O Assassino em Mim
Filmes - Suspense
O Assassino em Mim (2010)
(The Killer Inside Me)
  • País: EUA
  • Classificação: livre
  • Estreia: None
  • Duração: 109 min.

Crítica: The Killer Inside Me

Michael Winterbottom exacerba perversões em um noir clássico com consciência de noir revisionista

Todo noir parte de uma perversão. O detetive que quebra seus códigos por paixão, a mulher que mata o marido por ganância. Os policiais baratos acabavam no balaio dos filmes B porque a Hollywood dos anos 40 não se permitiria dar status a essas histórias amorais. A questão no noir, portanto, é até que grau chegam as suas perversões.

Jim Thompson fazia o lado B do B. Adaptações ao cinema de suas obras incluem, nos últimos 20 anos, Os Imorais (1990), A Fuga (1994) e este The Killer Inside Me (2009). Marlon Brando e Marilyn Monroe o teriam encenado se ela não tivesse morrido em 1962. Stanley Kubrick, para quem Thompson adapou o roteiro de Glória Feita de Sangue, também tentou sem sucesso. Da primeira adaptação de O Assassino em Mim às telas, de 1976, poucos se lembram.

Michael Winterbottom (Código 46, O Preço da Coragem) faz questão de que a sua versão não seja esquecida tão cedo. O filme, que causou repulsa no Festival de Sundance, honrando uma tradição de 70 anos de escandalizações, exacerba a trama doentia de Thompson. Casey Affleck faz com gosto o xerife texano Lou Ford, espancador de mulheres. Lou tem o respeito das pessoas da cidade que vigia, mas se mete num imbróglio com uma prostituta (Jessica Alba) e com o filho do magnata da região. Mata ambos não por dinheiro, mas por compulsão - e o cerco começa a fechar.

Tradicionalmente, são as circunstâncias que despertam o mal nos personagens dos noir; o caso de Lou Ford, assassino por natureza, está mais próximo dos filmes de maníaco. Embora a ambientação e o texto sejam fieis ao romance de 1952 de Jim Thompson, o filme de Winterbottom está mais próximo da noção de neonoir que começou a se definir com Chinatown (1974) e chegou à plenitude com Veludo Azul (1986). São filmes que enxergam a perversão como um sadomasoquismo, a violência é correspondida com prazer.

Essa consciência do sadismo, que Thompson tinha, está implícita já no título de conotação sexual, "o assassino dentro de mim". Cineasta que passeia por gêneros distintos como o musical e a ficção científica, Winterbottom contribui com ironia ao exercício revisionista do noir. The Killer Inside Me provoca ojeriza, antes de mais nada, não por filmar o sangue de um jeito realista, mas por rir, com sua trilha sonora sulista ensolarada, desses esgichos de sangue. É um filme que faz do realismo uma caricatura.

Nesse sentido (e em outros também, mas não estraguemos as surpresas da trama), o longa se aproxima bastante de Ilha do Medo. Winterbottom não tem o talento de Martin Scorsese para religar pontas soltas da história do cinema, mas, de seu jeito grosseiro, faz justiça àquilo que Jim Thompson tinha de vanguardista.

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Nota do crítico (Bom) críticas de Filmes
 

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