Inverno da Alma
Filmes - Drama
Inverno da Alma (2010)
(Winter’s Bone)
  • País: EUA
  • Classificação: 16 anos
  • Estreia: 28 de Janeiro de 2011
  • Duração: 100 min.

Inverno da Alma | Crítica

Adaptação indicada a quatro Oscars bate cabeça com o filme de gênero dentro de si

Existe um bom "filme de gênero" dentro de Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010), um thriller sobre o desaparecimento de um traficante. Por fora, porém, há uma casca de "filme de festival" que impede que esta adaptação do romance de Daniel Woodrell se movimente com mais naturalidade.

O próprio Woodrell cunhou uma expressão, "country noir", para definir o gênero que ele pratica em seus livros de mistério ambientados nas montanhas Ozarks, no estado americano do Missouri. Winter's Bone, o mais recente, publicado em 2006, é o oitavo. Na trama, uma adolescente com dois irmãos menores precisa encontrar o seu pai, procurado pela polícia, para impedir que a justiça tome a sua casa.

Todo rótulo é uma redução, mas a diferença principal do filme de gênero para o filme de festival é que o primeiro tem como base a familiaridade e o segundo, a estranheza. A ação de um filme de gênero é quase espontânea, o que muda são os fatores que a fazem andar. Já um filme de festival parte do zero, da observação do mundo; é preciso antes situar o espectador, e a ação é determinada por essa aproximação.

O problema de O Inverno da Alma é que esses dois perfis tentam se impor juntos. O mistério do sumiço do pai já está em curso; a comunidade ali em Ozarks vive da contravenção, pode ter acontecido com ele qualquer coisa. Mas a narrativa é travada pelo documentalismo, por assim dizer. Seguimos a rotina da filha, Ree (Jennifer Lawrence), como se ela estivesse entrando em contato com tudo pela primeira vez, o que soa artificial. Na cena da escola, ela assiste ao treino militar com encanto, mas sentimos que ela já viu aquilo mil vezes.

A atuação indicada ao Oscar de Jennifer Lawrence é clara e manifesta porque a câmera não larga dela. Ree é a nossa cicerone neste retrato que a diretora Debra Granik, em seu segundo longa, força para parecer autêntico: todo mundo tem camiseta de estampa de lobo e mal pode aparecer um banjo que alguém já senta pra tocar.

A apresentação dos coadjuvantes é sintomática do choque de estilos. Ela é funcional como em todo filme de gênero (cada personagem é uma peça a mais no mistério) mas quer soar natural, e fica difícil ser ambos ao mesmo tempo. Então tome personagem, inicialmente curvado e de costas (a privacidade é respeitada nos registros naturalistas), virando-se para a câmera na hora de cheirar cocaína, para tipificar esse personagem e funcionalizar o momento.

Antes de ser indicado a quatro Oscars - filme, roteiro adaptado, ator coadjuvante para John Hawkes e atriz para Lawrence -, Inverno da Alma levou prêmios em Sundance e Berlim. É, portanto, um filme de festival consumado. Infelizmente, só começa a se aceitar como filme de gênero a partir da metade, ao caminhar para a resolução do mistério (o clímax é notável), quando as suas obrigações com a apresentação naturalista foram todas cumpridas.

Não deixa de ser uma situação perversa. Esse filme nunca chegaria ao Brasil se não fossem os prêmios, mas a sua faceta B, mundana, policialesca, que não dá prestígio pra ninguém, muito menos Oscars, é muito melhor que a sua parcela "de arte".

Inverno da Alma | Cinemas e horários

Nota do crítico (Bom) críticas de Filmes
 

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