7

HQ: Batman: Ano Um

HQ: Batman: Ano Um

Rodrigo Monteiro
13 de Junho de 2005

Na segunda metade dos anos 80, a editora DC Comics resolveu que era hora de arrumar a casa. Naquela época a editora era povoada por um sem número de universos paralelos, cada um com seu próprio elenco de personagens, todos muito parecidos entre si. Era uma legião de Batmen, Super-Homens e Mulheres-Maravilhas, cada um advindo de uma dimensão paralela diferente. Era necessário fazer alguma coisa para enxugar aquele excesso de personagens, para que a DC pudesse entrar em uma nova era. A essa limpeza deu-se o nome de Crise nas infinitas terras. Nela centenas de personagens coadjuvantes - e alguns principais, como a primeira Super-Moça e o segundo Flash (Barry Allen) - perderam suas vidas no confronto contra as forças do poderoso Anti-Monitor. No final da série, entre mortos e feridos salvaram-se aqueles cuja relevância era essencial para a mitologia da editora.

O objetivo essencial de Crise nas infinitas terras era a redefinição dos principais personagens da DC, de forma a apresentá-los novamente a uma audiência mais jovem. Assim, todos os principais personagens da editora, em diferentes níveis de profundidade, tiveram suas origens revistas, mantendo algumas de suas características clássicas e adicionando novos elementos às suas mitologias. Para que tal empreitada desse certo, a DC escolheu a dedo aqueles profissionais que cuidariam de re-introduzir estes personagens aos leitores. O Super-Homem foi entregue a John Byrne, que simplesmente revolucionou o personagem, adicionando elementos à sua mitologia que até hoje despertam tanto o amor quanto o ódio dos fãs do herói kriptoniano; a Mulher-Maravilha ficou nas mãos de George Pérez, que produziu uma seqüência de histórias majestosa, fazendo com que o roteirista fosse até hoje considerado o autor definitivo da princesa de Themyscira; já Frank Miller foi incumbido de retomar as origens de Batman.

Miller trabalhou sua história como uma minissérie dentro de uma série regular (Batman #404-407), visitando os primeiros dias do Cavaleiro das Trevas. Melhor dizendo, não os primeiros dias, mas sim o primeiro ano de atividade do Homem-Morcego em Gotham City. Batman: ano um, como o próprio nome sugere, cobre exatamente os primeiros doze meses da vida de Bruce Wayne como Batman, recontando uma história que todo mundo já conhecia, mas adicionando novos elementos à trama.

Batman: ano um começa com o retorno do jovem Bruce Wayne à sua cidade natal, após um longo período de viagens pela Europa e Ásia. Viagens estas que Wayne aproveitou para adquirir e aperfeiçoar todas as habilidades e conhecimentos necessários para seu objetivo: o combate ao crime. Exatamente no mesmo dia em que Wayne retorna a Gotham, o então tenente James Gordon chega à cidade, egresso de Chicago, para assumir um posto na força policial da cidade.

A partir daí, Miller explora duas frentes diferentes ao longo dos quatro capítulos da minissérie. Uma delas é focada em Gordon e mostra como o tenente se impõe ante toda a corrupção que infesta a força policial de Gotham (combatendo-a por dentro com uma discreta, mas fundamental, ajuda de Batman) e como vai conseguindo cada vez mais apoio de imprensa e da opinião pública. Miller mostra as conseqüências sofridas por Gordon quando ele decide não participar dos esquemas sujos da polícia local e como isso afeta sua vida pessoal, culminando na descoberta de seu caso com a detetive Sarah Essen, e na tentativa de assassinato sofrida por sua esposa e filho recém-nascido. A forma como Gordon passa de antagonista a aliado do Homem-Morcego, sua desconfiança de que o playboy Bruce Wayne e o vigilante são a mesma pessoa, seus primeiros contatos com o promotor Harvey Dent e sua promoção a capitão são outros aspectos explorados por Miller, no intuito de estabelecer os paralelos que tornaram o futuro comissário e Batman não só aliados como amigos até certo ponto.

Outro foco de Miller, obviamente, é o próprio Bruce Wayne. A primeira tentativa frustrada de combater o crime, a consciência de que precisava trazer medo aos criminosos, a confecção do traje do morcego, os primeiros conflitos com a polícia e a relação de amizade com Harvey Dent são mostradas ao longo da série. A forma como o Batman conquista a confiança dos policiais honestos de Gotham e se torna um aliado poderoso da polícia também são mostrados ao longo da história, traçando um retrato bem acabado dos primeiros dias de atuação do Cavaleiro das Trevas.

Além de focar-se em Gordon e Batman/Wayne, Miller também mostra rapidamente a origem da Mulher-Gato, então uma prostituta que, inspirada pelos atos do Homem-Morcego, confecciona um uniforme para si, mas com o objetivo de se tornar uma criminosa. Alguns mafiosos, como Carmine Romano, que seria bastante explorado por Jeph Loeb em O longo dia das Bruxas e Vitória sombria, também são apresentados na minissérie.

Com arte de David Mazzucchelli e cores de Richmond Lewis, que dão um clima noir ao gibi, Batman: ano um não é tão revolucionária quanto Batman: o cavaleiro das trevas ou Batman: a piada mortal. Ela reconta a origem do mito do Batman, mantendo seus principais aspectos intactos, enquanto a atualiza para uma audiência mais moderna. Mesmo não sendo nenhuma revolução, Ano um ainda é uma das melhores histórias do personagem em todos os tempos e item essencial na coleção de qualquer fã do Homem-Morcego.


Compartilhar

Comentários (7)

O Omelete disponibiliza este espaço para comentários e discussões dos temas apresentados no site. Por favor respeite e siga nossas regras para participar.
Partilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas.

Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.

Willian Willian (11/10/2011 20:13:02)   169 1
Eu ainda não tinha... aproveitei e comprei!



sem avatar Alia (10/08/2011 22:37:57)   29 0
É a melhor história sobre o Batman já escrita. Fiel ao cerne dos personagens, maravilhosamente conduzida.



Diego Calixto Diego Calixto (08/08/2011 11:40:59)   2 0
Muito interessante... A história e a arte são muito boas, mas tenho que admitir, mesmo com as pessoas loucas pelo batman quererem me matar depois disso, que os filmes do Nolan lembram Ano Um...



Mari Mari (07/07/2011 13:36:52)   50 1
Clássico !
Sempre será um exemplo de qualidade em hq !



Carlos Carlos (20/04/2011 17:59:20)   32 0
Preciso adquirir essa edição urgentemente!



Caio Caio (20/04/2011 15:46:16)   33 1
Acho bem melhor do que "A piada Mortal".


Diego Miguel Diego Miguel (23/08/2011 17:33:51)   1 1
Somos dois.



None