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Lembra desse? Super-Herói Americano

Lembra desse? Super-Herói Americano

José Aguiar
26 de Janeiro de 2001

Imagine a seguinte situação: Sua vida pessoal vai mal. Você acabou de se divorciar e ainda está batalhando pela custódia de seu filho nos tribunais. Durante uma viagem, você encontra um insuportável e casca grossa agente do FBI. Pouco depois, o rádio enlouquece e o carro pifa. Pra piorar, você está no meio do deserto, entre nada e coisa nenhuma na companhia do tal indivíduo. Realmente, sua vida vai de mal a pior. Acrescente então um disco voador pairando sobre seu indefeso automóvel. Imagine que dele desce um ex-colega morto do tal agente do FBI, que lhe entrega uma maleta contendo um uniforme. E que o zumbizão afirma que, ao vestir a roupa, ela lhe dará poderes especiais. E que você foi escolhido, junto com o agente mala, para proteger a humanidade. Mas que não devia se preocupar, que tudo estaria explicado no manual de instruções que acompanha o traje, feito especialmente para você por algum generoso alfaiate cósmico.

O que você faria numa situação destas&qt&

Depois de se certificar que aquilo não era um sonho, o melhor era deixar o agente pra lá, pegar a maleta e seguir seu caminho, como se nada tivesse acontecido. Correto&qt& Errado. Graças a isso sua vida só podia piorar. Foi o que aconteceu com um certo professor secundário chamado Ralf Hinckley (Willian Katt, de Carrie - A Estranha e A Casa do Espanto), o protagonista da deliciosa série O Super-Herói Americano.

Na verdade, desde sempre achei o título desse seriado algo esdrúxulo. Por que não algo mais HQ, como Super-Homem Vermelho ou mesmo Dínamo Escarlate&qt& Daí pensava comigo mesmo, em meio a minhas reminiscências infantis: "É coisa da tradução do SBT !". Mas que nada. O título original é tão ruim, senão pior que o nacional: "The Greatest American Hero". Por que esse título&qt& Ora, porque o nosso querido herói nem codinome tinha. Muito menos tinha vontade, ou talento pra coisa. Sem falar que não há coisa mais americanóide do que o mito do super-herói. E foi mesmo para avacalhar com o tal mito que nasceu esse seriado tão singular e que tantas saudades deixou em nossa memória televisiva. Vale lembrar que quando o SBT entrou em operação, em 1982, este seriado era um dos carros chefes de sua programação.

Um começo nada Glorioso

Para começo de conversa, o tal professor Ralf Hinckley (olha o aliterismo clássico dos nomes de heróis) não tinha o menor jeito pra coisa. Era despojado de qualquer músculo aparente e possuía um cabelinho... digamos... capaz de fazer inveja até mesmo ao Urso do Cabelo Duro, dos desenhos da Hanna-Barbera. Enfim, não é exatamente o modelo clássico de herói. Mas como pelo jeito não tinha outro... Quando conseguiu chegar em casa, o que Ralf encontrou na maleta&qt& Um discretíssimo colante vermelho berrante, com um cinturão prateado e uma capa preta. E necas do prometido manual de instruções! Afinal, ele teve a capacidade de deixá-lo cair em algum lugar no meio do deserto. O jeito era deixar essa besteira de lado mesmo (afinal, quem é que lê manual de instruções, né&qt&).

E foi justamente por causa do pirralho que o pobre Ralf criou coragem para utilizar a roupa pela primeira vez. Atrasado para a audiência que decidiria com quem ficaria o menino, preso no trânsito e desesperado, ele pega a tal roupa vermelha, entra num beco e, mesmo não acreditando na estupidez do que está fazendo, tenta a todo custo voar. É óbvio que nada consegue. É necessária a pronta interferência de um menininho que por ali passava, para que ele fizesse a coisa direito. "Não é assim que o Super-Homem faz! Ele dá três passos e um salto!", diz o moleque. Pra que discordar&qt& Criança entende dessas coisas. E lá foi nosso herói em seu vôo inaugural. Apenas para se esborrachar em seguida contra a parede de um edifício. Inconsciente, é encontrado por policiais que o prendem, achando que era um demente (quem não acharia&qt&). Graças a esse desastroso começo de carreira, a posse do filho de Ralf acabou ficando mesmo com a mãe. Mas o saldo disso tudo até que é positivo: a advogada de Ralf, Pamela Davidson (Connie Selleca, de Capitão América II) acaba se enamorando do azarado professor. E, por fim, casando com ele na segunda temporada da série. Ela, além daquele tal agente do FBI, Bill Maxwell (Robert Culp), eram as únicas pessoas que sabiam do segredo da roupa alienígena.

Na verdade, Ralf não havia sido o primeiro a vestir a galante malha rubra do espaço. Por sinal, o seu predecessor era um milionário paralítico que, nos anos 50, havia recebido o mesmo presente dos "homenzinhos verdes". Alguém aí desconfia de como ele fez sua fortuna&qt&

Demolindo os heróis mascarados

Pois um dos pontos altos da série era exatamente a discussão das aplicações morais dos superpoderes. Ralf era a pessoa mais correta do mundo e queria mesmo ajudar e não se aproveitar de suas habilidades para fins mesquinhos. Já seu parceiro, Bill, fazia questão de envolvê-lo em todos os casos do FBI possíveis, já que nunca conseguiu convencer o professor a utilizar de maneira mais "lucrativa" seus dons. Tanto que o agente Maxwell, um poço de incompetência por natureza, se tornou um dos maiores agentes dos EUA, para o espanto de seus superiores. Isso porque sobrava para Ralf o trabalho sujo. Mas de qualquer forma, ambos se tornaram grandes amigos no decorrer dos episódios. Mas até mesmo o professor boa praça, caiu nas garras da tentação e, com uma ajudinha de seu uniforme, realizou seu grande sonho de infância: se tornar astro do beisebol. Claro que usando a roupinha vermelha por baixo do uniforme pra "dar sorte".

Outra característica herdada das HQs é aquela tendência que todo herói tem de querer "pendurar a capa" de uma hora para outra. Em praticamente todo episódio ele estava prestes a largar mão dessa vida ingrata de herói. Ele só sossegou quando o próprio Zorro (John Hart, o Lone Ranger da TV nos nos anos 50 ) lhe convenceu que: "Com grandes poderes vem grandes responsabilidades." O episódio em que os dois se conhecem é considerado um dos melhores.

Os vilões da série variavam desde punguistas a assaltantes de banco, terroristas e espiões. Nada de Supervilões, como era de se esperar de uma série do gênero. E quer saber de uma coisa&qt& Eles não faziam a menor falta! A graça da série (e o ridículo) era uma pessoa normal, num mundo real, tentando conviver com poderes absurdos. Vivendo situações comuns, às vezes muito mais complicadas do que os "perigos" que os heróis das HQs costumam enfrentar. Não que os roteiros fossem geniais. Pelo contrário. Eram até bem simples. Muito parecidos até com os das séries de ação (e mesmo as de super-heróis) da época. Mas com o diferencial que, aqui se assumia o papelão que é usar uma fantasia para combater o crime.

Só para começar, toda vez em que nosso atrapalhado protagonista tinha que trocar de roupa, passava por todo tipo de martírio! Heróis de HQ tem o notável dom de mudar de roupa num piscar de olhos. Mas o bom e velho Ralf sempre prendia a calça nas botas, enroscava a capa no cinto e levava um tempão para se "transformar"! Sem falar que penava para não perder suas roupas normais. Isso quando não era pego em flagrante (no banheiro, beco ou mesmo atrás de uma moita) e tinha que dar uma de doente mental ou até artista de circo para se safar do vexame! Afinal de contas, ingenuamente o ET que costurou a roupa não providenciou sequer um capuz para esconder a identidade de nosso herói. Sem falar no elegantíssimo saiote que a camisa tinha. E o que dizer do emblema em seu peito&qt& Uma mistura de nada com coisa alguma, que mais parecia um borboleta estilizada. Se é que chegava a tanto.

Um herói fora de controle

Por falar em roupa de baixo, um dos poderes esdrúxulos da roupa alienígena era o de "sentir" as pessoas à distância. Para tanto, era necessário que o Professor tocasse em algum objeto pessoal desse alguém. Aí ele teria uma "visão" dela. De seu passado recente ou mesmo de onde estaria naquele instante. Certa vez, foi necessário até mesmo vestir uma camisola para tanto... Coisa até passável para quem é obrigado a usar um colante vermelho para combater o crime, não acha&qt&

Outro poder interessante era o de pirocinese. O único problema é que ele só conseguia atear fogo em coisas que estivessem atrás(!) dele. Uma precisão para lá de discutível. Mas ainda assim, útil às vezes. O pacote ainda incluía uma deficitária visão de raio x e até invisibilidade. No mais ele era munido pelo sempre necessário "kit-do-super-herói-feliz", que inclui superforça, invulnerabilidade (aparentemente só as partes cobertas pelo uniforme assim o eram, pois toda vez que encarava tiros, encobria a cabeça no maior medo) e, claro, a habilidade de voar. O bordão publicitário da série de cinema Superman (que vivia seu auge por aqueles dias e, obviamente era uma das razões de ser dessa série) era: "Você vai acreditar que o homem pode voar!" Ao assistir o Super-Herói americano, você entendia como isso era mesmo uma balela. Seu vôo era um desespero total. Desprovido até da menor estabilidade, o cara não sabia nem planar, muito menos pousar. Colecionando assim uma série de tombos homéricos, uma das marcas registradas da série. Assim como a sua impagável cara de desespero, toda vez que alçava vôo.

Mas também não dava para falar mal do esforçado Ralf. Afinal, fazer o que sem o manual da roupa&qt& Talvez pensando nisso, os homenzinhos verdes voltaram à terra trazendo um novo manual para o professor. Após um tour até o planeta devastado do alienígena que lhe concedeu a roupinha descolada, ele e Bill recebem uma nova chance de fazer as coisas direito. Afinal, mesmo com todas as suas limitações, até que conseguiram acertar algumas vezes... Ambos rumam ao deserto para testar as habilidades descritas no manual. A lição número 1 era sobre como encolher. Para seu (eterno) azar, Ralf se torna minúsculo bem no meio de um monte de formigas! Apavorado com os monstrengos ele volta ao normal. Detalhe: o manual havia encolhido junto e ficou no meio das malditas formigas! Nem é preciso dizer que o tapado professor conseguiu a proeza de perder novamente você sabe bem o quê.

Acredite se quiser

Suas três temporadas foram exibidas entre março de 1981 e abril de 1983. Num total de 44 episódios. Sendo que os cinco últimos (Wizards and Warlocks, Its Only Rock and Roll, Desperado, Vanity, Says the Preacher) acabaram não indo ao ar.

Em 1986 foi produzido um novo piloto da série, também nunca exibido na TV: The Greatest American Heroine. Nele a identidade do professor era revelada (e desde quando era segredo&qt&) e os homenzinhos verdes o mandavam passar seu uniforme e missão para uma mulher chamada Holly Hathaway. Talvez convencidos que aquele modelito não era mesmo coisa para homem...

Durante alguns episódios da primeira temporada o sobrenome de Ralf, "Hincley" foi alterado para " Hynley". Sem falar que em muitos episódios ele acabou sendo chamado apenas de "Professor H." Isso tudo para Afastar qualquer conexão com John Hyncley, o fã maníaco da atriz Jodie Foster, que quase matou o então presidente dos EUA, Ronald Reagan em 30 de março de 1981, quase na mesma época em que estreou a série. Santo Azar!

A música tema da série "Belive it or Not", composta por Mike Post e interpretada por Stephen Geyer, chegou ao segundo lugar das paradas
americanas em 1981. Tendo feito sucesso por aqui também. E, para quem não lembra, aí vai uma palhinha com o refrão da música:

Believe it or not,
Im walking on air,
I never thought I could feel so free,
Flying away on a wing and a prayer,
Who could it be&qt&
Believe it or not, its just me...

Algo que pode ser traduzido como:

Acredite ou não
Estou andando no ar
Nunca pensei que pudesse me sentir tão livre.
Voando por aí sobre uma asa e uma prece.
Quem poderia ser&qt&
Acredite ou não, sou apenas eu...

Bonito, não&qt& Mas belo mesmo, seria se alguém tirasse o bolor das fitas e pusesse essa deliciosa paródia dos heróis uniformizados das HQs de volta às nossas televisões. Afinal, se não há vida inteligente com os heróis atualmente, quem sabe a esperança não venha mesmo num disco voador direto dos anos 80.



Comentários (1)

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Leo Rios Leo Rios (12/04/2010 01:18:33)   147 0
"Believe It or Not", a música tema da série, não foi interpretada por Stephen Geyer, mas por Joey Scarbury.

Pelo que me consta, Stephen Geyer escreveu a letra e Mike Post compôs a música.




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