 19:30:21)
Na primeira cena do filme Atraídos Pelo Crime, dirigido por Antoine Fuqua, dois sujeitos estão conversando em um carro estacionado numa rua deserta em uma noite qualquer no Brooklin. O diálogo que se segue é interessante e vai dar a tona do roteiro e a premissa que será tratada durante o decorrer dos próximos 132 minutos do filme e as nuances dos personagens envolvidos nesta trama policial como se verá. Aliás, mensagem esta nada subliminar já que mais explícita seria impossível. A frase que vai dar sentido a tudo é: “Não se trata do que é certo e errado, mas do que é mais certo e menos errado”. Nesta corda bamba de moral e ética (ou a falta deles) é que os personagens vão circular e interagir com bandidos e mocinhos. Aliás, quem é mocinho e bandido é outra questão interessante, visto que a fio da navalha (ou o cano do revólver) é um tanto quanto tênue para um lado ou outro. Dependendo da situação e do desenrolar dos fatos. Para entender melhor o contexto que a frase acima mencionada é incluída nessa história é interessante debruçar-se sobre o perfil psicológico de cada um dos personagens bem como sua co-relação com a mesma. Todos os personagens possuem suas histórias paralelas e as razões para agirem desta ou daquela maneira (ora mocinho - representado pelo distintivo policial - ora bandido).
Caz (Wesley Snipes) traficante recém-libertado e o ponto central deste quadrilátero vicioso por onde circulam os outros personagens. Ele é a pessoa a quem os demais estão imbuídos a prender e colocar ordem no bairro. Sua gangue é a veia aberta por onde esvai todo o sangue humano de inocentes e o grande responsável pelos viciados anônimos, cafetões inescrupulosos e demais habitantes do Brooklin dispostos (ou não) a serem atraídos para o crime.
Tango (Don Cheadle) é um policial infiltrado na gangue de traficantes com todos os elementos humanos perniciosos contidos neste tipo de grupo social e liderados por Caz. Todavia, esta relação acabou infiltrando-se na sua personalidade e agora não consegue mais “situar-se” como indivíduo. Não sabe mais se é o mocinho ou o bandido. Sua relação com o líder da gangue deixou marcas profundas na sua psique e sua moral e ética já se encontram muito tênues, pra não dizer perigosa. Sua luta interna é cruel na medida em que tem o dever, como autoridade policial, de por fim a tal gangue, mas não consegue desvencilhar-se das amizades que surgiram nestes dois anos de convivência. Para manter-se na gangue sem levantar suspeitas praticou igualmente alguns crimes e precisa igualmente encontrar uma maneira de sair desta enrascada antes que seja tarde demais. Gosto muito deste ator e ele faz uma boa interpretação.
Eddie Dungas (Richard Gere) é um “tira” que tem uma vida solitária que está a sete dias da tão aguardada aposentadoria. Sua única relação humana mais íntima restringe-se a uma prostituta. Por décadas foi policial de rua e por certo enfrentou muitas dificuldades, perigos e, mesmo com seu distintivo e autoridade, viu seu distrito ser tomado pela violência e caos. Agora sem falsas ilusões e descrente da autoridade policial vive indiferente a contar os minutos para deixar seu uniforme e levar sua vida medíocre. Seu ideal de policial foi perdendo-se com o passar dos anos dando lugar à indiferença. Vive entre o suicídio (que tentou por duas vezes) e a apatia. Apesar da sua indiferença (omissões no dever) e das relações tumultuosas com seu chefe e colegas, é uma pessoa íntegra que está perdida neste ambiente de caos e desordem. Richard Gere pode até ser o queridinho das mulheres, mas como ator... Felizmente não compromete muito a dramaticidade do personagem.
Sal (Ethan Hawke). Sem sombra de dúvida é o personagem mais interessante e o que vive no fio da navalha. Está num beco sem saída, literalmente. Tem uma penca de filhos; sua esposa sofre de asma e está grávida de gêmeos; sua casa está tomada pelo mofo e o salário não cobre todas as despesas. Tem desejos de comprar uma casa nova com quartos individuais para os filhos e uma piscina, mas a grana não é suficiente no fim do mês. Tem consciência da sua obrigação moral de ser o homem da lei e defender os interesses dos cidadãos, mas sabe que sua tarefa é inútil e o dinheiro que recolhe em suas investidas contra o tráfico acabam servindo para comprar “móveis de mogno” e em tapeçarias para os escritórios da chefia e da prefeitura. Assim, procura faturar o seu também em propinas, pequenos desvios destes recursos do tráfico. Mas precisa sempre mais e mais e a tal casa com piscina precisa ser adquirida o quanto antes. Vive realmente uma situação limite entre a lei e o crime e sua última ação desesperada pode ser a última. Ethan Hawke tem uma interpretação digna, competente e impactante. Com certeza, um dos seus melhores desempenhos de interpretação.
A trilha sonora é pulsante como o sangue que se esvai em profusão. As ruas noturnas do Brooklin e seus “inferninhos” (cabaré ou boates para os leitores mais novos) com seus neons em vermelho chegam a ser claustrofóbicas e torna esta produção um exemplar notável de um bom filme policial.
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Crítica: O Segredo dos Seus Olhos
Valdeci (09/07/2010 15:30:20)
Em uma das cenas do filme O Segredo dos Seus Olhos o personagem Benjamín Espósito (Ricardo Darín) está olhando álbuns de fotografias de uma bela mulher em seus momentos felizes no casamento e em outras situações alegres da vida em família. Benjamín está investigando o brutal assassinato desta mesma mulher e procura encontrar respostas para desvendar o crime e encontrar o culpado por tal monstruosidade. Quem lhe mostra estes álbuns fotográficos é o viúvo inconsolado que vai citando, uma por uma, as pessoas presentes nas tais fotografias. Desta forma Espósito vai conhecendo um pouco melhor o passado e as pessoas que compartilharam com esta mulher os seus momentos mais íntimos. Ao examiná-las dá-se conta que, em várias destas fotos, a presença constante de um homem se faz presente. Uma em especial chama sua atenção: O tal homem mira a bela mulher com uma intensidade tão grande no olhar que não resta a menor dúvida da sua paixão e da intensidade de seus desejos. Este “olhar” apaixonado em particular é que dá o tom da narrativa e título ao filme. Desvendar os segredos deste olhar será para Benjamín Espósito o propósito de suas investigações e, acima de tudo, descobrir quem é este homem e seus verdadeiros sentimentos. Mas não é só neste olhar que se escondem segredos. Em outra cena o próprio Bemjamín também aparece em outra foto com o mesmo olhar de paixão platônica em direção a sua colega de trabalho Irene Menéndez Hastings (numa interpretação soberba de Soledad Villamil).
Este é um filme de olhares, de segredos, de amores platônicos e desejos não realizados. Vidas que se cruzam, mas que não produzem afetos mútuos de pessoas que se amam porque não possuem a coragem de declará-los e de vivê-los plenamente. Tudo fica no subconsciente, no desejo contido, no amor inalcançável e, por isso mesmo, inútil e sofrido. Passado e presente de amores impossíveis num círculo que vai e vem, mas que não se concretiza na vida real. Amores perdidos, desejos reprimidos e a felicidade colocada de lado por convenções morais e profissionais. A direção firme e contida de Juan José Campanella dá humanidade a seus personagens onde o maniqueísmo não existe já que não temos aqui os estereótipos de heróis e bandidos, mas pessoas normais com suas qualidades e defeitos. Até mesmo o personagem Pablo Sandoval, interpretado por Guilhermo Francella, um alcoólatra inveterado dá um toque cômico extremamente cativante das nossas deficiências.
Vinte e cinco anos depois deste brutal assassinato, Benjamín resolve escrever um romance sobre esta investigação e procura Irene, que ainda trabalha na procuradoria, para relembrar os fatos e pedir orientação sobre a publicação do livro. Em longos diálogos e lembranças do passado vamos descobrindo toda a trama daquele crime e seus desdobramentos, bem como das escolhas feitas por cada um dos personagens neste longo período de tempo e suas consequências. Muito mais que um simples filme policial ou político, Guilhermo Francella nos brinda com uma grande história humana e de paixão. Nos deixa ainda a esperança de que é preciso acreditar que a felicidade é possível, que amar e ser amado é viável, bastando para isso ter a coragem de assumir e declarar este amor. Dar oportunidade para que este amor floresça e que se perpetue através da convivência no plural.
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Vicky Cristina Barcelona
Valdeci (09/07/2010 10:11:17)
Ao assistir ao filme Vicky Cristina Barcelona, com roteiro e direção de Woody Allen foi impossível não fazer um paralelo com a obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Claro que a opção de Almodóvar não seria aquelas cores “frias” e neutras que Allen utilizou nos figurinos, cenários e ambientes naturais apesar do filme ter sido rodado em Barcelona. A trilha sonora com fundo do violão fantástico de Paco de Lucia na obra “Entre dos Aguas” talvez tenha contribuído para esta comparação cinematográfica entre os dois diretores que, aliás, não possuem nada em comum, exceto claro a genialidade e sensibilidade para contar histórias humanas. Demasiadamente humanas.
Além da excelente trilha sonora e da colorida e quente Barcelona os personagens ambíguos em seus sentimentos, o amor passional e quase destrutivo de Maria Helena e o triângulo amoroso improvável entre Vicky, Cristina e Juan Antonio deu-me a impressão de tratar-se de uma obra do cineasta Almodóvar. Até mesmo o humor sarcástico e exageradamente humano dos personagens contribuiu para esta comparação. Mas vamos deixar Almodóvar de lado porque se trata de uma obra de Woody Allen.
Vicky está fazendo sua pesquisa de mestrado sobre a cultura catalã e leva sua amiga Cristina a Barcelona para concluir seus estudos na Espanha e lá conhecem o pintor Juan Antonio que está em uma separação muito tumultuada com sua ex-mulher Maria Helena. Após um jantar Juan convida as duas amigas a conhecerem a cidade de Oviedo e quem sabe um fim de semana de muitas atrações turísticas e encontros sexuais. Claro que a recatada e noiva Vicky se escandaliza com tal convite o que é de pronto convencida a aceitar a tal proposta pela despachada e liberal Cristina. Assim, o trio parte para uma aventura de grandes possibilidades e talvez encontros calientes com o tal Juan Antonio em cenários históricos, culturais e gastronômicos de uma Espanha efervescente e libidinosa. Na primeira noite na cidade Cristina passa mal após o jantar e acaba ficando de cama durante alguns dias em razão da sua úlcera. Para aproveitar o tempo e não perder a oportunidade de conquista Juan leva Vicky a passeios turísticos por Oviedo e também para conhecer sua família e os lugares por onde ele andou na infância e tudo mais. Assim, inesperadamente e, apesar da relutância de Vicky ambos acabam na cama. Este fato irá desencadear outras situações já que Cristina, após recuperar a saúde passa a morar com Juan Antonio.
O tempo vai passando e de repente Maria Elena surge como um furacão novamente na vida do seu ex-marido aparecendo assim um triângulo amoroso a princípio dos mais perigosos, mas que acaba tornando a vivência um tanto quanto caliente e diversificada visto que todos se relacionam sexualmente. Nada muito explícito visto que no filme assistimos apenas alguns beijinhos entre Elena e Cristina. Enquanto isso Vicky vai levando sua vida normalmente com seu noivo com o coração na mão e a mente no amante espanhol. De repente o triângulo vira um quadrado amoroso dos mais improváveis até o desfecho mais improvável ainda.
Penélope Cruz na pele de Maria Elena é um deslumbre que ilumina as cenas toda vez que aparece com seu personagem passional e dos mais críveis neste círculo de pessoas um tanto quanto formais. Scarlett Johansson como a sensual e provocativa Cristina deixa seu recado com competência apesar de seu personagem ser um tanto quanto ambígua em seus sentimentos e objetivos de vida. Rebecca Hall como a “certinha” do grupo não compromete com sua paixão avassaladora pelo amante. Javier Bardem como o galante e conquistador Juan Antonio cumpre com competência sua função de macho dominador, conquistador e aglutinador destas três mulheres tão dispares entre si. Por fim vale ressaltar os cenários de uma Barcelona histórica, cultura e a beleza da sua natureza exuberante. Quanto à direção de Woody Allen pareceu-me que ele tenta fazer um filme mais europeu e “comercial” para atrair público ao cinema já que nos Estados Unidos seu cartaz está um tanto quanto em baixa. De qualquer forma Woody Allen é sempre um prazer de assistir.
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Crítica: O Livro de Eli
Valdeci (09/07/2010 10:05:03)
Filmes que tratam do fim do mundo têm público garantido nos cinemas e, por isso mesmo, lucro garantido na caixa registradora. Como dono de locadora situada em bairro predominantemente de evangélicos já percebi que eles adoram esta temática até como justificativas para a sua fé inabalável e como forma de argumentação para atrair mais fiéis a sua religião. Tenho vários clientes crentes que adoram dizer que o fim está próximo e que é preciso converter-se e aceitar a palavra de Deus para poder salvar-se do fogo eterno e tudo mais. Quem não é crente (evangélico) está perdido já que os “sinais” do fim do mundo são evidentes e reveladores. Sendo assim, a grande mensagem que deixam pelo caminho é: “Pegue sua Bíblia e converta-se o quanto antes, pois o fim está próximo”! Ao assistir o filme O Livro de Eli com direção de Albert Hughes e Allen Hughes foi impossível não fazer um paralelo com toda esta argumentação religiosa. No caso do filme a bíblia seria o futuro da humanidade visto que a hecatombe já ocorrera. Uma contradição visto que, pelo roteiro de Gary Whitta, foi justamente a guerra santa a responsável pela destruição do planeta. Claro que no filme ficou bem explícito que o uso do tal livro sagrado por parte de Carnegie (Gary Oldman) seria somente uma questão de poder e dominação e não uma questão de fé. Eli (Denzel Washington) sim tem uma fé inabalável e tudo faz para que a palavra de fé e esperança contida no livro possa servir de salvação e redenção da raça humana.
Todavia, existem algumas contradições no decorrer do filme que não prejudicam muito o espectador que só deseja assistir a um filme “catástrofe” com cenários em ruínas, cores sombrias e algumas cenas de ação para temperar tudo e não deixar o público indiferente. Para citar algumas contradições: 1) A causa da guerra foi a religião (guerra santa) razão pela qual todas as bíblias (ou livros santos) foram queimados. Como se explica então que é justamente a bíblia a salvadora da humanidade? Não iríamos cair na mesma armadilha e fazer exatamente as mesmas coisas e perpetuar a guerra para todo o sempre? 2) A terra foi devastada e a população sobrevive sem lei, ordem ou um poder controlador (presidente, governador, etc…). Quem determinou a destruição dos livros após a guerra se o mundo está em caos e sem autoridade? 3) Sendo a bíblia um dos livros mais vendidos de todos os tempos como se explicaria que só existisse apenas o “Livro de Eli” que ainda por cima é mais raro já que está escrito em braile? Claro está que, se houvesse sobrevivido um livro, não seria em braile já que a proporção de livros escrito desta forma é muito menor que o livro impresso de forma normal. 5) Se o futuro da humanidade depende da fé para reerguer-se porque a salvação veria justamente através da fé cristã que, no filme foi a responsável pela destruição e sofrimento? Seria mais lógico que os sobreviventes buscassem outras formas de apoio espiritual e religioso e assim encontrar ânimo e fé de um futuro promissor sem cometer os mesmos erros e seguir uma fé que fora responsável pelo apocalipse.
Apesar das contradições a metáfora sobre o livro em braile é interessante. Quantas pessoas hoje em dia possuem “conhecimento” sobre a bíblia e não fazem a leitura correta de seus ensinamentos. Os líderes da Igreja e Templos que fazem a “interpretação” da Bíblia ao seu bel prazer em interesses meramente pessoais e gananciosos esquecendo-se de transmitir o conhecimento da verdadeira fé e de uma vida realmente cristã ou evangélica. A igreja e outras religiões que fazem da Bíblia apenas um instrumento de poder, submissão do povo e, principalmente, usam este livro sagrado somente com o intuito de arrecadar fundos para seus templos e interesses escusos sem preocupar-se com as carências materiais e espirituais de seus discípulos. Quando Carnegie finalmente está de posse do livro não consegue lê-lo porque não possui a capacidade de interpretá-lo como muitas pessoas hoje em dia. Possuem o livro na estante, mas não o lêem como deve e não praticam suas palavras cotidianamente. Escondem-se atrás da Bíblia para estarem de bem com suas consciências, mas esquecem de praticá-la corretamente. Até mesmo Eli, que ao proteger seu livro, praticou inúmeras ações consideradas falhas espiritualmente falando, esquecendo-se de que o importante é a ação de bondade para com os semelhantes e tudo mais. Quando reconheceu isto, deixou seu livro para seguir a palavra em atos concretos. Ao ser perguntado por que deixou seu livro para trás responde que o importante não é as letras impressas que o livro contém, mas as ações que ele ensina e que devemos praticá-la para sermos pessoas de fé e verdadeiramente cristãs. Sua jornada para que o tal livro fosse impresso novamente deixando de ser uma mensagem “cifrada” (linguagem em braile para uma minoria em uma metáfora de poucos conhecedores da palavra sagrada) para uma literatura para a grande maioria onde o que importa é a ação humana da bondade, do perdão e da fé. A grande mensagem que eu captei do filme (se mensagem alguma ele transmitiu) foi de que só através do conhecimento poderemos ser livres e donos do nosso destino. Através do conhecimento individual de cada um é que será possível não sermos subjugados, escravizados e explorados por aqueles que se dizem os donos da verdade. Ler é importante. Ter o conhecimento mais importante ainda. Mas acima de tudo, é preciso praticá-lo dia-a-dia. Caso contrário, será um livro em “braile” e por esta razão seremos passiveis de sermos manipulados e escravizados por “cegos” da verdade e da fé.
A questão de saber se Eli é ou não cego é outra metáfora interessante. Vamos recorrer ao mesmos erros de aprendermos sobre fé através de alguém que não tem capacidade para nos ensinar o caminho? Seremos induzidos a seguir a interpretação de uma pessoa “cega” (não no sentido físico, mas espiritual) e assim termos um conhecimento errôneo da mensagem divina? Ou a cegueira aqui representada quer nos fazer entender que é preciso seguir outros caminhos e deixar-nos levar por nossos instintos humanos e praticarmos outras religiões e seguirmos uma fé mais centrada em uma vivência pacífica, harmoniosa com o homem e a natureza e na espiritualidade de ações práticas de verdadeiros filhos de Deus?