A Lula e a Baleia
Filmes - Drama
A Lula e a Baleia (2005)
(The Squid and the Whale)
  • País: EUA
  • Classificação: livre
  • Estreia: 17 de Março de 2006
  • Duração: 80 min.

A Lula e a Baleia | Crítica

A Lula e a Baleia

A Lula e a Baleia
The Squid and the Whale
EUA, 2005
Comédia - 81 min

Direção e roteiro: Noah Baumbach

Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline, Halley Feiffer, Anna Paquin, William Baldwin, David Benger, Adam Rose, Henry Glovinsky, Eli Gelb, Peter Newman, Peggy Gormley, Greta Kline

O Pequeno Príncipe, Perrault, irmãos Grimm na infância. Ápice da adolescência, Salinger, O retrato do artista quando jovem, uns Shakespeares românticos. Kafka para pontuar o início da vida adulta, mais Hamlet, sem dúvida. O agridoce começo dos trinta pede Cortazar, Beckett, Hemingway, Gatsby. Daí em diante, para buscar o tempo perdido, Marcel Proust.

Bernard Berkman, o deplorável personagem de Jeff Daniels em A lula e a baleia (The squid and the whale, 2005), pode não concordar com a lista acima, mas certamente acredita que a literatura nos ensina a viver. Professor universitário e escritor que já teve dias melhores, ele criou no filho mais velho, Walt (Jesse Eisenberg), essa idéia de que os filisteus, aqueles que não são intelectuais, não merecem consideração. Ler bastante, ver muitos filmes, saber apregoar esse repertório - é isso que faz o homem.

Ou será que não? Na faculdade, para impressionar as garotas, Walt cita obras que não leu. Arruma uma namorada que não ama. Em um concurso musical, toca Hey You, do Pink Floyd, como se fosse de sua autoria. Habitaria eternamente esse auto-engano, o inescapável complexo edipiano de superar o pai, se não fosse um terrível baque, que o atira na vida real: o divórcio. Sua mãe, Joan (Laura Linney), escritora em ascensão, está se separando de Bernard. Não há livro no mundo que ensine Walt a lidar com essa situação - essa é a mensagem que o roteirista e diretor Noah Baumbach nos transmite com estilo e coração.

Coração porque a história tem muito de sua própria adolescência. Estilo porque Baumbach não tem medo de fugir da estética Sundance e recorrer a uma fórmula ultrapassada, aquela de dramas sóbrios, para contar essa sua história. (Espanta saber que o roteirista assinou, no ano anterior, o script do acrobático A vida marinha com Steve Zissou; Wes Anderson retribuiu produzindo A lula e a baleia) Não há neste seu relato autobiográfico qualquer afetação, fotografia granulada, câmera lenta com música ao fundo, nada.

A história se conta com o bom e velho plano-contraplano, calcada nas excelentes atuações dos protagonistas, com a necessária pitada de humor cáustico. Baumbach tem a mania dos indies de reabilitar atores de segunda linha - a participação de William Baldwin é impagável - mas fica só nisso. Provavelmente por ser assim, genuíno, o filme tenha sido indicado ao Oscar de melhor roteiro original. É uma pena que não tenha ganho, pois o texto enxuto é um exemplo de coesão. Trata da formação do caráter de Walt de forma breve e precisa, passando pela necessária desconstrução do ícone paterno, e culminando em um final aberto, a metáfora do embate entre os gigantes marinhos.

Fica a lição de que experiência de vida não se herda. Talvez seja por isso que o filme exale frescor, novidade: no meio cinematográfico em que tantos se colocam acima dos personagens, donos da verdade, Baumbach tem a humildade de expor-se, de arriscar um caminho fora da cartilha, de humanizar seus personagens sem rir dos defeitos deles. Sem conhecê-lo, dá até pra dizer que o diretor se tornou uma pessoa melhor depois de fazer A lula e a baleia.

Nota do crítico (Excelente) críticas de Filmes
 

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