Quincas Berro D'Água
Filmes - Drama
Quincas Berro D'Água (2010)
(Quincas Berro D'Água)
  • País: Brasil
  • Classificação: 14 anos
  • Estreia: 21 de Maio de 2010
  • Duração: 104 min.

Crítica: Quincas Berro D'água

Diretor de Cidade Baixa adapta obra de Jorge Amado e se perde na transição para a comédia

À primeira vista, Quincas Berro D'água poderia ser um daqueles filmes que marcam a história de nosso cinema nacional. Com bons atores no elenco, trama criada por um grande autor da literatura brasileira e um diretor que mostrou talento já em seu primeiro filme, o que poderia dar errado?

Sérgio Machado fez sua estreia na direção de longa-metragens de ficção com o ótimo Cidade Baixa, em que mostra escolhas conscientes quanto à atuação e modos de filmar, revelando seu traço autoral. Em Quincas Berro D'água, temos uma pessoalidade pálida: vê-se o toque de Sérgio Machado ali... em algum lugar. No entanto, o diretor tinha em mãos um grande desafio: adaptar aos cinemas A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, uma das mais célebres obras de Jorge Amado e, ainda assim, imprimir em Quincas seu toque como diretor. Como resultado, não temos nem um filme totalmente fiel à obra original, nem totalmente autoral.

A migração do drama à comédia também não mostrou-se muito bem-sucedida e, por falar nisso, nenhuma das piadas é engraçada, não despertam nem aquele riso de canto de boca. O filme opta pelas piadas fáceis, que não pedem grande esforço de compreensão, como o desnecessário surto flatulento de Tia Marisa (Walderez de Barros).

Na trama de época, Vanda (Mariana Ximenes, ótima) recebe a notícia do falecimento de seu pai, Joaquim Soares da Cunha(Paulo José), um respeitável funcionário de repartição pública que um dia decidiu sair de casa, abandonar a família e cair na esbórnia, encontrando a felicidade em meio à gente da classe baixa, como marinheiros, prostitutas e capoeiristas.

Quando Vanda retorna à sala, visivelmente abalada, percebemos em sua dificuldade para explicar a morte do pai às amigas uma das questões centrais da trama, que é a preocupação da família com sua reputação social. Vanda começa a tomar as providências para o enterro, veste o cadáver em um terno para deixá-lo apresentável, na crença de que estava trazendo Quincas de volta aos eixos. É nesse momento que ela toma contato com o bairro onde vivia o pai e seus amigos boêmios, o que leva ao choque entre a formalidade das classes altas versus a autenticidade e espontaneidade das classes baixas. Em off, Quincas narra a história e destila comentários ácidos sobre a sociedade burguesa.

Lá pelo meio da madrugada só sobraram Pastinha (Flávio Bauraqui), Pé de Vento (Luis Miranda), Cabo Martin (Irandhir Santos) e Curió (Frank Menezes) no velório. Sob o efeito da cachaça, o quarteto acredita que o morto fala com eles e que tudo aquilo não passa de uma peça pregada pelo festivo Quincas. Os amigos então servem cachaça ao defunto, restituem sua antiga roupa e saem com o cadáver pelas ruas de Salvador, rumo a mais uma noite de boemia.

Enquanto o narrador póstumo não é uma estratégia totalmente inusual na literatura brasileira, a narrativa de Quincas difere daquela de Machado de Assis, em que Brás Cubas conta, do além, os acontecimentos de sua vida. Quincas é um narrador póstumo que conta sua vida após a morte, mas não a continuidade de sua alma, e sim de seu corpo. Deve-se apontar, no entanto, que as aventuras e andanças do morto geram certo incômodo - falta ali um tom fantástico. Fica impossível entrar na onda do grupo beberrão que dialoga com o defunto (e sua amante inclusive mostra-se decepcionada quando Quincas, justamente em seu aniversário, não consegue "comparecer") e cogitar a possibilidade de que o festeiro esteja mesmo vivo, quando nos deparamos com o duro realismo daquele corpo sendo carregado por aí.

Nota do crítico (Regular) críticas de Filmes
 

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