Quando Oprah Winfrey encerrar seu último The Oprah Winfrey Show na tarde desta quarta-feira, 25 de maio, nos Estados Unidos, não será o adeus apenas do show que a transformou na mulher mais poderosa da mídia. Será também mais um lance nas mudanças que atingem a TV no país.
Ao longo dos anos, a audiência dos programas diurnos vem caindo enquanto o público alvo, mulheres entre 25 e 54 anos, se transformava. Antes formado por baby boomers, grupo nascido após a Segunda Guerra Mundial, esta faixa agora pertence aos nascidos mais tarde e com menos tempo. A audiência, que antes assistia ao mesmo programa cinco vezes por semana, agora dedica à TV apenas um ou dois dias. As tardes também não são mais campo exclusivo das grandes redes. Dezenas de canais por assinatura e a Internet tiram a atenção do público daquilo que a ABC, CBS e NBC oferecem. Estes elementos mais os cortes no orçamento motivados pela crise econômica transformaram a TV diurna de faixa mais rentável a horário problemático.
Entre deixar este habitat em extinção e ser o último animal da espécie a vagar pelo deserto, Oprah optou pela primeira opção. Se restava alguma dúvida quanto aos motivos de sua saída, a declaração que a apresentadora divulgou explicando porque não podia salvar All My Children e One Life to Live, novelas canceladas pela ABC, mostrou que a apresentadora está tão ciente do mercado e dos negócios quanto se poderia esperar de alguém com sua trajetória. Para a maioria dos analistas, a saída de Oprah foi programada para a hora certa.
Ainda assim, a verdade nua e crua é que seu lugar é altamente cobiçado. Apesar da queda nos números, o The Oprah Winfrey Show ainda reunia 6,5 milhões de espectadores agora livres para escolher um novo programa para preencher seu tempo diante da TV. Financeiramente falando, o talk show ainda é um dos formatos mais baratos de produção de TV. Mesmo que ninguém consiga ocupar as cinco tardes com o mesmo desempenho, uma tarde com 6 milhões de pessoas pode ser considerada um sucesso. Resta saber que tipo de programa vai vencer a disputa.
Existem seis formatos de talk shows espalhados ao longo do dia. O primeiro mistura comédia, variedades e entrevistas com celebridades, como o programa de Ellen DeGeneres. O objetivo é divertir e para ser bem sucedido, o formato depende basicamente da química entre apresentador e público.
O segundo modelo é o mais intimista, criado por Edward R. Murrow nos anos 1950 e eterenizado até pouco tempo por Larry King, com um entrevistador e um convidado. O sucesso aqui depende do apresentador ser um bom ouvinte e capaz de dar atenção a uma grande variedade de assuntos. O terceiro tipo, é o programa político, com um âncora e um painel de comentaristas, como Bill O´Reilly. No quarto formato estão os programas da manhã como Good Morning America e Today, que misturam notícias e entrevistas. No lado oposto do horário ficam os programas de final de noite, como Jay Leno, Conan O´Brien e David Letterman e seu formato mesa e poltrona, popularizado por Johnny Carson.
O sexto tipo surgiu com Phil Donahue nos anos 1970 e se apóia no tema do dia, unindo um pequeno grupo de convidados especialistas ou pessoas comuns que viveram circunstâncias extraordinárias. Foi neste nicho que Oprah criou seu sucesso, desviando o tópico da informação para a interação com o público, para o compartilhamento de segredos e problemas pessoais com as pessoas que a assistiam, transformando a narrativa pessoal em um produto de sucesso. O auge de seu modelo veio nos anos 1990, quando ela passou a dedicar sua força a incentivar o público a “viver sua melhor vida” e “viver com objetivo”. E ninguém teve mais objetivo na vida do que Oprah, expandindo seus negócios e sua influência do rádio para a TV e da tela para uma revista em que apenas duas vezes ela dividiu a capa com outra pessoa. Seu clube do livro transformou o cenário editorial e o público que gosta da terapia do Dr. Phil ou dos conselhos do Dr. Oz e das piadas da superamiga Gayle, sabem que os três surgiram primeiro como escudeiros de Oprah. Foi ela que lhes deu espaço e, agora, um programa para cada um.
Não é à toa que um dos muitos livros dedicados à apresentadora retrate seu trabalho como um ministério religioso. Em Oprah: The Gospel of an Icon, Kathryn Lofton, professora da universidade de Yale, compara seus quadros de mudança de visual a rituais religiosos. Em cena, Oprah era inigualável em seu status mítico de mulher que superou a pobreza, o trauma do abuso sexual e venceu. Sem seu programa no ar, todos os que ocuparem as tardes na TV serão comparados a ela e terão seu sucesso avaliado pelo fato de não estarem competindo contra ela. Será como ganhar uma medalha de ouro na Olimpíada de 1984. Você ganhou, mas vai sempre ouvir que só conseguiu porque os russos não estavam lá.
A lista de competidores, senão pelo posto inatingível de guru de Oprah, mas pelo menos por seu horário e seus números, inclui nomes já conhecidos e possibilidades ainda em formação. Ellen DeGeneres, que viu sua audiência subir nos últimos meses, é uma das apostas. Os programas de duas crias de Oprah, o Dr. Oz e o Dr. Phil, estão ganhando horários antes ocupados pela apresentadora e devem ficar com o público que já os conhece na TV ou em suas colunas na revista Oprah. Mas não se espera que sejam capazes de arrebanhar todos os seguidores.
Retornando ao cenário, Rosie O´Donnell terá um novo programa, gravado no estúdio de Oprah em Chicago e transmitido pelo canal de Oprah, o OWN. A ligação faz dela uma espécie de herdeira reconhecida, mas seu jeito um tanto brusco não deve cair bem com quem admirava o estilo "tenho o mesmo problema que você" de Oprah.
Entre as novidades, Katie Couric, veterana do Today, e Anderson Cooper, ex-âncora da CNN, estão em negociações para terem seus próprios programas. Não se espera que um dos dois atinja o nível de identificação que Oprah mantinha com seu público, mas ambos anunciaram que pretendem aproveitar a liberdade fora do noticiário para um trabalho mais pessoal. Talvez um dos dois seja a opção buscada pelo novo público da tarde que nunca aderiu ao estilo mentor de Oprah ou ao humor de Ellen.
Entre estas e outras opções, incluindo a Internet, alguém fará sucesso, mas não por 25 anos e nem a ponto de poder cobrar 1 milhão de dólares por um comercial de 30 segundos no último programa. Esta fase acabou. E tanto os fãs quanto os detratores de Oprah sentirão o espaço vazio.
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