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Lá fora: Os lançamentos norte-americanos

Lá fora: Os lançamentos norte-americanos

Érico Assis
27 de Julho de 2004

Na seção "LÁ FORA", o Omelete lê e comenta todos os grandes lançamentos em quadrinhos nos Estados Unidos.

Será que aquele projeto que foi tantas vezes notícia aqui rendeu alguma coisa boa ou foi decepcionante? Quais são as novas séries que estão agitando os leitores americanos? Onde estão surgindo os novos nomes, seja de escritores ou ilustradores?

Vamos conferir aqui, sempre atentos às lojas especializadas americanas, as respostas para estas e outras perguntas.

Avengers 84 / Iron Man 85 / Captain America 28 / Thor 79

Alerta vermelho! Mais uma vez querem pegar os Vingadores, colocar no liquidificador e ver o que acontece! Pior ainda, numa situação que cada vez mais se parece com a última vez que fizeram isso, uns sete ou oito anos atrás, em “The Crossing”. Lembra o que foi essa série? Fizeram algum rebuliço com edições especiais, novos desenhistas e novos vingadores e o resultado foi decepcionante. A série (e todas as publicações secundárias) afundou tanto que tiveram que entregá-la a Rob Liefeld. Sentiu o drama?

A idéia agora é entregá-la a Brian Bendis e sua trupe de coleguinhas indie. Ok, legal, parece uma injeção de vida nova. Mas os previews fazem a gente temer o pior.

Bom, mas o intuito desta coluna não é tentar prever o futuro, mas sim, analisar o presente. Não faz muito tempo que as principais séries em torno dos Vingadores ganharam novas equipes criativas (com exceção de Thor), mas elas já estão sendo sumariamente chutadas. Não dá pra dizer que é uma pena, mas também não é possível comemorar, pois aconteceram algumas coisas legais e outras detestáveis.

Tony Stark tornando-se ministro da defesa dos Estados Unidos, na Iron Man de John Jackson Miller, Jorge Lucas e outros, foi uma historinha legal, que prometia várias reviravoltas. Ficou, infelizmente, na promessa. Há alguma maldição em torno do ferroso que faz todas as suas histórias, no final das contas, tornarem-se estranhamente parecidas. Miller não conseguiu superá-la.

A entrada de Robert Morales e Chris Bachalo em Captain America foi uma tentativa de avanço nessa bagunça que tem sido a nova série do herói. Foram criados personagens coadjuvantes e alguma estabilidade para a vida de Steve Rogers começava a se desenhar. Teve até uma história em Cuba bem inteligente. Mas Morales, provavelmente já avisado de que estava indo embora, pirou nas suas duas últimas edições, fez uma história maluca e destruiu tudo que tinha criado.

Em meio a tanta coisa ruim, os Vingadores entregues, no estilo “sobrou pra você”, a Chuck Austen até que estavam legais. Seus dois plots foram horrivelmente desnecessários – a criação do novo Capitão Bretanha (!?) e a introdução dos novos Invasores (!?!?) -, mas sua condução e diálogos estavam interessantes. Oliver Coipiel e Scott Kollins continuaram com seus bons desenhos.

Thor, por fim, esteve nos sofridos estertores de Dan Jurgens, que está por lá desde a primeira edição. Houve algumas histórias legais entre as edições 60 e 70, em que o problema da influência de Asgard sobre a Terra chegou a uma solução. Depois disso, Jurgens inventou uma saga no futuro sem pé nem cabeça e com um final previsível. Definitivamente, era a série que mais precisava de idéias novas.

Análise geral: fora Thor, todas séries estavam decepcionando mas tinham, lá no fundo do fundo, alguma chance de crescer, pois estavam com roteiristas e desenhistas competentes. Tem gente nova entrando, o que quase sempre é bom, mas não vai impedir que eu fique imaginando o que aconteceria se os times atuais continuassem seu trabalho. Eu ainda tinha alguma esperança.

Common Grounds 6

Ótimas surpresas nessa minissérie da Top Cow. Já falei dela, mas vale a pena comentar de novo.

Common Grounds era, originalmente, um gibi independente com péssimos desenhos chamado Holey Crullers. A idéia e os roteiros, porém, eram ótimos. A Holey Crullers é uma rede de donut shops nos Estados Unidos onde super-heróis e super-vilões encontram-se para conversar, falar do passado e do futuro, lamentar os problemas que têm com seus poderes e usufruir de uma trégua.

Há situações hilárias, como o encontro de monstros da Marvel dos anos 50 ou dos super-heróis acima do peso. E histórias “tocantes”, como a do herói que procura seu pai, transformado numa partícula subatômica que vive na ferrugem de um porta-guardanapos em uma das donut shops. São boas histórias e boas piadas, do tipo que você gostaria de fazer com super-heróis.

O interessante é que Troy Hickman, o escritor, está consciente de que poderia cair na armadilha de repetir a mesma história várias vezes. Faz o contrário: consegue surpreender, dar voltas inesperadas em torno do conceito. O cara é bom. E ser ajudado nos desenhos por gente como Chris Bachalo, Ethan Van Sciver, Carlos Pacheco e George Pérez também não faz mal. Devia se tornar série mensal.

Batman: Death and the Maidens 9

Vou ser um péssimo resenhista: vou contar o fim da história. Se não quiser, não leia.

Pela promoção feita em torno da minissérie, o desfecho não é nenhuma surpresa: Ra’s Al Ghul finalmente morre, vítima do elaborado plano de uma nova inimiga. Batman estava meio que aliado a Ra’s, por isso acaba ganhando uma nova nêmesis que promete ser um problemão. Pode apostar que ela logo logo retorna num desses mega-crossovers.

Greg Rucka construiu a história com sua boa noção de ritmo e mistério, fez uma boa pesquisa sobre um dos mais importantes bat-vilões e respeitou-o. Mas Ra’s merecia mais. A mini tem seus bons momentos, e os desenhos de Klaus Janson até que estão legais. Mas está bem longe de ser um A Última Caçada de Kraven.

Queen & Country 25

Mais Greg Rucka, mas agora do bom Greg Rucka. Definitivamente, seu negócio não devia ser com super-heróis.

Queen & Country é James Bond tratado com realismo. O cotidiano de um dos mais altos centros de espionagem da coroa britânica não tem martini, mulheres e brinquedos tecnológicos, mas sim, politicagem, amigos que morrem em ação e personagens com vidas mal resolvidas.

Tara Chace – continuando a paixão de Rucka pelas fortes personagens femininas – é a principal, uma agente em constante mau humor que afoga seus problemas de convivência (boa cena: sai do trabalho, vai pro bar, pega o primeiro cara que lhe diz “oi”, leva-o pra casa e manda-o embora antes que ele pense em começar uma conversa pós-sexo) atacando a rede da al-Qaeda ou impedindo um golpe de estado na África. Sempre que tenta apegar-se a algum colega de trabalho, ele morre ou desiste do emprego. Vida dura e infeliz, mas ela tem suas razões para continuar.

É quadrinho adulto como não se vê há muito tempo. Tem várias ocasiões em que você pode se encher o saco: quando falta ação, quando Rucka resolve escrever em francês ou alemão ou quer mostrar que pesquisou bem como funciona o sistema de defesa e espionagem britânico. Mas logo você nota que a série não é uma complicada trama de espiões e criminosos, mas sim uma complicada trama humana em que trabalho e vida se opõem. Pode não ser para todos os gostos, mas é uma das séries que mais sinto prazer em acompanhar hoje em dia.

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