Eu ainda estava planejando a coluna de janeiro - o tema estava tomando forma (falaria sobre um dos gibis mais inúteis da atualidade, que está sendo publicado no Brasil neste momento) - quando tive acesso aos últimos fatos que ocorreram na vida do Homem-Aranha. Aí meu grande editor pediu uma coluna especial para analisá-los...
Antes de continuar, o aviso de sempre: essa coluna contém um sem número de spoilers e se refere a fatos que vieram à tona nos gibis dos Estados Unidos na última semana de dezembro. Assim, se não quiser estragar o que você verá nas revistas da Panini em aproximadamente um ano, pode pular pra algum outro artigo.
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Ainda aqui? Ok, então não diga que eu não avisei :-)
Maio de 2001 foi um mês importante para os fãs do Homem-Aranha. Naqueles dias, o roteirista Howard Mackie - que fizera bons trabalhos em títulos como Mutante X e mesmo X-Men - deixava o gibi do amigo da vizinhança, para a alegria e júbilo da maioria dos aracnofãs. Em seu período no comando, que começou pouco após a famigerada Saga do Clone, Howie transformou Amazing Spider-Man em uma série de clichês sem tamanho. Parecia que estávamos lendo uma daquelas novelas mexicanas produzidas pela Televisa e que fazem a alegria das donas de casa telespectadoras do SBT. Todo o humor e aventura que caracterizavam as histórias do herói soltador de teias foram substituídos por um dramalhão sem tamanho e seus feitos heróicos, quando aconteciam, davam sono.
Assim, quando o número 30 de Amazing Spider-Man chegou às lojas com a assinatura de John Romita Jr. e do celebrado roteirista J.M. Straczynski, a expectativa era enorme. Todo mundo acreditava que aquele seria um momento de virada na vida do personagem. A partir daquele momento, todos pensavam que a qualidade do gibi só aumentaria. Até porque, sejamos francos, piorar não podia.
De cara Straczynski acertou, ao trazer de volta as piadas e fazer Peter se transformar em um professor de ciências do Colégio Midtown, onde estudara quando adolescente - época em que adquiriu seus poderes. Mas ele também errou, ao querer vincular os poderes de Peter não ao acidente que todos nós sabemos de cor - Peter assistia a um experimento radioativo quando uma aranha entrou no meio do mesmo, recebendo uma grande dose de radiação. Moribundo, o aracnídeo picou o primeiro ser vivo que viu à sua frente, no caso, um nerd chamado Peter Parker. A picada deu a Peter dons extraordinários e o resto é história -, mas a uma mitologia totalmente diferente: a aranha era, na verdade, um receptáculo de poder totêmico (?!) e estava destinada a transferir esse poder ao Peter Parker. Ou seja, Peter seria parte de uma linhagem de Homens-Aranha que existiram ao longo da História da humanidade. Mais ou menos como o Spawn de Todd McFarlane.
Tirar o caráter científico dos poderes de Peter e transferi-lo ao campo da magia causou estranheza, especialmente se nos lembrarmos que Straczynski ficou famoso justamente por ter criado Babylon 5, uma cultuada série de ficção-científica. De qualquer maneira, a qualidade das histórias no geral deixava esses erros passarem desapercebidos. Ou melhor, eles eram ignorados, já que o conjunto compensava esses deslizes.
Straczynski continuou com sua série de erros e acertos até a saga "Pecados Pretéritos" (no Brasil, Homem-Aranha 41-46), na qual ele arregimentou ainda mais a fúria de seus detratores - e mesmo de alguns fãs - quando resolveu revirar o passado da eterna namorada de Peter, Gwen Stacy. Straczynski criou uma história em que Gwen havia perdido sua virgindade com ninguém menos do que Norman Osborn, o Duende Verde. Não só isso, Gwen havia gerado um par de gêmeos que, devido ao soro que alterara o sangue de Norman, sofreram de crescimento acelerado, alcançando a maioridade física e mental em pouco mais de 5 anos. Pra piorar, durante toda a vida os rebentos de Gwen haviam sido levados a crer que Peter era seu verdadeiro pai e que os havia abandonado e depois matado sua mãe. E cabia a eles se vingar. O arco, que já não era lá essas coisas - histórias melhores poderiam ser escritas com uma premissa menos polêmica - ainda acaba com um clichê dos mais usados nos quadrinhos, quando um dos gêmeos, Gabriel, assume a identidade de Duende Cinza, luta com o Aranha, cai de uma grande altura e, desmemoriado, vai parar em uma praia. Ele e sua irmã, Sarah, apareceriam novamente, mas dessa vez a culpa não foi de Straczynski.
Pouco depois, o roteirista veio com mais uma saga desnecessária, "O outro" (Homem-Aranha 60-63), na qual ele tenta dar mais explicações sobre as origens místicas dos poderes do Cabeça de teia. Nesse meio tempo, Peter passa por duas "evoluções", uma legal e outra desnecessária e sem sentido. A primeira é que ele passa a produzir seu próprio fluido de teia organicamente (conseqüência do filme) e, ao criar redes de teia sente quando qualquer coisa ou ser vivo toca nela - algo como o que acontece com as aranhas de verdade. Por outro lado, ele cismou que o Aranha deveria ter garras - no caso, uma garra saindo de cada um de seus punhos - o que é algo bem sem sentido. É neste arco de histórias que Peter Parker morre e ressuscita "evoluído" com mais poderes do que antes.
Felizes para sempre?
Durante quase todo o período de Straczynski no título, o editor da Marvel cismou que ele deveria separar Peter e MJ. De alguma maneira, Joe Quesada sente que um Peter Parker casado é um entrave para boas histórias e a identificação dos leitores com a personagem. No entanto, Joe é afeito ao divórcio e à morte de MJ. Assim recorreu à magia. Tudo começou no arco "Back in Black" (que, salvo engano, começa no Brasil em fevereiro) no qual a Tia May é baleada e nada, nem ninguém, parece ser capaz de salvar sua vida. Desesperado, Peter recorre ao Dr. Estranho para que May possa ser curada magicamente. Mas aparentemente um ferimento à bala é muito complicado para um sujeito que se intitula o mago supremo do planeta.
"One more day" é o nome do arco que mostra isso e é também o último de Straczynski à frente de Amazing Spider-Man. A edição derradeira, publicada em AMS 545, saiu na última semana do ano passado e mostra que, apesar de tudo, Straczynski vai ser conhecido como um dos roteiristas que mais desrespeitou a inteligência dos fãs do Homem-Aranha. E nem adianta dizer que só seguia ordens de Joe Quesada, meu amigo. O soldado que comete crimes de guerra seguindo ordens de seu general também vai em cana e é isso que deveria acontecer com Quesada e Straczynski.
Amazing Spider-Man 545 mostra Peter e MJ encarando um tremendo dilema. Em suas buscas por entidades místicas capazes de ajudá-lo a salvar a vida da tia, Peter acaba trombando com Mefisto, que lhe faz uma oferta: Peter e MJ têm 24 horas para decidir o que lhe é mais caro, a vida de May ou seu relacionamento. Sim, numa das tramas mais furadas das histórias em quadrinhos, Mefisto oferece trocar a vida de May pelo amor de Peter e MJ. Segundo o coisa-ruim, ele deixará um pedacinho da alma de Peter intacta e lá residirão, de maneira latente e subconsciente, todas as memórias de sua vida em comum com a ruiva.
Quase toda a edição é dominada por Peter e MJ discutindo o que deve ser feito. O interessante é que em nenhum momento sequer o casal considera qual seria a posição da velha May perante aquele assunto. Ora, Peter sempre considerou a opinião e vontade da tia para tomar decisões importantes e justamente na hora de tomar uma das decisões mais importantes de sua vida ele a esquece? Faça-me o favor.
De qualquer maneira, o desfecho da história é aquele esperado... Ou quase. Peter e MJ aceitam o acordo, trocam sua vida em comum pela de May, com duas condições: que aquilo não se repita, ou seja, que a vida da senhora não seja novamente ameaçada pelo fato de todo mundo saber que Peter Parker é o Homem-Aranha (ele se desmascarou em Guerra Civil 2, lembram?) e uma outra que será comentada mais adiante. Mefisto dá um jeito nisso também. Ou seja ele apaga da continuidade o fato do Homem-Aranha ter se desmascarado em prol da Lei de Registro de Super-Heróis, um dos fatos primordiais da Guerra Civil. Com certeza a saga teria tido outro rumo caso isso não tivesse acontecido. Além disso, ele resolve o problema da pequena May Parker. Pra quem não se lembra, durante a Saga do Clone, MJ ficou grávida e deu à luz uma menina que logo foi sequestrada por uma seita intitulada "Os Scriers", a mando de Norman Osborn. Aos pais, no entanto, foi dito que a guria havia nascido morta. Com isso Quesada resolve outro problema incômodo já que a pequena May foi esquecida logo após a Saga do Clone e aparentemente ninguém queria retomar aquela trama. Sem casório, sem May, sem sequestro, sem complicações.
A outra condição "secreta" é que Mefisto dê poderes à Mary Jane e ela se torne a heroína Jackpot.
Pacto fechado, a coisa piora. Peter acorda na casa que sua tia vendera há séculos, atrasado para uma festa surpresa a ser dada para um amigo há muito desaparecido. Esse amigo, caro Omelenauta, é ninguém menos do que o novo "ex-falecido" Harry Osborn. Sim, o mesmo Harry que havia se tornado o Duende Verde e morrera ajudando Peter a salvar as vidas de MJ, Liz e Normie Osborn, respectivamente esposa e filho de Harry.
Ao que tudo indica, Peter voltou aos primeiros dias de faculdade, já que é amigo de Flash Thompson e Harry está voltando depois de um período na Europa, onde enfrentara uma reabilitação para superar o vício em drogas ao qual estava submetido na época em que o Duende Verde original assassinou Gwen Stacy. Mas aí é só especulação minha. Assim como o fato dele ter passado por maus bocados com MJ já que ela está presente na festa, mas sai mais cedo e Flash insinua que alguma coisa se passou entre os dois. Pra terminar, é introduzida uma nova personagem, Cally Cooper que tem tudo pra ser o mais novo "interesse romântico" do agora solteiro Peter Parker.
Nesse cenário, parece que quem menos importa somos nós, os leitores. E ainda fica a dúvida: Peter voltou no tempo e é um calouro da faculdade ou um cara quase trintão que ainda mora com a tia? Eu aposto na segunda opção, mas só quando "A brand new day" - o primeiro arco dessa nova fase - estrear é que vamos saber. E outras: com tudo isso, o Aranha ainda é membro dos Vingadores? Ele é um herói registrado ou rebelde? A tia May sabe que ele é o herói aracnídeo ou ainda cai nas desculpas esfarrapadas que ele dava pra justificar seus atrasos e machucados? Perguntas, perguntas, perguntas...
Eu gostaria de dizer que pior não poderia ficar mas, com essa história de uma pequena parte da alma de Peter saber o que perdeu, não duvide se em pouco tempo essa "pequena parte" crescer e motivar o Cabeça de Teia a ir ao inferno recuperar o que perdeu.
E depois reclamam quando as pessoas não levam quadrinhos à sério. Com tramas como essas, quem levaria?
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