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Gay Nerd | Irmãs Wachowski e representatividade trans

O que as Wachowski representam para o mundo nerd vai além do que se vê
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Imagine a seguinte situação. Você está em casa, de boas, cuidando da sua vida, cozinhando ou assistindo seu seriado favorito. A campainha toca e diante da sua porta está um jornalista de tablóide, "educado" e persuasivo, querendo contar a sua maravilhosa história para o mundo. Você é uma pessoa trans, famosa pelo seu trabalho, mas ainda não decidiu expor sua intimidade para o mundo e revelar este detalhe tão precioso da sua vida íntima. O jornalista em questão quer te tirar do armário, lucrar com sua história e não está preocupado com as consequências que isso pode lhe causar, muito menos preocupado com o fato de que está te chantageando, oferecendo um "direito" de falar antes da história ser publicada. Enfim, um momento singelo, digamos, de invasão de privacidade e desrespeito.

Foi o que aconteceu com Lilly Wachowski, de 48 anos, que se assumiu trans nesta semana. Sua irmã é Lana Wachowski, 50 anos. Se nunca ouviu falar delas (que nerd é você, hem? hahaha), ambas são cineastas e roteiristas que deram vida a Matrix e Sense8, apenas para citar alguns dos trabalhos da dupla. Lilly, no direito de preservar sua privacidade e assumir as decisões sobre a própria vida, resolveu contar ao mundo através de uma carta o tal furo de reportagem do tablóide. Para mostrar que estava no poder, escolheu onde iria publicar seu desabafo: no Windy City Times. Falou sobre sua transexualidade e expôs o lado obscuro da indústria de celebridades.

É claro que o fato de Lilly ser uma pessoa pública e famosa a coloca naturalmente nos holofotes, principalmente quando sua irmã Lana é transgênero assumida desde 2012. O tal do fator "jornalístico" entra aqui com a "bomba" que é descobrir que as duas irmãs são trans, algo "exótico" que merece uma capa. É comum encontrar familiares trans? Não sei, mas conheço muitos casos de irmãos gays e lésbicas. Inclusive conheço uma família de quatro irmãos em que os dois filhos são gays e as duas filhas lésbicas. Não existe uma regra ou um padrão quando falamos de sexualidade e identidade de gênero, migues.

"Mas Isaque, quais os impactos dessa revelação na cultura pop?" Ora, é gigantesco. Lilly abre sua intimidade e privacidade para chamar a atenção para um assunto que temos conversado muito aqui na Gay Nerd: representatividade. E não somente representatividade na ficção, mas na produção do entretenimento que adoramos consumir. Imagine quantas pessoas trans vão se identificar com Lana e Lilly e se inspirar para ser quem são, para conquistar sonhos e saber que são capazes de alcançar novos horizontes. Imagine quantas pessoas trans vão assistir às produções das irmãs e sentir verdade, representação. É um passo importante com um custo alto para a vida pessoal das Wachowski, mas uma luta que elas decidiram lutar.

Mandy Candy, mulher trans, youtuber e grande porta-voz da causa no Brasil me disse: "Por ser famosa, ela passa a ter uma exposição maior a transfobia. Imagina ter toda sua vida e intimidade jogada na internet, televisão e revistas. Infelizmente sempre irão comparar a imagem que tinham antes da transição com a pessoa que ela realmente é. Deve ser uma barra."

Nascer LGBTI é crescer em um mundo hostil que quer te encaixar em padrões binários, pré-estabelecidos. Se homens gays são boicotados na indústria do entretenimento (vide o boato de que Matthew Bomer não assumiu o manto de Superman no lugar de Henry Cavil por ser abertamente gay), imagine pessoas trans que, na maiorias das vezes, por preconceito e falta de informação, são incompreendidas pela própria comunidade? É no entretenimento e na ficção que buscamos abrigo, buscamos histórias que falem por nós, personagens que façam nosso coração arder e nos mostrem um horizonte de esperança e aceitação. É para que isso se torne cada vez mais comum e presente que pessoas como Lilly e Lana estão dispostas a colocar a cara no sol.

Um dos trechos da carta de Lilly Wachowski (você pode ler na íntegra aqui) diz o seguinte:

"Mas estas palavras, "transgênero" e "transicionado" são difíceis pra mim porque elas perderam sua complexidade ao serem assimiladas ao mainstream. Existe uma carência de complexidade no tempo e espaço. Ser transgênero é algo compreendido largamente como existir entre a denominação dogmática de masculino ou feminino. E "transicionar" implica um senso de imediatismo, um antes e depois de uma nomenclatura para outra. Mas a realidade, minha realidade, é que eu estou transicionando e vou continuar transicionando minha vida inteira através do infinito que existe entre masculino e feminino, assim como acontece no infinito entre o binário zero e um. Precisamos elevar o diálogo além da simplicidade do binário. O binário é um falso ídolo".

Ela quer deixar claro que, embora haja representatividade trans e o conhecimento dos conceitos que permeiam este universo, é preciso entender que o ser humano é muito mais complexo do que zero/um, masculino/feminino, homossexual/heterossexual, não-transicionado/transicionado. Na tarefa de tornar compreensível esta complexidade, simplificamos no binarismo, que é, no fundo, uma grande cilada. É esta complexidade, inclusive, que vemos em Sense8 com os personagens, todos com características próprias, experimentando novas sensações e visões de outras mentes, universos tão complexos quanto cada universo particular. A cena do sexo grupal na banheira sintetiza o que sua criadora quer dizer: somos mais coloridos do que podemos ver e estamos em eterna transição.

E então volto com mais palavrinhas sábias de Mandy Candy: "Ela, ao assumir sua transexualidade, trouxe o assunto à tona novamente, ainda mais por ser irmã de outra mulher trans. Mostra que não existe idade para ser quem você realmente é! Acredito que seja uma referência muito bacana para quem ainda tem receio de transicionar, seja pela idade ou família."

O fato de Lilly Wachowski sair do armário é muito mais do que uma curiosidade do mundo nerd, de Hollywood ou do mundo das celebridades. Lilly saiu do armário para nos dizer que precisamos ir além na compreensão da representatividade trans e na compreensão da complexidade humana. Só assim pararemos de rotular as pessoas e aceitaremos o desconhecido infinito que é viver e ser humano. 

Enquanto fazia a pesquisa para escrever este texto, soube que  não poderia escrever sobre o tema sem dar voz a pessoas trans. Como fazer uma reflexão sobre representatividade trans sem dar espaço a quem realmente pode falar com propriedade? Mandy Candy e Hugo Nasck estão aqui para representar. 

Hugo é uma pessoa trans, não-binária, e youtuber. Seu trabalho tem sido esclarecer as questões de gênero e dar voz a pessoas que não se sentiam representadas. Tudo isso através de vídeos e ótimas reflexões. Ele topou falar com a coluna e escreveu um texto tão belo, intenso e honesto que foi impossível utilizar apenas trechos. Senti a necessidade de publicar na íntegra. 

Os pensamentos de Hugo Nasck dão o brilho e profundidade que esta discussão precisava. Confira abaixo (e não deixe de acompanhar o trabalho delx):

"É difícil comentarmos a ligação familiar de pessoas trans. Quando convivemos mais com a comunidade de pessoas transexuais ou transgêneras nos deparamos com casos onde há mais pessoas assim em uma mesma família. Mas como ainda não há muitos estudos sobre isto, ficamos na suposição daquilo que vemos e ouvimos. Entretanto, acredito que quanto mais quebrarmos o conto de fadas no qual quem somos já está definido desde que nos tornamos um feto, mais e mais pessoas irão poder explorar suas sexualidades e identidade gênero de modo libertador.

Ter visibilidade não é fácil, suas ações são vistas por todos e tudo que você faz cria reações e influência numa quantia de pessoas muito significativa. Agora ser Trans* e ter visibilidade é imensamente mais complicado e perigoso.

Se tornar quem verdadeiramente você é, quebrar todo o molde que a sociedade criou em volta do que ela quer que você seja, além de ser um processo muito longo, é doloroso. Posso dizer, pela minha experiência como pessoa transgênera e não-binária, que levei muitos e muitos anos questionando, me odiando e mutilando quem eu era para poder me encontrar e me amar de todas as formas possíveis. Ser trans em nossa sociedade é crime, pois você deixa de ser humano e se torna patrimônio público. Todos podem saber o que você faz, o que você tem no meio das pernas, o que você fará, de onde vem ou como vive. Ser uma pessoa transgênera ou transsexual em nossa sociedade atual é se tornar um circo de outro planeta onde todos querem saber quais segredos são guardados em baixo da tenda.

Lilly Wachowski tem o privilégio, como ela mesmo assume, de uma família, amigos e suporte que outras pessoas trans não tem. E isto a torna mais preparada para lidar com toda a agressividade em saber o que ela é, como se transformou ou como vive. Ela também chama atenção em sua carta sobre a necessidade da mídia de forçar com que ela assumisse a sua identidade publicamente e faz uma ressalva para os perigos que forçar alguém a assumir algo pode causar. Como o caso da Lucy Meadows que ela mesmo cita, uma professora do primário que teve a intimidade da sua vida exposta nacionalmente em um tabloid e, muito além de arrasta-lá e joga-lá no picadeiro, fizeram questão de frisar que ela não estava apenas errada em ser quem era, mas que também estava no emprego errado. Exposição que resultou no suicídio da própria. E é isto o que a sociedade hétero cisgênera e normativa fazem com todas as pessoas LGBT. Eles abominam nossas identidades e orientações sexuais, porém estão o tempo todo forçando para que venhamos assumir algo, já definem rótulos, nomes e categorias antes de podermos dizer quem realmente somos. Aos 6 anos de idade ouvi pela primeira vez que era "Bixinha". Foi um comentário feito após eu passar em frente a um bar com minhas amigas da rua. Não sabia quem eu era, não sabia o que queria ser e também não tive oportunidade de descobrir. Desde pequena me disseram quem eu era, quem eu deveria gostar. Quando o que me disseram que eu deveria ser não se encaixou no que sou, o inferno aconteceu. Quando você não se enquadra no que lhe dizem que deve ser, e não vê ninguém que traduza o que sente, é muito solitário e desesperador.

Com a visibilidade vem a responsabilidade. Quando você tem milhares de pessoas que acompanham tudo o que você diz, é uma responsabilidade a ser carregada. Afinal a sua voz tem poder influenciar e mudar o pensamento de todas estas pessoas que lhe acompanham. Ser trans já é difícil, agora ser trans e ter visibilidade é dificuldade em dobro, pois tudo que você diz irá afetar toda uma comunidade já fragilizada por uma sociedade opressora. Entretanto, Lily se mostra consciente deste papel importante quando traz visibilidade para o modo como pessoas trans são tratadas pela mídia. E como o processo de transição do que nos disseram que deveríamos ser para quem realmente somos é algo contínuo e infinito. Ela critica a sociedade que quer encaixar tudo dentro do binário (homem ou mulher) com o trecho de sua carta: "Temos que elevar a discussão além da simplicidade binária. Binarismo é um ídolo falso."

É bom ver alguém com visibilidade reforçando que há muito mais neste mundo do que homens e mulheres. Termos pessoas influentes e conscientes do seu papel como Lilly e Lana é de grande ganho para o mundo, pois ajuda a desmistificar a existência da pessoa trans. Além disso, trazem representatividade para o ramo em que atuam (cineastas, diretoras, escritoras). Lana, irmã de Lilly, durante a premiação HRC em 2014, disse o seguinte: "Algumas coisas fazemos por nós mesmos e outras fazemos pelos outros. Estou aqui pois quando era jovem queria muito escrever, queria ser cineasta, mas não conseguia encontrar ninguém como eu no mundo e isto fez com que meus sonhos parecessem impossíveis somente porque meu gênero não era algo comum. Se eu posso ser a pessoa que sempre procurei quando jovem para alguém, então sacrificar a intimidade da minha vida civil pode vir a valer a pena."

Lilly e Lana sabem que suas vidas influenciarão muitas pessoas a serem quem realmente são. E quanto mais visibilidade tivermos para causas trans, mais iremos poder discutir o assunto e, deste modo, quebrar paradigmas, descontruir padrões e construir um mundo onde a pessoa trans não precise estar sempre justificando quem ela é, porque  é e, com base no que se tornou, quem realmente é.

Ser trans é lutar contra um sistema de padrões e imposições, nadar contra o fluxo em direção de sua própria felicidade e não a felicidade coletiva."

Por hoje é só, minha gente! Um bayjo, um quayjo e não esqueça de compartilhar este texto com os amiguinhos. ;)

Adotamos a sigla LGBTI por ser a mais completa para se referir à diversidade de gênero e identidade sexual nos dias atuais. O T se refere a "TRANS" (travestis, transexuais e transgêneros) e o I a "Intersexual", pessoas com características de ambos os sexos e que podem se reconhecer como homem ou mulher, independente das características físicas. Esta definição é contribuição do leitor Vinícius.

*Gay Nerd é uma coluna quinzenal que mistura nerdices aos temas LGBTI


Isaque Criscuolo é editor do Imerso, nerd, adora um lipsync e acredita que menos é mais

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