Lost Girls

A elegante pornografia em quadrinhos de Alan Moore

Érico Borgo
23 de Maio de 2007

Lost Girls - Livro Um: Meninas Crescidas

Lost Girls - Livro Um: Meninas Crescidas

Alan Moore e Melinda Gebbie

Editora Devir

Excelente

O mais esperado lançamento de quadrinhos adultos do ano (e por que não, de todos os gêneros) no Brasil, Lost Girls: Livro 1 - Meninas Crescidas é o primeiro volume da série de três que apresenta a aclamada obra de Alan Moore e Melinda Gebbie.

A história, segundo seu genial criador, pretende colocar a pornografia e o erotismo em local digno dentro da cultura contemporânea. E consegue. Ao contar a história de três mulheres - Lady Fairchild, Dorothy Gale e Wendy Potter -, que se conhecem por acaso num luxuoso hotel na Suiça, o Himmelgarten, às vésperas da primeira Guerra Mundial, Moore tira o gênero de local equivalente aos quartinhos escuros, fechados com a "cortina da vergonha" das videolocadoras, e o coloca sob as luzes das dicróicas nos displays elegantes das grandes livrarias. Não que Manara, Crepax e outros criadores não tenham conseguido tal feito antes, mas a diferença aqui é o lugar de destaque máximo que o escritor, mais conhecido pelo trabalho com super-heróis, ocupa dentro da indústria do entretenimento e a classe e qualidade do projeto: de sua concepção à produção gráfica.

O texto é elegante, sensual e desperta verdadeiro interesse pelas histórias das protagonistas - suas desventuras não são mero pretexto para ardentes seqüências de sexo - algo que raríssimas produções ditas eróticas ou pornográficas conseguiram alcançar, seja na literatura ou no cinema. Normalmente, o fator "entregador de pizza" é o que prevalece (você sabe, chega o entregador, a solicitante atende de lingerie e pronto... está feita a trama).

Aqui, da mesma forma que fez em Liga dos Cavalheiros Extraordinários, Moore revisita personagens da ficção vitoriana, mas, dessa vez, da literatura infantil. A história segue as três protagonistas, que mais tarde descobrimos serem Wendy, de Peter Pan (de J. M. Barrie, 1904); Alice, de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho (de Lewis Carroll, 1865); e Dorothy, de O Mágico de Oz (de L. Frank Baum e W.W. Denslow, 1900). As famosas personagens da literatura em língua inglesa revelam seus segredos mais íntimos umas às outras e a narrativa acompanha de maneira poética eventos contados nos romances citados, mas de maneira mais realista, como teriam "acontecido" - Peter Pan seria, por exemplo, apenas um garoto safado, que iniciou sexualmente a adolescente Wendy em seu quarto em Londres. Brilhantemente, elementos fantásticos das obras tornam-se metáforas para o prazer: o vôo, a viagem, a passagem a uma nova dimensão, como efeitos do orgasmo.

Os traços lascivos de Melinda Gebbie, companheira de longa data de Moore e sua esposa recente (o relacionamento floresceu durante o longo trabalho juntos), inicialmente causam estranheza a olhos acostumados com as histórias em quadrinhos convencionais de sempre, mas logo a impressão é substituída por enorme apreciação, já que formam belos painéis ilustrados que lembram pinturas das últimas décadas do século XIX e o início do século XX, auge da art nouveau, como as de Toulouse-Lautrec (1864-1901, não por acaso, artista influenciado pela vida noturna parisiense, dos cabarés e prostitutas). Mesmo a diagramação possui algumas idéias (provavelmente de Moore, que entrega seus roteiros detalhadíssimos) brilhantes, como as que mostram a entediante passagem do tempo e o distanciamento do espelho e Alice, logo no início do livro.

A obra teve uma parte publicada lá fora no início dos anos 90 pela Kitchen Sink Press. Dezesseis anos depois, ganhou versão luxuosa, que esgotou-se rapidamente nos EUA (e gerou polêmica na Inglaterra, junto aos detentores da obra Peter Pan). A edição nacional adapta o lançamento mais recente e está à altura do romance gráfico. A Devir tem aqui o melhor momento em toda sua história editorial. Capa dura, envelopada por uma sobrecapa tão boa quanto o da edição norte-americana, e papel da mesma qualidade. O livro ficou apenas um pouco menor e a ausência da lindíssima caixa de madeira do original é sentida, mas compreendida (sabe-se lá quanto a coleção custaria caso essa embalagem fosse lançada aqui). Uma edição indispensável na estante de qualquer um que se considere um colecionador de quadrinhos - ou de pornografia...

Lost Girls - Livro Um: Meninas Crescidas. Formato: 21,0 cm X 28,0cm. 112 páginas. Capa dura. R$ 65,00.



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