True Detective - 1ª Temporada | Crítica

Don Quixote, contos de fada e egomania na Louisiana


11/03/2014 - 1:10 - Marcelo Hessel

Com tantas formas humanas e animais desenhados nas paredes, tantas indústrias no horizonte e salgueiros-chorões no pântano - figuras todas de uma paisagem deformada, que dão a True Detective seu tom de fantasia disforme e fatalista - não é de espantar que a primeira temporada tenha terminado como terminou. Tem mais Irmãos Grimm na Louisiana pós-Katrina de True Detective, com seus cenários assombrados por fantasmas recentes, do que na própria série de TV Grimm.

Desde os créditos iniciais, que sobrepunham as locações da série com os rostos dos protagonistas, já estava claro que True Detective seria o tipo de narrativa que faz de lugares personagens. Embora o nome do criador e roteirista Nic Pizzolatto tenha sido incensado, não foi uma temporada que funcionasse sob uma lógica de roteiro (o final pode desapontar quem coleciona pistas à espera de uma reviravolta) e sim sob uma lógica de mise en scène. A presença do cineasta Cary Fukunaga, diretor de todos os oito episódios do ano um, deu à temporada uma unidade estética que terminou definindo o projeto.

Dentro dessa lógica, na investigação de Marty (Woody Harrelson) e Rust (Matthew McConaughey) em True Detective 1 (como é uma série de antologia, a segunda temporada terá outras histórias, mais diretores, outros personagens, talvez outra proposta), o que vimos pelo caminho não foram exatamente pistas, mas sugestões visuais - que uma montagem de algumas paisagens no season finale inclusive faz questão de recapitular. O acampamento das prostitutas, o bar de strippers, a igreja queimada, a escola vazia; tudo aqui é encenado para emular um abandono.

Em filmes como Jane Eyre, Fukunaga já demonstrava uma predileção por criar atmosferas que fossem capazes de traduzir o estado de espírito dos personagens. Quando espectadores notam um suposto chauvinismo em True Detective, na verdade estão identificando o tema principal da temporada: o mal que se faz a mulheres no ocaso dos homens. No universo da série, a passagem do furacão Katrina pela Louisiana permitiu esse ocaso; na mente de Rust, é só a velha luta do bem contra o mal, da luz contra a escuridão.

Uma vez que estamos diante de uma configuração bem maniqueísta das coisas - o maniqueísmo, ademais, é próprio dos contos-de-fada que a série evoca - então parece natural que True Detective tenha uma visão um tanto romanceada e mesmo esotérica do que significa ser um Verdadeiro Detetive. Foi uma temporada ortodoxa no que se refere aos arcos dos protagonistas (os workaholics Rust e Marty falham dentro de casa e procuram a boa e velha redenção) mas, acima disso, foi uma temporada de arquétipos mais antigos: Rust como o cavaleiro quixotesco e Marty como seu escudeiro trapalhão, combatendo homens gigantes, tendo que lidar com a maldição da profissão que escolheram. "Maldição", aliás, esse termo do mundo das fantasias, é mesmo usado por Rust no episódio cinco, quando ele se refere à vida que leva.

Ao contrário de Don Quixote, porém, que fazia de si mesmo e do mundo uma imagem exagerada que não correspondia à realidade, a série adere à visão de mundo egomaníaca de Rust. Seus "superpoderes" são reais: da capacidade de "ler mentes", passando pelas visões à noite, a um domínio quase cômico da retórica. Por consequência, os tortos galhos secos da floresta mal assombrada de True Detective, que insistem em se espalhar pela Louisiana como uma natureza que reclama seu lugar, como vudu, são de fato a representação do mal a ser combatido (dentro da lógica de símbolos que Fukunaga impõe à série) e não apenas projeções quixotescas sobre moinhos de vento.

O crítico Harold Bloom acredita que Miguel de Cervantes criou um marco do niilismo e da anarquia quando escreveu Don Quixote, e no fundo talvez o flerte com o niilismo em True Detective seja a principal pista falsa jogada ao espectador. É com a missão nada cínica de remediar o abandono e restabelecer a ordem das coisas que Rust e Marty entram em sua aventura metafísica. Não faltam momentos de antiheroísmo nesta temporada, mas é justamente do avesso da anarquia que a série trata. Estamos, afinal, no mundo ancestral do mal puro, de supostos reis, das princesas indefesas e do sacrifício de heróis - um mundo imutável de precisas idealizações.

Se todos são culpados, como a certa altura diz um personagem, então o castigo de cada um é carregar o papel que lhe cabe.

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