WOLVERINE: WEAPON X
Mais uma série de Wolverine! Mais uma série solo de Wolverine, bom lembrar. Nos EUA, ele já tem Wolverine e Wolverine: Origins, aparece em Uncanny X-Men, Astonishing X-Men e New Avengers, e todo mês tem uma edição especial. É overdose de carcaju.
Algumas circunstâncias atenuam o caso de Wolverine: Weapon X.
a) O filme está aí, novos leitores merecem uma edição número 1.
b) A série principal de Logan está travada com a lenta produção de "Old Man Logan", por Mark Millar e Steve McNiven, e ainda vai mudar de nome e personagem principal).
c) Wolverine: Origins está em vias de cancelamento, por falta de motivo para existir.
d) O mais importante: Jason Aaron.
Aaron está em destaque no mercado norte-americano desde a minissérie da DC/Vertigo The Other Side, de 2006, que lhe rendeu o convite para uma série mensal no mesmo selo: Scalped - a qual já elogiei aqui. Com esse cacife, o cara logo foi chamado pela Marvel.
O que nem a Marvel lembrava era que, em 2002, Aaron havia começado sua carreira ganhando um prêmio "caça-talentos" da editora, que lhe concedeu a chance de ver seu roteiro de 8 páginas com Wolverine virar HQ. Ele não parou de tentar conseguir outros trabalhos com os editores da Marvel - mas eles só pararam para presntar atenção quando o viram fazedo sucesso na concorrência.
Aaron lembrou-os de Wolverine. Seu novo teste foi uma edição, a 56. Ele escreveu o que é, a meu ver, a melhor história, em anos, de Logan - aquela que tem o foco no cara que passa o dia metralhando o mutante, que está preso num poço (a Panini publicou em Wolverine Anual 2).
A Marvel seria louca de não contratá-lo para assumir a série mensal. Aliás, deu a ele também um contrato de exclusividade, que incluía assumir a série do Motoqueiro Fantasma. Mas, eventualmente, a Marvel foi louca, e Aaron ficou de escanteio, esperando "Old Man Logan" terminar para continuar a escrever histórias do cara das garras.
É aí que voltamos a Wolverine: Weapon X. É Aaron não só voltando, mas ganhando sua própria série com Wolverine. Com perdão do trocadilho, ele é o melhor no que faz.
A primeira edição é relativamente fraca e convencional, como a maioria das primeiras edições de uma nova série. Mas você sente que vem coisa boa por aí quando lê Wolverine xingando a mãe do amigo ou decepando a mão de um assaltante (nada de cena encoberta; e o sangue é bem vermelho). Aaron veio marcar território. Agora é esperar que ele aplique sua genialidade para destacar seu Wolverine no meio da onipresença do baixinho pelos gibis Marvel.
SECRET SIX #8
Vez por outra, tenho que ver como anda Gail Simone. Quem acompanha há bastante tempo bons sites de quadrinhos sabe que Simone era colunista do Comic Book Resources no início da carreira. Ela escrevia paródias ou histórias engraçadíssimas (fictícias) sobre os bastidores das HQs norte-americanas. Youll All Be Sorry era o nome da coluna.
É claro que ela foi notada por editores. Depois de passar por editoras pequenas, ela assumiu Deadpool na Marvel e logo estava na DC começando sua longa passagem por Birds of Prey. É na DC que ela anda até hoje.
Tinha ouvido bons comentário sobre as minisséries Secret Six e finalmente resolvi conferir o porquê do falatório pegando as primeiras edições da série derivada, que começou na segunda metade de 2008.
Ela não consegue ser tão comicamente insana como no início de carreira - parece ter desenvolvido uma ética que lhe autoprega que os leitores precisam de bons personagens, acima da comédia -, mas mantém pelo menos uma tiradinha irônica por página.
Secret Six, que trata de seis (ex?) vilões DC trabalhando em conjunto, tem grandes momentos. Grandes ideias, na verdade. Primeiro, Simone faz questão de diferenciar muito bem cada personagem, dar a eles personalidades conflitantes. Segundo, ela usa seu gênio louco para criar situações que o leitor nunca esperaria. O "cartão maligno" em torno do qual se dá a primeira história da nova série é simplesmente a melhor ideia que uma série sobre vilões poderia ter.
Há um único probleminha: quem não leu as minisséries anteriores vai entender muito pouco sobre os personagens - como é o meu caso. Mas isto é um problema quase geral da DC: você não pega nada se não for um devoto da editora.
Mas enfim. Simone continua muito bem, obrigada, pelo menos nesta série. Até tentei a Mulher Maravilha dela e... não funcionou. Mas Secret Six já é uma dose muito boa de Gail Simone.
THE ARRIVAL
Tem os gibis Marvel e DC, com seus eventos estrondosos mês a mês, às vezes até interessantes. Tem a cena indie e seus quadrinhos experimentais, malucos, tanto nos EUA quanto na Europa. Tem as HQs... ops, perdão, Graphic Novels que ultrapassam a horda de fãs, chegam nas mãos de gente que lê "literatura de verdade" e fazem estes reconsiderarem a validade artística dos quadrinhos.
E existem aquelas obras que se põem acima de tudo isso, alheias ao mundo lá embaixo, e conseguem criar algo que derruba totalmente fronteiras entre literatura e quadrinhos, entre leitura de criança e leitura de adulto, entre arte e entretenimento. The Arrival é dessas.
Shaun Tan é um ilustrador australiano que não tem problemas em dizer que faz quadrinhos, apesar de ter uma carreira muito mais longa desenhando livros infantis. The Arrival é HQ: imagens em seqüência que contam uma bela história sobre a imigração e os imigrantes. E sem qualquer texto.
O título que a HQ ganhou na França - onde ganhou, também, o prêmio máximo do Festival de Angoulême ano passado -, Là Où Vont Nos Péres ("onde vão nossos pais") é bastante significativo. O livro lembra aqueles filmes ou as fotos de imigrantes chegando de navio à Nova York do início do século 20, tentando adaptar-se ao novo mundo.
O novo mundo que Tan retrata, porém, é mais do que uma economia desenvolvida para um imigrante terceiromundista. Nesse mundo, os navios voam, a cidade é tomada por gigantescos monumentos e nenhum dos animais que circulam pelas ruas é identificável. A magia desse mundo novo é palpável, visível, não só metáfora.
Sendo uma série de páginas sem texto, apenas - apenas é uma palavra muito pobre aqui - lindamente ilustradas, é uma leitura rápida. Quando você chega ao final, a vontade é de ler de novo e prestar mais atenção. E, na segunda leitura, você percebe que ainda há mais para absorver e começa a terceira. E...
Livrinho mágico. Não espere aparecer por alguma editora brasileira: é totalmente sem texto, então você não vai ter problemas com idiomas estrangeiros. Encomende logo.
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