Agora, as colunas AQUI DENTRO e LÁ FORA se fundem e ganham uma periodicidade semanal. Era um projeto antigo e que vai servir pra gente dar mais vazão para as coisas que saem no Brasil e manter você também atualizado sobre o que está acontecendo longe das nossas bancas.
Vamos lá?
AQUI DENTRO:
PEANUTS COMPLETO VOL. 1
O QUÊ: Início de uma coleção que reúne os 50 anos da tira que apresentou Charlie Brown, Lucy, Linus, Patty Pimentinha, Snoopy e vários outros persongens famosos até hoje. O primeiro volume (de 25) traz as tiras de 1950 a 1952. A editora é a L&PM.
QUEM: Charles M. Schulz, que desenhou cada uma das quase 18 mil tiras dos personagens, ao longo das cinco décadas, além de ter acompanhado cada passo da popularização dos Peanuts, principalmente os famosos desenhos animados.
POR QUÊ: Sinceramente, nunca imaginei que a coleção completa de Peanuts, projeto ambiciosíssimo que a editora Fantagraphics começou em 2004 nos EUA, um dia sairia no Brasil. Quanto mais que sairia (quase que) exatamente no mesmo formato.
Sim, apesar do que nós mesmos noticiamos, Peanuts sai aqui inclusive em capa dura. Tem o mesmo número de páginas do original, as mesmas tiras (bem traduzidas), o mesmo material extra e o mesmo peso (quase 1 kg). A ousadia é invejável quando você lembra que há mais 24 volumes pela frente - nem a Fantagraphics completou a coleção nos EUA, onde saem dois livros por ano.
Há algumas pequenas diferenças entre as edições: a original tem sobrecapa sobre a capa dura, tradicional nos livros lá fora. E o projeto gráfico, criado pelo famoso quadrinista Seth, não foi seguido num detalhe que - por mais que seja preciosismo - dói um pouco nos olhos quando você tem as duas edições na frente: a brasileira não usa as famílias tipográficas do original, que dão a identidade clássica ao projeto. Mas, repetindo, é só para quem se preocupa com forma; o conteúdo é idêntico.
E falando desse conteúdo, bom, Peanuts tem talvez os personagens de tiras mais conhecidos do público brasileiro - embora, aqui, Snoopy seja a referência principal, e não Charlie Brown, como é nos EUA -, mas possivelmente uma das menos lidas. Todo mundo conhece Snoopy e Woodstock, mas nem todo mundo leu uma de suas histórias.
Peanuts sempre foi comedida no humor. Mesmo as famosas divagações filosóficas de Charlie Brown são mais resultado da análise aprofundada dos críticos do que a temática própria da tirinha - Schulz era um sujeito simples que desenhava apenas o que pensava da sua vida e infância tranquilas, o que achava que renderia uma piadinha para a leitura no café da manhã na América. Nunca foi mais ambicioso do que isso (o que provavelmente seja seu mérito).
Se você não estiver sempre lembrando que as primeiras tiras são dos EUA careta dos anos 50, é possível se perguntar onde está a punchline de algumas delas. A primeira, por exemplo, em que um garoto não identificado acaba a tira dizendo "o bom e velho Charlie Brown... como eu odeio ele!" é, imagino, incompreensível como piada para uma criança contemporânea.
Mas claro, o interesse aqui é o valor histórico. Talvez até recuperar tempos que, pelo menos no que se lembra da cultura pop, eram bem mais simples. Se você gosta de fazer viagem no tempo, ao menos com o cérebro, Peanuts Completo lhe dá várias horas de escapismo para um passado meio infantil, meio bobo. E, talvez por isso, feliz.
ONDE E QUANTO: Peanuts Completo Vol. 1 tem preço sugerido de R$ 68,00. Compre aqui com desconto.
LÁ FORA:
TALES DESIGNED TO THRIZZLE
O QUÊ: Coletânea das primeiras edições da série Tales Designed to Thrizzle, de Michael Kupperman, publicadas entre 2005 e 2008. A editora é a Fantagraphics.
QUEM: Michael Kupperman, ilustrador de Nova York que de vez em quando - infelizmente, muito de vez em quando - aventura-se nos quadrinhos.
POR QUÊ: Quem é fã do Monty Python's Flying Circus sabe que é uma heresia ousar comparar qualquer espécie de humor nonsense ao que a trupe britânica fazia nos anos 60 e 70. É quase impossível alcançar o surrealismo cômico que eles alcançaram - e esse "quase" é muito, muito, muito, deveras gentil, uma esperança de imaginar alguém que tenha conseguido.
Bom, vou ousar dizer que alguém conseguiu, sim. Se Tales Designed to Thrizzle não agradar a um fã dedicado de Monty Python, eu como meu papagaio empalhado.
Thrizzle - o título é uma brincadeira com séries clássicas da HQ americana, como Tales of Suspense, Tales to Astonish, Tales of the Unexpected - tem até a estrutura de um episódio de Monty Python, a cada edição. A segunda capa já traz tiras e comerciais falsos absolutamente surreais ("Você sofre de MACACOS NO CABELO?"; outro exemplo: stencils para pelos pubianos). De repente você vê Picasso perseguindo um hambúrguer que narra a biografia do artista. Picasso: "Fou fazer cubinhos de focê!"
Segue com Cobra e Bacon, personagens recorrentes mais famosos da série, uma dupla de investigadores de crimes que são realmente uma cobra e uma tira de bacon. A cobra apenas sibila, o bacon diz "acrescente-me em pedaços a saladas", "fico bom com ovos" e frases similares. Mais à frente, outra dupla - o físico Albert Einstein e o escritor Mark Twain - são policiais casca grossa em uma Nova York violenta dos anos 70.
Ainda tem Pagus, o meio-irmão de Jesus Cristo, e o verdadeiro deus que adoramos ao fazer árvores de natal e pintar ovos de páscoa - rituais, obviamente, pagãos. Pagus: "SIM! SIM! DECOREM AS ÁRVORES! MARAVILHOSO! RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ!"
Ok. Assim como Monty Python, não tem graça se você não ver - no caso, ler - com seus próprios olhos. Então prove: "Are Comics Serious Literature?", o robô que faz preliminares por você, a fantástica vida de Pablo Picasso, Cobra e Bacon e nosso querido Pagus.
E isso para ficar só em cinco das 160 igualmente fantasticamente surreais páginas. Elas começam com uma introdução do comediante Robert Smigel, que tem a frase de abertura mais fantástica de todos os tempos: "I have diarrhea, so I'll be brief." (Estou com diarreia, então serei breve)
É uma pena que a série tenha apenas uma edição por ano. O trabalho de Kupperman - que se espalha por várias revistas e jornais nos EUA, como New Yorker, New York Times, Believer, Nickelodeon e outras - já havia conquistado um público seleto (quem assiste ao seriado inglês The IT Crowd pode ver edições da série em destaque no escritório dos personagens). Com a coletânea, é hora de conquistar o mundo. Pelo menos o mundo do pessoal esperto que reconhece a genialidade de Monty Python.
ONDE E QUANTO: A coletânea, lançada em julho nos EUA, custa US$ 24,99 (R$ 45). A edição mais recente, a 5 (única que não está na coletânea), custa US$ 4,50 (R$ 8).
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