Filmes

O Formidável | No Brasil, oscarizado diretor de O Artista lança filme sobre Godard no Festival do Rio

Michel Hazanavicius fala ao Omelete sobre seu retrato do polêmico cineasta
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Ganhador do Oscar de melhor diretor por O Artista, em 2012, o diretor francês Michel Hazanavicius chegou nesta quarta ao Brasil para curtir o feriadão nacional do 12 de Outubro lançando seu novo filme, O Formidável (Le Redoutable), no 19º Festival do Rio. A sessão, neste Dia das Crianças, vai ser às 21h30, no Odeon. É Louis Garrel quem estrela a produção na pele do mítico cineasta Jean-Luc Godard (de Adeus à Linguagem).

"Demorei a estabelecer conexões entre meus filmea, mas a história de Godard me fez notar que estou sempre correndo atrás de personagens desconectados, sem lugar estabelecido na lógica do mundo", diz Hazanavicius ao Omelete no lobby do Hotel Gran Meliá, em São Conrado. "A diferença é que O Artista falava de um deslocado sem grandes virtudes. Como seu cãozinho era fofo, torcíamos por ele. Com Godard é diferente: é um criador transgressor".

Por onde passa, O Formidável causa polêmica. A razão: dono de um estilo adocicado, de comunicação frontal com multidões, Hazanavicius não casa em nada com o cinema semiótico de Godard, um suíço nascido em Paris que gerou uma virada na forma de se fazer e de se pensar cinema, em 1960, a partir de cults como O Acossado e Pierrot Le Fou - O Demônio das Onze Horas, pilares da chamada Nouvelle Vague. Mas, apesar de todo o mal-estar que gera em sua iconoclastia, o longa-metragem de Hazanavicius ganha o sorriso do público por todo o empenho de Louis Garrel em provar que é um dos maiores do Velho Mundo. O bom humor do astro azeita o casamento entre duas estéticas tão distintas quanto a do velho Jean-Luc e a do já cinquentão Michel.

"Venho de uma geração que rachou opiniões em relação a Godard: parte tem respeito e reverência por ele, parte encara mal sua obra, por se opor à logica da Nouvelle Vague, que ele representa", diz Hazanavicius. "Meu cuidado no filme era não me deixar julgar seus atos. Ele pode parecer um babaca às vezes, mas isso todos nós podemos parecer. Mas não se pode negar que estamos diante de um homem que desafiou tabus".

Lançado na França no dia 13 de setembro, quando vendeu 80 mil ingressos no seu fim de semana de estreia, O Formidável recria o período entre 1967 e 1970 no qual Godard lança seu tratado político mais feroz nas telas, o longa A Chinesa, e na sequência, junta esforços ao grupo militante Dziga Vertov. Sua meta é criar um cinema militante. "De uma certa forma, há uma dimensão heroíca na atitude militante de Godard em seu opor, de maneira solitária, à máquina do cinema como indústria", diz Hazanavicius. "Uso storyboard pra poder desenhar todas as cenas que pretendo rodar deixando pro set descoberta do que há de específico em cada ator. Neste filme, tinha um diferencial: levei pro cenário objetos com as cores mais usadas nos filmes de Godard, que são o amarelo, o azul e o vermelho pra trazer algo de godardiano à cena".

No periodo recriado em O Formidável, ele vive uma tórrida (mas um tanto ingênua) paixão por uma atriz, Anne Wiazemsky (vivida por Stacy Martin, que passa a maior parte do longa parcial ou totalmente nua). No auge do namoro, Godard se mete nos protestos de maio de 1968 e tem sua obra questionada pela ala de esquerda mais combativa. Sua resposta é o radicalismo, em seus filmes e em sua vida. "A recriação dos protestos de 1968 é o que de mais documental eu filmei", diz Hazanavicius. "Ali, o que nós temos é um documento da Historia".

Sexta, às 19h10, tem mais uma sessão de O Formidável no Festival do Rio, no Reserva Cultural. Vai ter mais uma sessão dele no sábado, 18h45, no Kinoplex São Luiz.

Leia mais sobre O Formidável

Michel Hazanavicius
29 de Março de 1967 (50 anos),
sobre

Godard é gênio. Assisti a maior parte de seus filmes em mostras dedicadas ao cineasta, mas é inegável, também, que a maior parte de sua obra envelheceu. A fase dita existencialista de seu cinema, com Acossado, Viver a Vida, se mantém intacta. Já o cinema dito político ficou datado e chega a ser um porre mesmo. Fiquei até chateado ao assistir Alphaville, cuja idéia original é muito legal (um pastichão de sci-fi com noir e HQs), e ver o tanto que envelheceu. Ideologias realmente envelhecem (como as de Maio de 68). Mas histórias humanas, seu dramas etc, isso é perene. Interessante que um filme totalmente literário, que busca copiar o texto original do livro quase ponto a ponto, como Farenheit, de Truffaut (obra de Ray Bradbury), em que pesem as limitações tecnológicas -já que hoje parece idade da pedra-, mantém seu frescor.

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