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A magia precisa de regras? Brandon Sanderson e Mistborn dizem que sim

“Sempre que notarem uma inconsistência na história, culpem o mago”.
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Era uma vez, há muito tempo atrás, uma linda jovem chamada Sarah. Ela adorava brincar com seus bonecos e provar os vestidos que seu pai lhe presenteava, e passear com o cão pelo reino de Nova York aliviava a saudade que sentia da mãe.

A madrasta de Sarah, contudo, invejava sua liberdade, e por isso a obrigava cada vez mais a ficar em casa com seu irmãozinho – um bebê mimado e chorão que desejava tudo para si. Sarah se sentia uma escrava.

Mas o que ninguém sabia era que o Rei dos Duendes havia se apaixonado por ela, e com isso lhe concedido poderes. Então, em uma noite em que o bebê havia sido particularmente cruel, Sarah desejou que os duendes pudessem ajudá-la. “Diga as palavras certas”, sussurraram as vozes na escuridão. “Diga as palavras certas e nós o levaremos para o Labirinto”.

Gosto de magia. Aposto que você também. E ainda que exista um prazer inocente em sermos feitos de bobo por alguém usando cartola, creio que a ficção fantástica seja o lugar onde nós realmente gostamos de vê-la em ação, construindo as metáforas que nos ajudam a compreender o mundo real.

No entanto, gosto de parafrasear Homer Simpson quando digo que, assim como o álcool no mundo real, a magia pode ser a causa e a solução de todos os problemas na ficção fantástica. Nas mãos do sábio, uma força criativa. Nas do inexperiente, destruidora. E eu não me refiro exclusivamente ao lado de dentro da história.

Durante a CCXP 2016, quando abordado por um jovem aspirante a autor que me apresentava seu trabalho, questionei-o sobre as regras do sistema mágico do livro que ele estava escrevendo.

“É magia, ué”, respondeu ele, dando de ombros. “Não tem regras”.

“Então por que Gandalf simplesmente não “fez uma mágica” e desapareceu da torre onde Saruman o aprisionou?”, retruquei.


“Para inventar o mundo dos magos tive que investir um tempo absurdo aprendendo sobre alquimia. Talvez a maior parte desse estudo eu nunca venha a usar nos meus livros, mas preciso conhecer em detalhes o que a mágica pode e não pode fazer, para que possa estabelecer os parâmetros e encontrar a lógica interna das histórias”. – J. K. Rowling

A definição da própria palavra (“a produção de atos extraordinários e sobrenaturais”) costuma dar margem ao equívoco; o que as grandes obras de fantasia nos ensinam é precisamente o oposto da resposta que o jovem me apresentou: dos contos de Grimm ao reino de Westeros e os novos clássicos, a magia enquanto recurso literário respeita estruturas (por vezes vagas e misteriosas) para que a narrativa se mantenha coesa.


Um dos maiores proponentes da discussão é Brandon Sanderson. Autor da excelente série de livros Mistborn (cujo capítulo final da trilogia acaba de ser lançado pelo selo LeYa/Omelete), Sanderson propõe – de forma divertida – três “Leis” da Magia que sintetizam e apontam os holofotes para os elementos-chave do assunto:

1) Primeira Lei de Sanderson: a habilidade do autor resolver um conflito com mágica é DIRETAMENTE PROPORCIONAL a quão bem o leitor compreende tal mágica.

Exemplo: a forma como o Doutor Estranho barganha com Dormammu, utilizando-se de um artefato previamente apresentado durante a trama.

Enquanto ferramenta de escrita, a magia é capaz de envolver os leitores em um jogo deliciosamente imersivo OU afastá-los com Deus Ex Machinas impossíveis de digerir. Como bem sugeriu John Campbell, um dos mais influentes e importantes editores da história da ficção científica (e crítico ferrenho do gênero aqui em discussão), a fantasia medíocre é aquela que “inventa uma nova regra sempre que precisa de novas regras”. Sem esforço não há mérito, e a mente humana – no jogo constante em busca de consistência, padrões e simetria – tende a se desligar da obra como se lhe arrancassem o plugue da Matrix.

2) Segunda Lei de Sanderson: limitações > poderes.

Exemplo A: No mundo de Harry Potter, magos e bruxas utilizam varinhas com o intuito de canalizar a magia, aumentando a precisão e a potência dos feitiços. Ainda que a magia “a mãos livres” exista, sua prática é volátil e extremamente difícil – mesmo para os mais poderosos e experientes.

Exemplo B: Superman (sim, superpoderes também funcionam da mesma forma que “sistemas mágicos”) enfrentando um robô gigante qualquer? Bacana. Vê-lo enfrentar um robô gigante cuja bateria central é feita de Kryptonita? Melhor.

Exemplo C: “Regra número um: não posso matar ninguém... então não peça! Regra número dois: não posso fazer ninguém se apaixonar por você, lindão. Regra número 3: não posso trazer ninguém de volta dos mortos... Não é uma imagem bonita, EU NÃO GOSTO DE FAZER!!”. – Gênio da lâmpada, Aladdin

O que a magia PODE fazer tende a ser menos interessante do que ela NÃO PODE. Limitações provocam conflitos – faz personagens (e escritores) contornarem dificuldades e lutarem por objetivos de forma inteligente.

3) Terceira Lei de Sanderson: expanda o que você já possui antes de criar algo novo.

Exemplo: A Força, em Star Wars.

Antes de abrir o baú criativo e libertar outros poderes mágicos em seu universo, por que não examinar como a sociedade reage a UM, primeiro? Determinada cultura com tendências violentas pode usá-lo como arma, enquanto outra mais pacífica talvez o enxergue como forma de engenharia ou cura. Sistemas mágicos memoráveis tendem a ser aqueles com relativamente poucos poderes, porém muito bem aprofundados pelo autor. Se sua mágica pode transformar pedra em pão, como isso afeta o mundo ao redor dos personagens? Como a economia, a política e outros itens da estrutura social reagem a algo assim?

A magia precisa de regras? Faço parte da escola que responde “sim” – o que não significa que não possamos distorcê-las. Apesar do uso da palavra “leis”, Brandon Sanderson reforça em entrevistas que, da mesma forma que é possível violar regras gramaticais ou musicais e resultar em um resultado positivo, escritores podem (e devem) experimentar com as limitações dos seus sistemas mágicos. Conhecer profundamente a estrutura, todavia, será sempre crucial para que possamos violá-la – da mesma forma que um ilustrador precisa dominar a anatomia humana básica antes de ilustrar o Hulk.

Um Hulk bem desenhado, pelo menos.


Magia. Qual o lance, heim? Me pergunto o que vocês estavam querendo quando entraram no jogo... É sempre algo. Algo específico que você acha que vale o risco. Dinheiro. Sexo. Vingança. Poder. Iluminação. Coxas menores. Faz muito tempo para a maioria de vocês, eu sei. Talvez vocês nem se lembrem. Merda, talvez nem queiram. Mas eu vou lhes dizer algo de graça: no final das contas, é sempre sobre a mesma coisa. É sempre sobre entropia. Sim, entropia. O universo está desmoronando. Coisas estragam. Você não pode pedir algo sem nada em troca. É como Deus disse a Adão quando o chutou para fora do paraíso: “agora você tem que trabalhar para viver”. Então hoje nós empurramos e puxamos e suamos. Damos uma porrada de energia em troca de quase nada. A terceira Lei da Termodinâmica, certo? Aquela que todos amamos odiar. Mas com magia é diferente... Olhe para este vinho. Como ele chegou aqui? Uvas tiveram que ser esmagadas. Camponeses tiveram que ralar. Muito esforço. Muita energia. E uma vez que você o beba, acabou. Quando as coisas desmoronam, elas não se recolocam no lugar sozinhas... Mas se você pede a um demônio que lhe traga um bom vinho – ou melhorá-lo com um feitiço – bom, você está trapaceando, não está? É de graça. Sem uvas. Sem camponeses. Sem entropia. Então aqui estamos nós, buscando recriar o Paraíso na Terra. Tentando nos esgueirar de volta ao Éden pela porta dos fundos. Seus arrogantes de merda... Não estamos brincando com fogo; estamos brincando com napalm”.

– John Constantine, edição 215, R.S.V.P., por Mike Carey

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Leia todas as colunas de Affonso Solano

*Affonso Solano  é cocriador do Matando Robôs Gigantes, escritor do livro O Espadachim de Carvão e tem um canal no YouTube chamado Hora Super.

Eu vi na Saraiva neste final de semana um livro de coletânea de contos "As Melhores Histórias de Viagem no Tempo". pela lista de autores de contos, parece coisa boa. Mas, minha pilha de livros para ler em 2017 tem a maior cara que só vai acabar em 2018! hehehe Tenha uma dica de filme: "Os Cronocrimenes - Matar É uma Questão de Tempo". Roteiro muito, mais muito engenhoso mesmo, lidando com viagem temporal e justamente o oposto do que você reclamou: a cara não viaja no tempo para mudar o passado, na verdade, toda luta dele é para não criar paradoxo temporal. O diretor/roteirista espanhol, Nacho Vigalondo devia estar iluminado porque, depois desse filme, não acertou mais nada. ;)

Eu sou uma grande fã de ficção científica e fantasia, mas eu não conhecia ainda esse autor, Brandon Sanderson. Nos últimos anos eu desviei um pouco o meu interesse em ficção especulativa mais para o lado da ficção científica do que para o da fantasia* e não tenho lido e procurado tanta literatura de fantasia, mas esse autor me deixou realmente interessada e curiosa. Talvez eu compre em e-book ou mesmo em livro impresso algum livro dele para experimentar se ele realmente vale a pena ler, porque pra mim é muito difícil encontrar fantasia boa ultimamente, e encontrar uma série que vale a pena ler é sempre um grande prazer. * eu tenho um problema pessoal com o gênero da fantasia: você pode ter tanto ficção científica e fantasia de boa qualidade quanto de má qualidade, mas pra mim a ficção científica quando é de boa qualidade é realmente boa e quando é má qualidade ainda pode ser aceita como boa ou medíocre, enquanto que a fantasia quando é de boa qualidade é boa mas quando é de má qualidade ela é realmente péssima e não dá pra suportar de maneira alguma, e me parece que o gênero da fantasia atrai muito mais escritores medíocres que escrevem livros ruins de fantasia em massa do que o gênero da ficção científica, então com o tempo eu acabei perdendo paixão pelo gênero da fantasia.

Me lembra da série Terramar da Ursula K. Le Guin, em que os feiticeiros vão para escolas, aprendem magia, saem das escolas e vão procurar emprego como feiticeiros em cidades e vilas mantendo um status comum na sociedade, como se aprender magia fosse apenas um curso universitário que você faz para tirar um diploma e arranjar um ganha-pão.

E depois uma peça de teatro-fanfic recuperou um vira-tempo do nada só para criar toda uma história de viagem no tempo copiada do De Volta para o Futuro. Um dos enredos mais batidos e irritantes de histórias de viagem no tempo é o personagem querer voltar no tempo só pra mudar e reescrever o rumo da história, seja o herói impedir uma tragédia que já aconteceu há muito tempo ou o vilão mudar a história para o mal vencer, e no final tudo voltar ao normal. Eu me recuso a ler ou assistir histórias de viagens no tempo que contenham essa fórmula como enredo principal (o que infelizmente ainda é muito frequente, o que talvez seja o principal motivo para viagem no tempo ser um dos meus temas de ficção especulativa menos preferidos de todos).

Outra coisa super interessante do universo de Eragon: vc tem que tomar cuidado com o que diz ao lançar uma magia. Uma vez dita, não tem volta, a menos que o mago tenha deixado uma brecha na própria magia pra poder encerrá-la caso a tarefa seja exaustiva demais.

Em outras palavras tudo o que conta nesse gênero é o mesmo que em todos. Coerência.

Clap,clap,clap que referencia fantástica, citar o mestre aqui. Em pleno século 21.

Na verdade, essa é uma das principais diferenças entre High e Low Fantasy. Sou fã de Sanderson e defensor desse estilo, mas isso não quer dizer que um livro onde a magia não possui regras (nem custos) seja ruim. Acho que principalmente em casos onde a magia pode solucionar o problema de uma trama, ela deve ter um "custo", senão nunca existirá o problema. Por falar nisso, para quem gosta de livros de fantasia e ficção, recomendo o podcast do AGENTES do LIVRO! Abraços!

Claro que precisa de regras. Senão por qualquer outro motivo, ao menos pelo mesmo que qualquer outro elemento, por mais fantástico que seja, também precisa: a verossimilhança, que deve existir dentro de qualquer obra.

Obrigado, assim que puder darei uma conferida... Quem sabe isso não muda minha perspectiva com o gênero.

\0/ Em português temos a trilogia "Mistborn", o standalone "Elantris" e um YA chamado "Coração de Aço". Se puder ir de inglês, Toda série Mistborn vale a pena. Já que existe outra trilogia, passando centenas de anos depois, mas com o mesmo sistema de magia, atualizado para o contexto da época. É insano ver, essa questão de regras, limitações se modificando a cada livro e sempre tendo impactos na economia e religiões do mundo ;D E por ultimo, Stormlight Archive, a aleph tem os direitos mas ainda sem tradução aqui. É outro nível, tanto de escrita como estrutura. Vale a pena conhecer o trabalho do Sanderson. Se quiser explodir a cabeça, procure por Cosmere.....

Masah, Affonso véio!

Um dos pontos mais interessantes do universo do polonês Andrzej Sapkowski (autor dos livros que inspiram o jogo The Witcher) é como a magia interfere na sociedade. Magos não são apenas eremitas vivendo em locais isolados ou sob clãs secretos. Eles se envolvem na sociedade, podem ser necessários às cidades, prestam serviços à corte e/ou aos ricos, são agentes políticos importantes que mudam o destino das nações com suas tramas.

Obrigado pela dica, amigão. Se puder me fazer uma listinha, agradeço!

Leia os livros do Brandon Sanderson!!! Mistborn é incrível como ele brinca com isso. Ele vai aumentando a escala dos poderes mas tudo dentro do limite estabelecido, e influenciando o mundo, economicamente, por exemplo.. E o melhor, é possível ler as anotações sobre os capítulos no site do autor e ae você vai se aprofundando no sistema criado por ele.

Interessante, mas acho que faltou abordar o sistema de magia de jogos, pois estes são obrigados a ter regras para que o jogo não perca o desafio. Eu me interesso por criar sistema de RPG, e o sistema de magia é muito importante, ainda mais os limites, pois se não fosse não teria como diferenciar um mago nível 1 de um nível 20, e ainda de um deus.

É isso o que eu digo pra pessoa que fala que o Bran vai "wargar" um dragão. É meio absurdo. Aí a pessoa vem e fala: "Mas em asoiaf/got tudo é possível, eu não duvido de nada". Ah, minha doce criança do verão kkkkkkkk

Perfeito, Affonso Solano. É o que sempre acreditei também e é justamente por isso que a magia do Dr Estranho e a do Timothy Hunter são tão diferentes. Por causa das regras que movem o universo diegético dentro da história. Isso faz toda a diferença. Parabéns pelo texto.

Existem obras onde a magia é mais limitada a quem usa por exemplo no Ciclo a Herança (Eragon) onde a magia está diretamente relacionada ao folego do praticamente. Se você usar muita magia e não puder suportar o cansaço, morre. No anime Fairy Tail é mais ou menos a mesma coisa, se você ficar usando muita magia vai acabar cansando e terá que esperar "recarregar".

Ele morreu aos 30, ainda pior... =/

Sim! Escrever sistemas mágicos é uma das coisas que mais gostava de fazer na minha juventude. =)

Ótimo texto! Eu nunca fui fã de histórias centradas em magia, vide HP e percebi ainda mais isso em Doutor Estranho, pq a noção que isso me passa é que esses personagens acabam sendo "PICAS" demais! É dificil em uma historia eles delimitarem o que é possível ou não.

Mandou muito bem no texto.

<b>fantástico:</b> que ou aquilo que só existe na imaginação, na fantasia. viagem no tempo = não existe. ficção científica = algo fantástico com uma pseudo explicação cientifica.

"É magia. Não precisa de explicação." QUESADA, Joe. Brincadeiras á parte, concordo que magia precisa de regras. "Você deve compreender que todas as coisas estão interligadas. Cada ação tem sua própria consequência. Existe um equilíbrio universal. Se trouxer água para cá para aplacar a sua sede, poderá estar transformando terras férteis em desertos em outras partes." (Mestre dos Magos, no episódio "O dia do Mestre dos Magos", da Caverna do Dragão)

Tem uma contradição clássica, que é justamente nos filmes. Nos livros não se pode aparatar dentro dos castelos de Hogawart, mas na cena em que o dumbledore aparata com o harry para a caverna de voldemort, onde eles pegam o medalhão de salazar sonserina, no filme, eles aparatam dentro do castelo e nos livros é completamente diferente. Primeiro eles saem do castelo para depois aparatar. Contradições nos livros são bem poucos, o problema mesmo é na adaptação.

Acho que a maioria das contradições no harry potter concentram-se mais nos filmes que nos livros, inclusive. Tive alguma dificuldade de lembrar nos livros de algo que fosse realmente discrepante e que desestrurasse o que foi criado. Principalmente quando consideramos que não é uma história fantástica com alguns elementos mágicos, mas que querendo ou não, tem na magia a base do universo desenvolvido por ela. Um universo que precisava coexistir com o nosso. Seja como for, não escrevo e não crio universos, mas imagino como deve ser difícil fazê-lo, principalmente quando utilizam magia. Agradeço aos que tentam, principalmente quando conseguem fazê-lo com considerável sucesso.

Concordo. O cara era um genio.

Enquanto isso John Dee e Aleister Crowley se reviram em suas catacumbas...

Está insinuando q viagem no tempo não tem lógica? Viagem no tempo sempre foi tema de ficção científica, não me venha essa de "algo fantástico".😡

Ah! Eu adoro Robert E. Howard, mas nesse assunto de regras da magia, ele era muito ligeiro em criar soluções "Deus Ex-machina". talvez por ser característica do Pulp Fiction e por ele ter que escrever sempre rapidamente para cumprir prazos, era comum que, no fim das tramas, surgisse alguma "nova regra" ou um "personagem conveniente demais" só para resolver a parada. mas ele estava amadurecendo e se dando conta disso. Suas melhores histórias "Além do Rio Negro" e "Pregos Vermelhos", já seguiam as normas: explicavam o universo do conto e suas regras e respeitavam elas até o final. Foi realmente uma tragédia ele ter se suicidado aos 36 anos, justo quando estava legando ao mundo alguns dos melhores contos de fantasia já escritos.

O maior risco que a Rowling correu durante o desenvolvimento da saga veio dos vira-tempos. Tanto que o Sanderson deveria ter enunciado uma quarta lei: "4. Deixarás as viagens no tempo para os Doctors." Felizmente, logo ela deu um jeito de "quebrar" todos os vira-tempos. Não foi lá a solução mais elegante, mas foi a solução necessária para que suas regras não fossem questionadas posteriormente.

Adoro ler Brandon Sanderson por causa das inovações que ele trouxe para o gênero. Por exemplo, a trilogia Mistborn, que acabei de ler no dia 31/12, quebra de uma série de clichês clássicos do gênero fantasia. No primeiro livro, nossos "heróis" já conseguem um feito que só deveria ocorrer no fim da trilogia. Ué... No segundo livro, o próprio conceito de "profecia" é revisto com uma reviravolta final digna dos melhores romances policiais. Por fim, na conclusão, ele utiliza um estilo literário que eu nunca vi antes: a ação se desenvolve em terceira pessoa e no tempo presente, seguindo as ações ora de um personagem, ora de outro, tudo no melhor estilo moderno, tipo George Martin. Até aí, nenhuma novidade, só que, pouco antes de cada capítulo iniciar, existe também pequenos trechos de uma espécie de relato, narrado em primeira pessoa e que claramente está sendo escrito no tempo FUTURO em relação a ação que estamos acompanhando. Essa técnica, que eu jamais havia visto antes, permitiu ao Sanderson resolver aquele que talvez seja o mais antigo problema das narrativas de ficção onde heróis enfrentam vilões, que é justamente o fato do leitor perceber antes os planos do vilão e achar sempre que os heróis demoram demais para sacar as coisas. Ou seja, os heróis são, em geral, mais burros que os vilões, esses "gênios do crime". Só que a técnica que o Sanderson usou, dando informaões "do futuro" para o leitor, eliminou isso! E ainda teve, como um plus adicional, a criação de um suspense. Por exemplo: ele explica regras da Hemalurgia de forma clara para o leitor, enquanto que os protagonistas ainda estão tentando deduzir o que está acontecendo tendo apenas os efeitos da Hemalurgia como pistas. As leis do universo mágico de Mistborn foram totalmente explicadas antes do desfecho: Alomância, Ferruquemia, Hemalurgia... Todas as regras estão ali, mas o mais importante é que o autor sabe que, dentro das leis que criou, ainda precisa surpreender o leitor. E ele surpreende. A chave de tudo esta nisso: para haver surpresa, não pode ser um "deus ex-machina" ou uma regra inventada de última hora. Você pode estar escrevendo fantasia, mas tem que seguir as regras do romance policial, tem que surpreender no final, respeitando "as leis" que criou.

Aqui está a história, pra quem se interessar em ler. XD https://www.wattpad.com/story/43545013-guardi%C3%B5es-do-limiar

É meu livro que está no Wattpad. A história é sobre dois universos diferentes, se encontrando. XD https://www.wattpad.com/story/43545013-guardi%C3%B5es-do-limiar

Aqui está o link da história, pra quem estiver interessado. XD https://www.wattpad.com/story/43545013-guardi%C3%B5es-do-limiar

AHahAUhaUAHuH. É meu livro, Guardiões do Limiar. Ele está online no Watpad. Caiporas, Pescadores e Nórdicos são os três povos que aparecem na história por enquanto. XD

Exato. Isso acontece bastante também nos filme. Na batalha final raramente se ouvia alguém pronunciar um feitiço.

Um exemplo disso eh quando, na Batalha do Ministério, o Neville quebra o nariz e não consegue pronunciar um feitiço que seja, por isso no ano seguinte uma das coisas que o Snape tenta ensinar eh a fazer feitiços sem falar.

Tu fala desse teu livro como se todo mundo soubesse o que é kkkkkk O que diabo são nórdicos, pescadores e caiporas?

Nórdicos e Caiporas? Interessante...conte mais, por favor kkk

Isso faz com que a varinha seja, de certa forma, uma "limitação" desse universo. A maioria dos bruxos em HP são meio inúteis sem varinha.

Parabéns Affonso! Texto foda.

Porra, Affonso... texto espetacular! Muito obrigado, pois possibilitou estímulos ao meu foco. Sobre o retorno das minhas produções.

Olha eu não sinto tanto isso em relação ao universo de Harry Potter o tom dele é essa magia mais fantasiosa, quase conto de fadas, em que nas aulas você aprende a fazer xícaras virarem cagados entende?! E se você se lembra nos primeiros anos eles penavam pra fazer transfigurações, e dominar certos feitiços é difícil. Lembra também quando o Harry descobre o que é a ultima prova do torneio tribuno ele passa dias treinando novos feitiços, como o impedimenta, o protego e outros? Tem isso de que dominar um feitiço é difícil pra eles. Além de ser complicado fazer magia com as mãos nos livros ela costuma acontecer em momentos de descontrole mais extremos, como quando o Harry faz a irmã do tio Valter virar um balão, analisando agora enquanto escrevo, sem a varinha a magia é descontrolada e imprecisa e isso também é uma limitação. Mas também acho foda quando a magia é mostrada de uma maneira mais visceral, em que existe um grande preço a pagar, em que é difícil de ser realizada. Ou quando é algo mais subjetivo e menos fantástico é muito charmoso e massa. Eu não to dizendo que você ta errado o que ta ai em cima é sua opinião e não da pra dizer que uma opinião esta errada isso vem das preferencias de cada um. Eu só senti vontade de dizer isso por motivos internos de uma força maior que eu desconheço haha. Me desculpe se algo no meu texto te irritar e espero que não.

Belo texto afonso. Quando a magia é usada de forma absurda, fica realmente monótono. imitações > poderes That's all folks!

No universo de Conan O Barbaro, os magos tem grande dificuldade de invocar magias, na maioria das vezes depois da conjuração eles ficavam fracos.... Se bem me lembro, Tulsa Doom explica isso para um de seus discípulos.... Apesar de gostar dos livros de Harry Potter, eu sempre achei que os mais jovens tinham muita facilidade para o uso da magia, eu sei que ela criou o Ministério que monitorava o uso de magias, mas mesmo assim, muita liberdade....

As pessoas costumam complicar viagens no tempo, pq querem atribuir lógica a algo fantástico.

Texto muito bom, parabéns Affonso! Parece ironia em se tratando de fantasia, mas regras bem delimitadas tornam a coisa mais real, o que torna a experiência final melhor. Nada como sentir e se compadecer com as limitações e obstáculos impostos a um personagem para embarcar de cabeça na jornada dele. É fácil ver como isso é efetivo só olhando os comentários: logo de cara o pessoal já saca exemplos de como a magia bem construida ajudou ou como o overpower atrapalhou a qualidade de certas obras.

Quando eu comecei a escrever era muito novo, mas agora minha escrita mudou e hoje eu tenho algumas concepções bem diferentes. Mas eu tenho feito como você disse, mostrado a amigos e usando as críticas pra melhorar... se Deus quiser, termino na metade de 2017.

Elantris é bem do começo da carreira dele, dá pra sentir a evolução de uma obra pra outra. O bom dele é que por ser volume único, é um dos melhores títulos para dar de presente.

Leia o Nome do Vento de Patrick Rothfuss. O sistema que ele criou é tão elaborado que parece ciência! A maneira como ele explica as regras da Simpatia, Singlística, Alquimia e da arte da Nomeação superam qualquer literatura fantástica que eu ja tenha lido.

Gosto muito do sistema em Fullmetal alchemist A forma como ele apresenta as regras, as limitações E isso é sempre usado como base pros conflitos nas histórias no começo parece tudo mágico e simples e com o passar do tempo você vai aprendendo que é muito mais complexo e "cientifico".

Esse negócio também se aplica à questões científicas como a viagem no tempo. As regras das viagens no tempo nem sempre são claras

Lembre-se que o mais importante é terminar o livro! Ficar um tempão escrevendo, mudando, ajeitando, pra nunca lançar... não é legal! Foque em terminar o livro, mostrar para alguns amigos, e a partir da crítica fazer alguns ajustes finais.

Se eu errei em tudo enquanto escrevia meu livro, pelo menos com relação à magia eu não errei. Criei não um, mas TRÊS sistemas, um para cada povo; os nórdicos, os pescadores e os caiporas. Foi difícil imaginar como cada uma dessas formas de poder deveriam funcionar e como elas modificariam as respectivas sociedades, mas eu consegui.

Excelente artigo. Adoro os livros do Sanderson e faz um tempo que li a série mistborn, porém em inglês. Feliz em saber que saiu o terceiro livro da mesma em português. Porém ouve um pequeno erro no artigo, a série não é uma trilogia, na verdade ela possui 6 livros. Após a trilogia inicial, o autor continua o conto inclusive expandindo o número de metais alomanticos.

De Sandreson eu li Elantris que é bom, mas bem feijão com arroz e a resolução para o grande mistério não é algo que ele tenha nos dito antes no livro, não chega a ser um Deus Ex Machina mas foi o que mais me incomodou. Contudo, acho que é um bom escritor e pretendo ler Mistborn.

genial

Definitivamente magia/supernatural precisa ter regras. A gota d'água pra não ter aguentado muito "Percy Jackson" foi isso.

Brandon Sanderson é overrated, não deixem o trem do hype atropelar vocês. Seus livros são simples e funcionam como novelas: desenvolvem personagens que tramam uns contra os outros simplesmente porque querem; tem pouca abordagem filosófica; é mais fã de sua obra do que de seus fãs. Resumindo, não é um autor de livros inteligentes, que nos fazem pensar, mas é entretenimento simples e daqueles que você esquece depois que termina. É bom se comparado a Harry Potter ou Game of Thrones, mas fica bem abaixo de autores que sabem abordar moral e filosofia. Leia os livros do Witcher se querem ver como um livro de fantasia para adultos realmente deve ser.

Belo texto, curti os exemplos citados (o do Gênio do Alladin acho que sintetiza todo o assunto).

Excelente matéria. Que venham muitas como esta Omelete.

Eu tenho o primeiro e também tenho Elantris que é dele, vou terminar os livros das crônicas saxônicas que comprei na Black Friday e vou ver se consigo comprar os que faltam de Mistborn.

Mano, eu li o primeiro, é muito bom!! O sistema de magia/alquimia dele é sensacional. Brandon é muito foda!

"E uma vez que você o beba, acabou". Estou nessa oração até agora.

Preciso terminar de ler os últimos das crônicas saxônicas e vou comprar os dois últimos livros de Mistborn.

Gostei muito do artigo. Realmente muitos novatos não veem como a magia pode ser poderosíssima demais e, ao mesmo tempo, ser anulada com coisas simples como um desarme de um bruxo de HP ou até mesmo amordaçar algum mago comum impedindo-o de falar palavras mágicas. Ou quem sabe até ideias mais malucas como embriagar o mago... Parabéns pelo artigo.

Por isso que eu curto Hunter x Hunter. O sistema de magia é bem equilibrado, com limitações e bem explicado.

Seria legal um artigo sobre os limites das viagens no tempo.

Calma aí, que harry potter tem contradições, todo mundo sabe, mas que é cheio, aí também não exagera.

Meo Deos

O importante é que no livro a história esteja bem contada, como o autor vai tratar a magia será um detalhe que agradará ou desagradará o leitor, mas que será ou bem aceito ou relevado diante da boa história. Harry Potter, por exemplo, é cheio de contradições, indicando que a autora não criou regras ou que está sempre subvertendo-as ou está simplesmente esquecendo das próprias regras.

Sensacional o artigo, magia sem limitação vira bagunça hehe!

Parabéns Affonso Solano do MRG para o mundo. Show :)

Realmente, sempre me impressiono de como ele consegue sacar da cartola um sistema de magia completamente diferente mais sempre complexo e coeso. E que complementa o mundo e a história que ele conta, sempre genial. Todos os livros dele valem a pena ler.

Gostei.

Cara, que artigo incrível! Seria legal também falar sobre o sistema de magia que o Robert Jordan fala nos livros da série A Roda do Tempo.

Não só eles, o mundo precisa conhecer Brandon Sanderson. xD

Amei esse artigo! Eu já tô uns 9 anos escrevendo um livro com elementos fantásticos, mas vivo metendo a cabeça em livros e fazendo pesquisas para estabelecer bem a parte "mágica" da trama.

Affonso Solano é servo de Babalon

O mundo precisa conhecer Mistborn e Stormlight Archives...

O exemplo negativo disso é o que acontece com Dragon Ball. A cada vez que uma magia ou poder novo surge, não há limitações. Toda hora surge o ser mais poderoso do universo com o golpe mais poderoso do universo, e aí alguns capitulos depois ele é superado graças a um deus ex machina.

Belo artigo, curti mesmo! Os universos fantásticos que acho mais fascinantes são os que tratam a magia como algo instável, que cobram caro o preço de seu uso. As limitações sempre vão ser mais interessantes, pois desenvolvem os personagens. No universo do G.R.R Martin, tem um dizer popular que "a magia é uma espada sem cabo", os seus usuários vão sempre se cortar ao manuseá-la. Esse é um conceito sensacional, cumpre as três leis do Sanderson: demonstra como a sociedade reage, cria uma limitação de seu uso e serve como princípio dos elementos mágicos. Outro exemplo que criou conceitos fantásticos de "magia" é de um dos meus animes favoritos, Full Metal Alchemist. As regras da troca equivalente (retiradas da própria alquimia) são muito, muito fodas, pois estabelece que nada pode ser criado do nada, a fim de criar algo outra coisa de igual valor deve ser destruída. Os protagonistas são moldados a partir da tentativa de burlar essa regra e muito dos conflitos na trama envolvem a troca equivalente.

Sanderson é um dos melhores autores de sua geração... Uma pena o texto acima não ter ficado muito fluido.

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