Capote
Filmes - Drama, Biografia
Capote (2005)
(Capote)
  • País: EUA
  • Classificação: 14 anos
  • Estreia: 24 de Fevereiro de 2006
  • Duração: 98 min.

Capote | Crítica

Capote

Capote
Capote
EUA, 2005
Drama - 98 min.

Direção: Bennett Miller
Roteiro: Dan Futterman baseado em livro de Gerald Clarke.

Elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Bruce Greenwood, Bob Balaban, Amy Ryan, Mark Pellegrino, Allie Mickelson, Marshall Bell

Perto de Truman Capote, Edward R. Murrow era um Cid Moreira.

Por um desígnio do mercado, temos em cartaz nos cinemas e na disputa do Oscar duas facetas opostas do jornalismo. Murrow é a sala de visitas, Capote é a boca do fogão. Em Boa noite e boa sorte, o diretor George Clooney e o ator David Strathairn fazem de Murrow um modelo de engajamento: leal, justo, aprumado, o repórter que muda o mundo com seus ideais, um tipo utópico perdido em algum momento dos últimos vinte e tantos cínicos anos de História. Ok, no filme Murrow fuma como uma chaminé, mas eram idos de 1950, isso faz parte da mitificação.

O Truman que o diretor Bennett Miller e o ator Philip Seymour Hoffman recriam em Capote (2005) também fuma demais - de resto é humano, demasiado humano. Egoísta, melindroso, efeminado de voz fina, repórter que vai a campo provar que sabe tirar o suco de uma boa história, que sabe arrancar confissões de um eremita. A isso se chama vaidade, de resto todo jornalista a tem, e é evidente que Murrow nutria sua dose também. O caso é que sobreviver dela, sofrer por ela, ver-se entre sucesso e cobrança moral a ponto de se anular, era particularidade de Capote.

Indicado a cinco Oscars - melhor filme, diretor, roteiro adaptado, ator para Hoffman e atriz coadjuvante para a serena Catherine Keener - o filme recria as condições em que Capote gestou sua obra-prima literária, À sangue-frio, um dos maiores romances do século XX. Sim, porque não faz sentido ser um atormentado se não for pra virar gênio. Revolucionário, o texto inaugurou em 1966 a era dos livros-reportagens. Ajudou a consolidar o New Journalism crescente na época: investigação acurada da imprensa misturada com manhas da literatura. Sem ele não haveria A luta de Norman Mailer, nem Notícia de um sequestro de Garcia Marquez. Sem ele não existiria a seção de não-ficção dos best-sellers da semana.

Trem desabalado

Tudo começa em 15 de novembro de 1959, quando os quatro membros da família Clutter são encontrados mortos em seu rancho em Holcomb, Kansas. Então colaborador da revista The New Yorker, já conhecido na metrópole por seu relato que viraria o filme Bonequinha de luxo em 1961, Capote recorta a nota policial do jornal e embala as malas para lá. Há uma bela imagem que metaforiza esse momento do filme: o trem negro que atravessa, como numa violência física, os campos de trigo dourados, típicos do Sul. Capote nasceu no Arkansas caipira, mas no momento representa o trem, o novaiorquino desabalado atrás de alguém que lhe escancare os detalhes sangrentos da tragédia.

Vale já comentar o talento do diretor Miller para condensar idéias em poucos diálogos. Com apenas um documentário no currículo, de 1998, Miller faz deste seu primeiro filme de ficção um baita exercício de concisão. Uma única passagem é necessária para (começar a) entender Truman Capote. Ele quer entrevistar a garota que achou os corpos, mas ela se fecha ao sujeito afetado que fala fino. Capote a examina e quase não abre a boca. E eis que então nota o ponto fraco da menina, solta a frase mortal, aquela que dosa compaixão pelos outros e piedade por si mesmo. Reverter seus próprios fardos em confiança é a primeira das complexas características do repórter-escritor.

Aos poucos Capote se dá conta de que tem ouro em sua frente, convence o editor a transformar a reportagem em livro. Ganha meses, anos para escrevê-lo - e não cabe aqui explicar muito mais do que segue na tela. Que o filme cometa algumas licenças em relação à história original de À sangue-frio, como negligenciar a relação homossexual entre os dois assassinos (embate de poder que acaba determinando o desfecho do crime), até que não prejudica tanto. O que importa salientar é que o dilema da vaidade pontuará toda a história, e Miller sabe muito bem trabalhá-lo sem esgarçar o tema.

Conta a seu favor, obviamente, o fato de ter pedido a Philip Seymour Hoffman que encarasse o papel. Depois de vencer a dificílima composição do personagem, que na mão de qualquer outro estancaria na caricatura, o ator predileto de Paul Thomas Anderson embarca na proposta de Miller de poucas palavras e muitos significados com esmero. Pode até não levar o merecido Oscar de melhor ator, mas de qualquer maneira já recebe finalmente reconhecimento por sua carreira. E Hoffman chora como ninguém.

Nota do crítico (Ótimo) críticas de Filmes
 

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