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Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? | Conheça o livro que deu origem a Blade Runner

Conversamos com o tradutor Ronaldo Bressane sobre o escritor e as adaptações da sua obra ao cinema
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Meses antes da sua morte, Philip K. Dick aguardava ansiosamente a chegada de Blade Runner - O Caçador de Androides aos cinemas. “Ouvi dizer que o filme terá uma estreia de gala como antigamente. Isso quer dizer que vou precisar comprar - ou alugar - um smoking, não é algo que eu queira fazer. Não é meu estilo. Fico mais feliz de camiseta”, declarou o escritor à The Twilight Zone Magazine ao final da sua última entrevista.

A relação de K. Dick com a adaptação de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, porém, nem sempre fora tão otimista.  Em 1970, passados dois anos da publicação do livro, o produtor Herb Jaffe comprou os direitos para o cinema e foi ameaçado pelo escritor ao mostrar o roteiro criado por seu filho Robert: “Devo bater em você aqui no aeroporto ou no meu apartamento?”. Anos depois, em 1977, o produtor Michael Deeley se interessou pela versão de Hampton Fancher para o livro, dando início a odisseia que resultou no filme lançado por Ridley Scott em 25 de junho de 1982.

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Na derradeira entrevista dada a John Boonstra, disponível na recém lançada edição do livro pela Editora Aleph, K.Dick conta que chegou a ter um sangramento gastrointestinal causado pelas doses extras de uísque e aspirina consumidos pela preocupação com o roteiro de Fancher. “Eles faxinaram o meu livro e removeram todas as sutilezas. Não havia mais significado. Tudo tinha se tornado uma luta entre androides e um caçador de recompensas”, reclamava o escritor, que mudou de opinião depois de ler a versão revisada por David W. Peoples. Sem ter contato direto com a produção, K. Dick recebeu o novo script após enviar uma carta à produtora Ladd Company elogiando os trechos que vira do filme em um especial para a TV. O escritor acreditava que a colaboração de Peoples transformara o longa e em um complemento do livro e vice-versa - “Você lê o roteiro e depois lê o livro e é como se fossem as duas metades de um metatrabalho, de um meta-artefato. É sensacional”.

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K. Dick morreu em 2 de março de 1982 depois de sofrer um acidente vascular cerebral e nunca chegou a ver o filme completo. A versão que chegou ao cinema, no entanto, não era exatamente aquela que agradou ao escritor no papel. Considerado confuso e pessimista, o filme de Ridley Scott ganhou uma narração em off de Rick Deckard (Harrison Ford) e um final feliz que descartava toda a construção estética do longa. Ao todo, Blade Runner soma sete versões , do primeiro corte de quase quatro horas à edição final lançada em 2007 - leia mais sobre as diferentes versões do filme.

Sem a narração redundante (que ainda mantém fãs ilustres como Guillermo del Toro) , mais violenta e cética - acrescentando a sequência do sonho do unicórnio que põe em dúvida a humanidade de Deckard -, a última versão de Blade Runner seria mais fiel ao espírito existencialista do livro, o que não necessariamente ganharia a aprovação do autor. “Acho que ele teria gostado de todas”, especula Ronaldo Bressane, tradutor da nova edição, “Não dá pra saber, na verdade, porque K. Dick era ciclotímico e vivia mudando de opinião. (...) O livro na verdade é bem diferente do filme, tem pelo menos duas subtramas paralelas bem mais desenvolvidas. O tom, no entanto, chega a ser ainda mais pessimista do que o filme. Niilista, diria”.

Livro vs. Filme

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Por mais instáveis que fossem as opiniões de K. Dick, o escritor acertou ao prever a relação complementar entre Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e Blade Runner*. O contato com as duas obras certamente leva a algo maior. Se no livro existe o questionamento do que nos torna humanos, exemplificado pela relações entre homens e animais em um futuro pós guerra nuclear, o filme mostra melhor a ambição de humanidade dos androides, eternizada na colaboração do ator Rutger Hauer na fala do replicante* Roy Batty, o líder dos Nexus-6 fugitivos: “Vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de ataque ardendo no cinturão de Órion. Observei raios gama brilharem na escuridão próxima ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer”.

Na devastada Terra de 1992 do livro, a extinção de quase todos os animais transformou a fauna restante em um sinal de aceitação social. Um sujeito integrado precisava comprar e cuidar de um animal. Sem dinheiro, Deckard preenche esse vazio e engana seus vizinhos com uma vergonhosa ovelha sintética. Quando assume o trabalho de “aposentar” os androides Nexus-6, tudo o que pensa é que a recompensa finalmente lhe dará o dinheiro necessário para comprar um bicho de verdade - ao longo da narrativa, o personagem constantemente consulta o catálogo da Sidney’s, que avalia o preço e a raridade dos animais. No filme, que se passa em 2019, os animais sintéticos são incorporados ao ambiente, aparecendo nas tumultuadas ruas e como uma das evidências recolhidas na investigação de Deckard.

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O cenário de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? é seco, um mundo tomado pela poeira radioativa e pelo entulho, com as coisas criadas pelo homem assumindo o espaço deixado pela humanidade, que fugira para as colônias espaciais. Já o longa mostra uma Los Angeles úmida e sombria por razões mais práticas. Filmar à noite, na chuva e com muito vapor contornava as limitações dos cenários e dos efeitos especiais da época. Ainda assim, os mundos de Scott e de K. Dick compartilham do mesmo aspecto desolador, mostrando uma população que tenta permanecer humana e se adaptar às circunstâncias. Scott cita a revista Heavy Metal como uma das grandes inspirações visuais do filme, com a notável influência dos traços de Mœbius e Enki Bilal nos cenários, objetos de cenas e figurinos dos tipos que preenchem a história de Rick Deckard.

Além das diversas versões do filme, o roteiro foi reescrito inúmeras vezes, com tantas exigências de alterações que levaram a saída de Fancher e quase enlouqueceram Peoples. Diversos trechos sequer chegaram a ser filmados em função do orçamento já estourado do longa. A cena de abertura original colocava Deckard em ação, com o caçador de androides aposentando um replicante em uma cabana em meio a gigantescas máquinas agrícolas. Outra cena revelava Roy Baty emergindo de uma pilha de entulho nas colônias fora da Terra; outra mostrava  o desdobramento do encontro entre Roy e seu criador, com a revelação que Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel) morrera há anos e residia em um sarcófago tecnológico. Esses trechos descartados, somados ao corte final de Blade Runner, mostram a riqueza da base fornecida por K. Dick e levam a conclusão do próprio autor, na carta à Ladd Company, de que o filme criara “coletivamente uma forma nova e incomparável de expressão artística e gráfica, nunca vista anteriormente”.

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No posfácio da nova edição de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, Bressane desenvolve uma análise completa dos paralelos entre o cultuado filme e o livro que o originou. Das diferenças entre a Rachel de K. Dick e a de Sean Young (uma criança femme fatale e uma femme fatale criança), à simpatia dos solitários J.R. Isidore (livro) e de J.F. Sebastian (William Sanderson no filme) pelos androides com prazo de validade para viver, passando pelo aspecto religioso, ausente na adaptação, no culto de empatia a Wilbur Mercer, em uma mistura de ensinamentos cristãos e budistas. É um interessante estudo sobre uma obra complexa que se mostra, ao final, mais para o realismo fantástico do que para a ficção científica.

Na sua empolgada carta à produtora de Blade Runner, K. Dick disse que via a sua vida e seu trabalho criativo justificados e completados pelo filme. A realidade não chega a ser bem assim, mas a adaptação levou o nome de Philip K. Dick a um outro público e abriu caminho para o seu futuro filosófico no cinema, criando clássicos como O Vingador do Futuro (1990)e Minority Report (2002).

Adaptações e Mais Adaptações

Com 44 romances e 121 contos, o trabalho de Philip K. Dick já inspirou 12 longas-metragem, incluindo o remake de O Vingador do Futuro - em Realidades Adaptadas, a Aleph reúne sete dos contos do escritor que viraram filmes como O Pagamento, Os Agentes do Destino, O Vidente, Impostor e Screamers. Para Bressane, o mais fiel seria O Homem Duplo (A Scanner Darkly, 2006), de Richard Linklater. “O roteiro é bastante grudado ao livro, embora a composição artística da rotoscopia de Linklater traga um colorido que o original não tem. A escrita de K Dick é mais filosófica e fria, às vezes paranoica. Mas neste filme o conceito de "derretimento da realidade" e a superposição de camadas de real e não-real, temas típicos de K. Dick, estão muito bem estruturados e nos deixam a mesma sensação de melancólico vazio do livro”, explica o tradutor e jornalista, que coloca o filme ao lado de Blade Runner, como “obras autônomas que dialogam de igual com o original, sem trair as motivações filosóficas e estéticas de K. Dick”.

Dos títulos ainda não adaptados do escritor, Bressane aponta O Homem do Castelo Alto como “a obra-prima suprema que ninguém fez”. O romance, publicado em 1962, é uma “ficção especulativa sobre universos paralelos, um dos subgêneros em que K. Dick reinou”, e mostra um como seria o mundo se as Potências do Eixo tivessem derrotado os Aliados na Segunda Guerra Mundial. A história se passa em em 1962, onde os Estados Unidos foram entregues à Alemanha nazista e ao Império do Japão. Em 2013, o Syfy encomendou uma minissérie baseada no livro com roteiro de Frank Sponitz (Arquivo X) e produção Ridley Scott, mas os planos ainda não saíram do papel. [Atualizado: o livro foi adaptado pela Amazon em uma série de TV, já renovada para a terceira temporada. ]

Outros projetos em andamento baseados nos livros de K. Dick incluem a adaptação de Now Wait for Last Year pela Electric Shepherd Productions (produtora da filha do escritor, Isa Dick Hackett), Ubik, do diretor Michel Gondry, a animação da Disney King of the Elves e a aguardada continuaçã Blade Runner 2049 - nas livrarias, o livro original conta com três sequências autorizadas escritas por K. W. Jeter. “Tem um universo inteiro para os diretores se aventurarem... “, conclui Bressane sobre o futuro do legado de K. Dick em outros meios. Que venham mais adaptações.

 

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* Dois termos consagrados pelo filme não aparecem no livro. Blade Runner, a alcunha dos caçadores de recompensa, foi encontrada por Fancher em um roteiro do beat William S. Burroughs para o livro de Alan E. Nourse - em  um futuro distópico, remédios e equipamentos eram fornecidos por contrabandistas, os bladerunners (algo como traficantes de lâminas). Já o termo replicante teria surgido por sugestão da filha de Peoples. Scott queria um sinônimo de androide sem precedentes e a filha do roteirista sugeriu replicating (replicação), que consiste no processo de duplicação das células para clonagem.

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O filme Blade Runner foi o precursor do da estética cyberpunk, 2 anos depois William Gibson só lapidou e criou um novo gênero. Hoje vivemos o pós cyber.

Para quem gosta do gênero cyberpunk e deseja ver como tudo começou - e seu precursor , sugiro que leia a "Trilogia do Sprawl" que é "Neuromancer" (o livro que deu origem ao gênero) "Count Zero" e finalmente "Mona Lisa Overdrive" , clássicos para quem gosta de ficção cientifica.

Lembrando que não foi bem nas bilheteiras, fracasso que virou Cult. Vai entender!!

Já terminou a primeira temporada, gostei, mas não espere fidelidade ao livro. Aliás não tem nada haver com o livro apenas o conceito. Aguardando segunda temporada que já foi renovada.

A série já está disponível aos assinantes do canal da Amazon, um concorrente do Netflix.

Nao é verdade que o O Homem do Castelo Alto nao saiu do papel. O episodio piloto ja foi mostrado no inicio de janeiro e gostei bastante.

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