Filmes

Gabriel e a Montanha | "É um filme de encontros, mais do que de aventura", diz diretor

Filme de Fellipe Gamarano Barbosa conta história real de brasileiro que morreu na África
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Subir o o monte Kilimanjaro comandando uma equipe de filmagem foi uma das emoções que o realizador carioca Fellipe Gamarano Barbosa revê e revive agora, ao dar os aparos finais em Gabriel e a Montanha, único longa-metragem brasileiro já selecionado para o 70º Festival de Cannes. Ainda há vagas a serem preenchidas no menu de atrações do evento, agendado de 17 a 28 de maio, mas, até agora, ele é o único do formato a representar o Brasil, concorrendo na Semana da Crítica, canteiro paralelo à briga pela Palma de Ouro, dedicado a experiências narrativas radicais de jovens cineastas. Barbosa leva para lá uma trama sobre encontros e escaladas, com base na história real do economista Gabriel Buchmann. Em 2009, ele foi encontrado morto em decorrência de hipotermia, numa trilha no Monte Mulanje, no Malauí, na África. Feito em coprodução com a França, o filme tem João Pedro Zappa (de Boa Sorte!) no papel principal e aproveita em seu elenco de não-atores uma série de pessoas que cruzaram o caminho de Buchmann em suas andanças por montanhas africanas.

Filmei nos lugares reais, usando figurinos do próprio Gabriel, percorrendo quatro dos sete países por onde passou – Quênia, Tanzânia, Zâmbia e Malauí, num processo no qual os nossos maiores desafios eram a falta de conforto e as estradas que a gente percorria com uma espécie de caminhão-ônibusnum ambiente onde a Morte era muito presente, carregando o clima. E havia o medo de dar alguma m... subindo o Kilimanjaro, mas a equipe que subiu chegou e sai de lá bem”, conta o cineasta em entrevista ao Omelete por telefone da França, onde afina os ajustes derradeiros da produção a ser julgada em Cannes por um júri presidido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho 

Concorrem com Gabriel e a Montanha os longas Ava, de Léa Mysius (França); La Família, de Gustavo Rondón Córdova (Venezuela); Makala, de Emmanuel Gras (França); Oh Lucy!, de Atsuko Hirayanagi (Japão - EUA); Los Perros, de Marcela Said (Chile); e Tehran Taboo, de Ali Soozandeh (Irã - Áustria). O convite da Semana chegou a Barbosa no início do mês, atraindo os olhares da imprensa europeia, que já havia saudado seu Casa Grande (2014), um sucesso de crítica em solo francês. Lá, ele usava elementos sociais para narrar os ritos de passagem de um adolescente. No novo longa, fotografado por Pedro Sotero (com quem Mendonça Filho trabalhou em Aquarius O Som ao Redor), o clima é outro, distante das convenções das narrativas biográficas ou biopics.

Este é um filme de viagens... um filme de encontros... mais do que filme de aventura, coisa que ele tem, uma vez que, em sua estrutura narrativa dividida em quatro partes, há duas dedicadas a montanhas”, explica Barbosa. “Eu já conhecia a África antes, numa oportunidade em que dei um curso em Uganda. Mas eu fiquei emocionado quando li um email que o Gabriel mandou para sua família falando do que estava feliz em sua viagem pelo continente africano, vivendo na total liberdade, gastando no máximo US$ 3 por dia. Eu me identifiquei muito com aquilo, pois também nunca fui tão feliz quanto estive nos tempos em que vivi na África. Às vezes, eu tenho a sensação de que Gabriel morreu de felicidade. Na pesquisa para o filme, fui tendo essa sensação ao me bater com questões como o fato de ele ter dispensado seu guia no local em que morreu”.   

Inédito mundialmente, visto só pelos curadores da Semana da Crítica cannoiseGabriel e a Montanha recria ainda a relação entre Gabriel e a namorada, Cristina, vivida por Caroline Abras.

Tirando ela e João, entre os personagens principais, eu escalei uma montanhista, a Manoela Picq, para viver uma das últimas pessoas com quem Gabriel encontrou. Para os demais papéis, eu trouxe pessoas reais, que estiveram com ele nas situações que vivenciou, levando-os a reencenar suas experiências”, conta Barbosa. “A experiência dele com Cristina foi uma grande história de amor, marcada por uma grande paixão. Mas, nas vezes em que ela o visitou, ele acabou apresentando a ela uma África mais próxima do que a gente espera do continente, diferente daquela que ele conheceu nas montanhas. Engraçado que, enquanto eu montava o filme, eu pensava muito em um western que eu vi quando garoto: Um Homem Chamado Cavalo, com Richard Harris. Meu distribuidor francês enxerga no filme referências de Homem-Urso, documentário de Werner HerzogJá eu pensava muito no filme com Harris e em Homens e Deuses, de Xavier Beauvois”. 

Cannes divulgou nesta terça a lista integral de jurados da competição oficial, onde o prêmio máximo é a Palma dourada, cujo presidente é o diretor espanhol Pedro Almodóvar: ao lado dele estarão a diretora alemã Maren Ade, as atrizes Jessica Chastain (EUA) e Fan Bingbing (China), a realizadora e atriz francesa Agnès Jaoui, os cineastas Park Chan-wook (Coreia do Sul) e Paolo Sorrentino (Itália), o ator americano Will Smith e o compositor francês Gabriel Yared. Competem este ano trabalhos zero km de Sofia Coppola (O Estranho Que Nós Amamos), Michael Haneke (Happy End) e Bong Joon Ho (Okja), entre outros medalhões da direção.

Até o dia 5 de maio serão anunciados mais concorrentes, além de atrações fora de concurso, incluindo as seletas das seções Clássicos Restaurados e dos Filmes na Praia. Fora o longa de Barbosa, o Brasil disputa ainda na seleção de filmes de escola, a Cinefondation, com Vazio do Lado de Fora, de Eduardo Brandão Pinto, da Universidade Federal Fluminense.

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