Ninho Vazio
Filmes - Drama
Ninho Vazio (2008)
(El Nido Vacío)
  • País: Argentina/França
  • Classificação: 12 anos
  • Estreia: 30 de Janeiro de 2009
  • Duração: 91 min.

Crítica: Ninho Vazio

O cineasta argentino Daniel Burman realiza o seu 8 1/2

Há temas que se repetem nos filmes do cineasta argentino Daniel Burman. Falam de acertos de contas com a família e com a herança judaica, falam de meninos virando homens. É assim em Esperando o Messias (2000), O Abraço Partido (2004) e Leis de Família (2006), todos os três protagonizados por Daniel Hendler, ator que transmite bem a gravidade e a melancolia das crônicas de amadurecimento do cineasta.

Aos 35 anos de idade e 10 de carreira em longas-metragens, o argentino chegou num momento que pede, pelo menos, um apanhado, um fecho de ciclo. Aquele amadurecimento foi vencido, então o que acontece agora, na vida adulta, quando damos por imutável tudo aquilo que conquistamos antes? É disso que trata Ninho Vazio (El Nido Vacio, 2008), o 8 1/2 de Daniel Burman.

Escritor de sucesso, Leonardo (Oscar Martínez) começa o filme acossado. Em um jantar de reunião dos amigos de faculdade da sua esposa, Martha (Cecilia Roth), a cacofonia o incomoda. Todos falam ao mesmo tempo e Leonardo emudece. A câmera insiste nos close-ups para pontuar a claustrofobia. Como no clássico de Federico Fellini - em que Marcello Mastroianni interpreta um cineasta que, incapaz de filmar, começa a sonhar acordado em profunda regressão - em Ninho Vazio o barulho do mundo não deixa Leonardo pensar com clareza. E, como em 8 1/2, a única fuga possível é uma mulher.

Ao longo do filme, o escritor Leonardo persegue essa fuga porque o mundo que ele conhecia está mudando. Seus dois filhos acabam de trocar a casa pela universidade e a sua esposa decide que é hora de voltar a pensar em si mesma. Leonardo tem um livro para escrever, mas atravessam seu pensamento as mais variadas distrações - discussões de neurologia, visitas urgentes ao dentista, aviões por controle remoto, propagandas de perfume.

Burman flerta com o realismo fantástico, como a Lucrecia Martel de A Mulher sem Cabeça, sem deixar marcas claras de mudança de registro - ou seja, nunca sabemos com certeza quando Leonardo está alucinando. Na verdade, desconfiamos que algo está errado quando o naturalismo a que estamos acostumados é substituído por suspeitas coincidências. Personagens não se encontram casualmente debaixo de uma árvore todo dia.

Esse desapego ao verossímil permite que o cineasta use mais radicalmente uma ferramenta que lhe é comum, a elipse. Leonardo salta de sua poltrona de couro entrelaçado para um campo, depois para a rua, depois para o Mar Morto, em questão de instantes - e isso, de certo modo, torna mais dinâmico o processo caro a Burman de fazer com que cada fato corriqueiro da vida adicione algo de importante à "lição" que seus heróis vacilantes estão aprendendo.

Porque Ninho Vazio pode ser visto como uma forma metalinguística que Burman achou para se descolar de seus trabalhos anteriores, mas o arco de amadurecimento continua lá (afinal, seja na adolescência ou na meia-idade, sempre há o que aprender). Obsessões do cineasta também continuam lá. Os diplomas na parede reforçam a opressão muito presente em Leis de Família de se conformar com os ditames sociais, enquanto Israel está sempre se lembrando de reivindicar sua hereditariedade.

Daniel Burman continua operando em Ninho Vazio dentro de limites temáticos que impôs a si mesmo, mas flerta com outros formatos e realiza seu trabalho mais contemplativo, mais livre. Seus melhores filmes, Esperando o Messias e O Abraço Partido, já eram fortes do ponto de vista da observação da realidade. Mas tinham pouco do que Ninho Vazio oferece mais: um olhar não só no espaço como também no tempo.

Nota do crítico (Ótimo) críticas de Filmes
 

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