Filmes

Omelete Entrevista John Lasseter e Hayao Miyazaki na Comic-Con

Criadores da Pixar e do Estúdio Ghibli falam sobre animações
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Cada geração tem poucos cineastas que causam mudanças no formato. Pessoas como Orson Welles, Robert Altman e Francis Ford Coppola são raras. Hoje eu tive a sorte de conhecer não só um, como dois cineastas que têm esse nível de influência.

John, como é trazer animações estrangeiras para o mercado norte-americano?

LASSETER: Se você assistiu a A Viagem de Chihiro, pode perceber que o filme tem uma sensibilidade muito japonesa. Então numa platéia japonesa, quando Sen, o personagem principal, olha um prédio enorme com uma bandeira escrita em japonês, todos no Japão vão saber o que é aquele prédio, mas aqui, não.

É esse tipo de coisa que nós olhamos e para deixar no mesmo nível de compreensão, temos que acrescentar alguma coisa, como um personagem dizendo "olha, é uma casa de banho!", são pequenas coisas.

Eu absolutamente não quero mudar nada na visão do Miyazaki, porque os filmes dele são tão profundos e tão únicos e, sabe, às vezes nós não entendemos certas coisas, mas foi isso que ele pretendia. Então eu não vou tentar explicar nada ou acrescentar história ao trabalho dele. Eu vejo até onde ele quer que as coisas fiquem claras ou que elas sejam ambíguas.

E, sabe, eu tento contratar atores para realmente fazer as performances, para que soe natural aos nossos ouvidos. Mesmo sem mudar os nomes dos personagens. Aliás, tenho até uma história engraçada: quando estávamos fazendo A Viagem de Chihiro, se você conhece a história sabe que eles vão para esse mundo e a bruxa rouba os nomes das pessoas e os substitui com nomes que são tarefas que eles executam na casa de banho. Isso é bem inteligente. Então nós estávamos lá pensando "E agora? O que fazer?" Mudamos o nome, ou mantemos o nome em japonês e fazemos alguma coisa? Então eu mandei uma mensagem para o Miyazaki-san, perguntando o que ele gostaria que nós fizéssemos e ele respondeu, "Eu acho que para entender o meu filme todos eles devem aprender japonês." E eu respondi, "Miyazaki-san, assim não vai dar." E ele disse, "John, eu confio em você, então faça o que achar melhor." Então o que nós fizemos foi manter o nome original, mas assim que apresentamos um personagem, dizer, "Oh, o homem da caldeira!", ou algo assim. Tentamos atingir a mesma coisa, mas mantendo o nome.

Por que o Miyazaki não consegue no Ocidente manter o nível de sucesso que tem no Japão? Seria porque os fãs daqui estão mais interessados em desconstruir seus heróis ao invés de heróis que tendem a ser mais nobres e tentam superar suas falhas, como muitos dos heróis de Miyazaki?

LASSETER: Essa é uma ótima pergunta. Eu nunca pensei nisso dessa maneira, mas é uma observação muito interessante. Francamente, é uma questão de fatos simples, além de que o resultado da bilheteria equivale ao número de cinemas onde o filme foi apresentado. A Viagem de Chihiro estava em 100 cinemas em todo o país. Dessa vez [com Ponyo] serão 800 cinemas. É um lançamento de médio porte, então estamos muito animados com isso.

Eu sempre fui um grande advogado dos filmes do Miyazaki dentro da Disney, tentando lançá-los aqui em DVD além do lançamento de cinema, porque eu acredito que uma vez que você vê um filme do Miyazaki, fica viciado. Você continua pensando nele bastante tempo depois de ter visto e quer assistir de novo. Em 1987, eu voltei do Japão com os filmes dele em Laserdiscs e eu e meus filhos, eu tenho cinco filhos, assistíamos aos filmes em japonês! Totoro e todos esses filmes. E eles simplesmente comunicam, é incacreditável!

Chuck Jones sempre dizia que com uma boa animação você pode desligar o som e ainda sim entender o que está acontecendo. E de longe, com os filmes do Miyazaki é possível assistir e sentir o que está acontecendo. E existe uma sutileza e profundidade do idioma. Mas uma coisa que você abordou na sua pergunta é a mensagem dos filmes dele. Ele entra em assuntos profundos como o meio-ambiente, o crescimento, seguir adiante, essas coisas. E ele lida com isso lindamente. É uma coisa que você quase não percebe que ele está chegando em você de alguma forma.

São os filmes favoritos dos meus filhos. Eles sempre levam os DVDs pra casa de amigos para mostra a eles A Princesa Monoke, Totoro e A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado, todos eles. São ótimos.

Esses filmes me influenciaram tremendamente como cineasta. Uma das coisas que o Miyazaki faz, e eu acho que os filmes holywoodianos foram na direção oposta, é apreciar os momentos de silêncio no filme. Se você assistir aos filmes, tem sempre um silêncio antes da ação, que faz a ação ser muito maior. O filme Up - Altas Aventuras é muito influenciado por isso.

(MIYASAKI chega na mesa e se senta)

John, você poderia falar sobre a animação como forma de arte?

LASSETER: Eu acho que nós estamos ficando mais saudáveis, sem sombra de dúvida. Eu acho que o mundo da animação está num lugar ótimo agora, é só olhar pra todos os estúdios que estão fazendo filmes de animação hoje em dia. E tem muitos cineastas de qualidade em muitos estúdios diferentes. Por exemplo, o trabalho que está sendo feito na Blue Sky com Chris Wedge e a equipe dele. Eu acho que a Dreamworks também está cada vez melhor. Acho que a Fox e a Sony também estão produzindo uns filmes bons. E também temos o Miyazaki-san no Japão.

Sabe, eu prefiro fazer parte de uma indústria saudável do que ser o único "player" numa indústria morta. Tem tantos artistas bons por aí, e o objetivo é fazer bons filmes. Eu sempre digo que pra ter sucesso a qualidade é o melhor plano de negócios. Eu sou um grande torcedor da indústria como um todo. E quero que todos esses artistas incríveis fiquem na animação, seria uma pena perdê-los para outros meios.

Eu acho que nós estamos indo muito bem, e o 3D foi um grande impulso para a animação computadorizada, já que a animação dominou o 3D antes dos filmes tradicionais, com atores. Embora hoje já possamos ver ótimos filmes com atores e 3D no horizonte, o que me deixa muito animado.

Miyazaki-san, o senhor cria filmes com a discussão social em mente ou é puramente história?

MIYAZAKI: Tem vários valores nos filmes, mas eu não faço filmes como mensagens.

De onde o senhor tira inspiração para seus filmes?

MIYAZAKI: Da minha vida cotidiana, me inspiro na minha vida cotidiana.

LASSETER: Em Ponyo, a escolinha ao lado do seu estúdio te inspirou de alguma maneira?

MIYAZAKI: Quando eu digo que tiro inspiração da minha vida cotidiana, eu penso na minha vida como um raio de 300 metros ao redor de mim. Então o que eu vejo nessa área é o que me inspira. Falando de Ponyo, de ter tirado inspiração da vizinhança, tem uma pré-escola que fizemos para os filhos dos funcionários da Ghibli, que acabou de abrir, e que pode refletir no próximo filme que eu fizer. Posso, sim, me inspirar ao assistir as criancinhas da pré-escola ao lado do meu escritório.

LASSETER: A escolinha é tão fofa, ele me mostrou e as crianças lá são incrivelmente lindinhas.

Acompanhe a cobertura completa da Comic-Con 2009

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